segunda-feira, março 28, 2011

Contas externas melhoram, mas levantam dúvidas

O Estado de São Paulo

O déficit das transações correntes, que havia sido de US$ 5,409 bilhões em janeiro, caiu para US$ 3,391 bilhões em fevereiro. Além disso, em janeiro ele representou 40,3% da conta financeira e, em fevereiro, caiu para 26,5%. É uma melhoria de um mês para o outro, mas em condições que levam a estranhar e a indagar por que, malgrado essa melhoria, a dívida externa total tenha aumentado US$ 14,3 bilhões em relação a dezembro.

Graças ao aumento das exportações, há em fevereiro um crescimento sensível do saldo comercial, que passa de US$ 424 milhões para US$ 1,198 bilhão. No entanto, o crescimento mais significativo se verifica nos Investimentos Estrangeiros Diretos (IEDs) líquidos, cujos ingressos passam, de um mês para outro, de US$ 2,956 bilhões para US$ 7,727 bilhões.

Essas entradas contrastam com a evolução dos investimentos em ações e em renda fixa, que caíram em fevereiro, de US$ 2,699 bilhões para US$ 1,263 bilhão e de US$ 676 milhões para US$ 587 milhões, respectivamente. Esse recuo se explica pelo aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), mas leva a indagar se alguns IEDs não foram utilizados para mascarar operações de renda fixa ou variável, cujo rendimento aumentou com a elevação da taxa Selic.

Os IEDs tiveram, de fato, um crescimento muito sensível, mas que foi acompanhado por um forte aumento de 49,3% das remessas de lucros e dividendos, que, em relação a janeiro, chegaram a US$ 2,804 bilhões em termos líquidos.

Os serviços, em termos líquidos, apresentaram redução de 0,9% em relação ao mês anterior, mesmo no caso das viagens ao exterior, embora o Banco Central (BC) pretenda aumentar, de 2,38% para 6,38%, o IOF sobre as despesas externas com cartão.

O que não parece fazer sentido é o aumento da taxa de rolagem dos empréstimos externos, que em fevereiro foi de 538%, contribuindo para a elevação da dívida externa bruta, sobre a qual estamos pagando juros mais elevados. A esse ônus se acrescenta o custo da manutenção de nossas reservas internacionais, de US$ 307,5 bilhões e que em fevereiro aumentaram US$ 9,8 bilhões. Essas reservas representam uma garantia suficiente em relação à divida. Novos empréstimos externos aumentam apenas o fluxo cambial. Até o dia 23 de março o fluxo do mês já somava US$ 11,810 bilhões, e obrigava o BC a intervir e comprar o excedente, mas emitindo títulos da dívida interna para evitar um excesso de liquidez a um custo muito elevado, que poderíamos evitar limitando os empréstimos externos.