segunda-feira, março 28, 2011

A peãozada deu uma lição aos comissários

Comentando a Notícia

Num artigo que classificaria de parcial, sob o título acima, Elio Gaspari dá suas pinceladas nos conflitos que estouraram em alguns canteiros de obras do PAC e, pelo que interpreta, as razões seriam de responsabilidade apenas das empreiteiras sugadoras de dinheiro público. É de se perguntar: sendo o Estado o contratante, e à luz da legislação atual, pode ele se esquivar de sua responsabilidade? Quem, senão o próprio governo Lula, foi quem mandou às favas as leis, o decoro, a responsabilidade, os estudos precários de impacto ambiental, tudo em nome de fazer sua sucessora. Quem, senão o ex presidente é o maior culpado por se tocar à qualquer preço, sem o necessário cuidado com a viabilidade econômica, ultrapassando as próprias recomendações do Tribunal de Contas da União, para dar continuidade ao projeto de poder de seu partido.

Que as empreiteiras devam ser responsabilizadas pela atual situação de conflito e não atendimento às leis trabalhistas, disso ninguém duvida. Porém, e o senhor Elio Gaspari tão zeloso e crítico nas ações de outros governos não petistas deveria saber, a sociedade não pode fechar os olhos para a omissão do governo do senhor Lula em querer transgredir as leis do país por interesses absolutamente eleitoreiros.

É fácil criticar as construtoras por seu apetite desmesurado de lucro econômico. Mas e o lucro político captado nas urnas pelo senhor Lula e sua sócia de poder, dona Dilma Rousseff, em nome do qual se abandonou de vez todas as indispensáveis regras de boa governança para se mostrar uma inexistente competência gerencial, tal capital não deve ser condenado da mesma forma e em igualdade de responsabilidade?

Quanto mais tempo corre, quanto mais verdades até aqui escondidas da sociedade vão sendo descobertas sobre os porões do submundo político que vigora no Planalto desde 2003, mais a herança de oito anos de Lula se torna maldita.

Segue o artigo do Elio Gaspari, reproduzido pelo blog do Noblat.

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Reapareceu no meio da mata amazônica, dentro do canteiro de obras da Camargo Corrêa, o eterno conflito dos trabalhadores da fronteira econômica com as arbitrariedades e tungas a que são submetidos por grandes empreiteiros, pequenos empresários, gatos e vigaristas. Num só dia, incendiaram-se 45 ônibus e um acampamento na obra da hidrelétrica de Jirau, em Rondônia.

Em poucos dias, a peãozada zangou-se também nos canteiros de Santo Antônio (RO), nas obras da Petrobras de Suape (PE) e em Pecem (CE). Ocorreram problemas até em Campinas (SP). Estima-se que entraram em greve 80 mil trabalhadores da construção civil. Esse setor da economia emprega 2,4 milhões de brasileiros.

Do nada (ou do tudo que fica escondido nas relações de trabalho nos acampamentos), estourou um dos maiores movimentos de trabalhadores das últimas décadas. Sem articulação, redes sociais ou ativismo político, apanhou o governo de surpresa. Assustado, ele mandou a tropa da Força Nacional de Segurança. Demorou uma semana para que o Planalto acordasse.

Numa época em que os sindicalistas andam de carro oficial, o representante da CUT foi a Rondônia com um discurso de patrão, dizendo que os trabalhadores não podiam parar uma obra do PAC. (Essa mesma central emitiu uma nota condenando o bombardeio da Líbia.) Paulo Pereira da Silva, marquês da Força Sindical, disse que nenhuma das duas grandes centrais está habituada a lidar com multidões. De fato, nas obras de Jirau e Santo Antônio juntam-se 38 mil trabalhadores. Há sindicatos na área, mas eles mal lidam com as multidões dos associados. Disputam sobretudo o ervanário de R$ 1 milhão anual que rende a coleta do imposto sindical da patuleia.

As lideranças políticas e sindicais nascidas no rastro dos movimentos de operários do final dos anos 70, quando pararam 200 mil trabalhadores no ABC por conta de um barbudo chamado Lula, mudaram de andar. Preocupados com a distribuição de cargos e de Bolsas-Ditadura, esqueceram-se dos sujeitos que precisam da cesta básica. Não perceberam que as mudanças sociais ocorridas no país haveriam de chegar aos alojamentos dos peões das grandes obras.

Ou as grandes empreiteiras se dão conta de que devem zelar pela qualidade e pelo cumprimento de seus contratos trabalhistas, ou marcas como a da Camargo Corrêa, da Odebrecht e da OAS ficarão marcadas pelas patas dos gatos que entram no recrutamento de seus trabalhadores. Entre as reivindicações de Santo Antônio estava a instalação de banheiros exclusivos para mulheres. Alô, doutora Dilma.

Nenhuma dessas empresas foi fundada por um empreendedor genial, nem tentou um empreendimento de ambição comparável à "Fordlândia". Foi nas matas da Amazônia que, no século passado, Henry Ford atolou seu projeto de extração e industrialização da borracha. Maus modos, incompreensão e complexo de superioridade resultaram numa revolta que destruiu boa parte das instalações do empreendimento. Isso em dezembro de 1930. (As grandes empreiteiras deveriam obrigar seu diretores a ler "Fordlândia", do professor americano Greg Grandin.)

Felizmente, os tempos mudaram e a Força Nacional de Segurança disparou balas de borracha. Em 1996, diante dos sem-terra de Eldorado dos Carajás, a PM paraense disparou tiros de verdade e matou 19 pessoas.