segunda-feira, março 28, 2011

Quando celebridade vira falta de seriedade

Adelson Elias Vasconcellos

Há uma histeria inexplicável correndo solta na classe artística, porque a imprensa resolveu publicar os capilés de dinheiro público que são distribuídos pelo Ministério da Cultura em favor de alguns artistas.

De início aviso que não sou contra que o Ministério da Cultura promova, com dinheiro público, a... cultura. Sou contra, isto sim, que o dinheiro público seja empregado para artistas de renome que não precisam do dinheiro público para serem atração em seus espetáculos. Sou a favor, sim, que se promova renovação de talentos, novos artistas que, por não serem celebridades, praticamente não encontram espaço para se promoverem e mostrarem seu talento. Sou a favor, por certo, que o dinheiro público seja empregado para a construção ou reforma de salas de teatro, museus, bibliotecas – mal do qual padecem os mais de 5 mil municípios no país -, promoção de feiras artesanais, cursos e oficinas de musica, dança, arte dramática, dentre outras. É aí que a cultura se dissemina e atinge todas as camadas. Patrocinar celebridades prá quê? E POR QUÊ?

No caso recente da cantora Maria Bethania, de quem, por sinal, sou grande admirador por sua carreira, em que seria criado um blog de poesias e pelo qual a cantora recolheria aos próprios cofres, cerca de 600 mil reais, dinheiro este saído do próprio patrocínio, acredito ser uma impostura. Qualquer blog que a cantora criasse, fosse para recitar poesias ou promover pesquisas no campo da cultura, acredito que por sua presença, por exemplo, seria o suficiente para atrair patrocínio privado sem a necessidade de se recorrer a Lei Rouanet, ou ao dinheiro público.

Muito mais escandaloso é o fato de que a cantora empregaria o recurso não apenas para a criação do próprio blog, mas cerca de 50% seriam direcionados para si mesma.

Não, dinheiro público não tem esta finalidade, nem se pode tentar justificar que seu uso estritamente pessoal, se apresenta com a frase “mas é a Bethânia” como se tem lido. Neste caso, e a depender do personagem autor do crime, os larápios seriam perdoados? Negativo. Bethania & Amigos não pode se valer deste argumento tosco para se apropriar de algo que não lhe pertence, ainda mais para uso exclusivo. O dinheiro público, tirado à fórceps dos brasileiros, muito mais dos menos favorecidos do que das camadas mais abastadas da sociedade, não pode ter destinação privada, ainda mais para quem dele não precisa para se promover.

Acredito que o projeto do blog de poesias pode ser pioneiro no conteúdo e na forma, e sendo obra de quem é, não encontraria dificuldades no meio empresarial para ser patrocinado, mas sem a necessidade destes patrocinadores reivindicarem renúncia fiscal.

Até a própria imprensa serviria de canal publicitário para promover a criação de um blog da Bethânia dado o seu conteúdo e, claro, sua qualidade.

E o pior é que Bethania não é exclusiva na lista de artistas já consagrados a se beneficiarem do aporte do Tesouro para espetáculos. Creio que esteja havendo uma total inversão de valores nesta questão do patrocínio oficial. Celebridade não pode se transformar em sinônimo de falta de seriedade. A cultura brasileira precisará e precisa sim de apoio financeiro dos recursos do Estado em áreas bem mais carentes e necessárias do que ser destinado este apoio apenas para algumas celebridades já consagradas e que, por serem quem são, deveriam abandonar este vício de se sustentarem às custas do Tesouro. E, até por serem quem são, deveriam emprestar seus nomes e talentos para promoverem movimentos, espetáculos e as artes em geral sem precisarem recorrer ao patrocínio sem riscos pelo Estado, quanto mais para retirarem deste patrocínio, cerca de 50% do total para engordarem suas poupanças .... E isto, senhores, passa muito longe de cultura, e tem nome e sobrenome próprios.