domingo, outubro 31, 2021

Com furo do teto, projeções de crescimento para os próximos anos pioram

 Larissa Quintino

Veja online

Economistas consultados pelo Boletim Focus, do BC, revisaram para baixo as estimativas do PIB entre 2021 e 2024; Selic deve encerrar este ano em 8,75%

 Evaristo Sa/AFP

Para cumprir a determinação de Bolsonaro, em pagar ao menos 400 reais 

para as famílias que estão no programa de transferência de renda, 

Guedes assumiu o furo do teto de gastos, a âncora fiscal brasileira 

O mercado financeiro não vinha apresentando muito otimismo com as perspectivas da economia brasileira tanto no curto, quanto do médio prazo, mas, após uma semana que o governo admitiu furar o teto de gastos para financiar o novo Bolsa Família, as projeções pioraram bastante. De acordo com o Boletim Focus, divulgado nesta segunda-feira, 25, os analistas do mercado financeiro pioraram as projeções de PIB, inflação e taxa de juros e câmbio, tanto para este ano, como nos próximos.

No caso do crescimento da economia brasileira, os analistas projetam alta de 4,97% neste ano, abaixo dos 5,01% projetados na semana passada e a primeira vez desde junho em que o patamar está abaixo dos 5%. Para 2022, o mercado projeta um crescimento de 1,40%, terceira revisão consecutiva para cima e 0,1 ponto acima de semana passada. Para 2023 e 2024, os analistas também baixaram as projeções, estimando o PIB destes anos em 2% e 2,25%, respectivamente. Na semana anterior, o mercado projetava 2,10% e 2,50%.

A percepção dos economistas é que, com o desrespeito à âncora fiscal visando o pagamento de um programa social durante o ano eleitoral, cria-se uma instabilidade sobre a confiança em se investir no Brasil, afetando frontalmente a economia. As consequências são câmbio mais alto — que tem impacto direto na inflação para as famílias e as empresas — aumento na taxa de juros para segurar esses efeitos e menor crescimento, já que o crédito fica mais caro e a confiança menor. Essa espiral acontece justamente quando se projetava a recuperação da economia brasileira da crise de Covid-19, graças ao avanço da vacinação.

A inflação, por exemplo, deve fechar este ano em 8,96% e 2022 e 4,40% no próximo, de acordo com o Boletim Focus. Essa é a 29ª semana de revisão seguida da taxa para este ano e a 14ª para 2022. Para 2023 e 2024, os analistas também projetam alta. A consequência da alta da inflação é a pressão na taxa básica de juros, a Selic. Segundo os analistas, a Selic deve fechar 2021 em 8,75% ao ano, meio ponto percentual acima da projeção de semana passada e 2 pontos acima da taxa vigente hoje. Nesta quarta-feira, o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne para discutir os rumos da Selic, e uma alta de 1,25 ponto é vista como certa pelos analistas.

Furo do teto

Na semana passada, com a decisão do governo em turbinar o Bolsa Família — rebatizado de Auxílio Brasil — o ministro da Economia, Paulo Guedes, admitiu que seria necessário furar o teto de gastos em cerca de 30 bilhões de reais para bancar o programa, que deve pagar 400 reais entre novembro deste ano e dezembro do próximo. As movimentações causaram muito mal estar no mercado financeiro. Uma das soluções políticas encontradas para tentar ‘driblar’ o furo no teto está na PEC dos Precatórios. O texto prevê a troca da atualização do teto, desconsiderando a correção pela inflação entre julho e junho, como é hoje, para janeiro a dezembro. Com a disparada da inflação neste ano, o teto seria puxado para cima. De acordo com o relator da proposta, deputado Hugo Motta (Republicanos – PB), a mexida no teto, junto com o limite para pagamentos no precatório, deve abrir espaço de 83 bilhões de reais no orçamento do ano que vem, mais que suficiente para bancar o Auxílio Brasil.

Além das reações do mercado, com dólar caindo e a bolsa de valores encerrando a semana com a pior queda em um ano, houve também reações da equipe econômica, com a saída de quatro secretários, incluindo Bruno Funchal, então titular da pasta do Tesouro e Orçamento.