segunda-feira, março 28, 2011

Escolas inúteis e escolhas ruins

Adelson Elias Vasconcellos

Manchete de capa na edição deste domingo do Jornal A Gazeta, Cuiabá, informa aquilo que todo o país já sabe: Estudantes com 15 anos não sabem ler e escrever. Isto mais do que o resultado de um triste diagnóstico, revela duas coisas importantes: de um lado, a falência do atual sistema de ensino brasileiro, que joga bilhões de reais num sistema que se mostra totalmente ineficiente. De outro, que as propagandas veiculadas pelos Ministério da Educação e Secretaria Estaduais de Educação não passam de grossa mentira. Entendem que, de tanto insistir na mentira da “evolução e progresso do ensino”, os alunos se tornarão, um dia quem sabe, mais sábios ou melhores do que são atualmente.

Realmente, não dá para fechar os olhos diante desta realidade assustadora. Já disse aqui centenas de vezes que, se o país deseja realmente ingressar na comunidade restrita de países desenvolvidos, precisará investir bem e como prioridade número um, em Educação. E educação de qualidade e não esta enganação a que os jovens estão sendo submetidos.

Não existe aprendizado sem disciplina, sem exigência, sem cobranças e sem a competente e indispensável premiação ao mérito. Esta história, vesga e torta, de se aprovar alunos sem um mínimo de conhecimentos para cursar séries mais avançadas do ensino, apenas pela faixa etária, é de um ridículo deprimente.

O Estado de São Paulo adotou este critério de progressão continuada mas com uma diferença em relação ao restante do Brasil: em vez de um, são dois os professores em sala de aula e isto apenas nas primeiras séries do ensino básico. Tal medida se não chega a ser um primor em termos de solução da má qualidade, pelo menos teve o mérito de obter alguns bons resultados dada a uma assistência e acompanhamento mais presente junto ao aluno. Mas ainda assim, é apenas um paliativo, não resolve todo o problema da má qualidade.

Algumas razões para este doloroso quadro estão no excesso de disciplinas inúteis a retirar preciosa carga horária de matérias fundamentais. Má formação dos professores, muitos dos quais estão mais preocupados em praticar política partidária dentro dos sindicatos do que em se dedicar com mais amor à sua própria formação e aprimoramento. Péssima remuneração para os profissionais do ensino, coisa antiga e que vem sendo empurrada com a barriga pelos governantes. Más condições físicas das instalações de grande número de escolas, quando não total falta de meios. E, por último, falta de maior cobrança de parte da própria sociedade junto aos governos, dado que, para muitos pais, é suficiente que seus filhos estejam matriculados para poderem receber benefícios sociais e merenda escolar. Sabendo que 75% da população é analfabeta funcional, sem dúvida, que nem esta própria sociedade tem condições de avaliar os conhecimentos que estão sendo passados para seus filhos além de poderem, em casa, acompanhar e aferir o desempenho que eles vem desenvolvendo.

Quando vejo um governo federal defendendo e sustentando a necessidade de construção de um trem bala, ligando São Paulo ao Rio de Janeiro, cujo orçamento sequer se sabe ao certo, podendo ir de 32 a 68 bilhões de reais, fico a me perguntar até quando insistiremos em jogar dinheiro em inutilidades, sem dedicar a aplicação destes recursos naquilo que realmente interessa e importa para o país neste momento.

Quando vejo que o país se apressou de forma açodada em querer sediar três grandes eventos mundiais, Copa das Confederações, em 2013, a Copa do Mundo em 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016, fica difícil entender quais são, além do pão e circo, o efetivo interesse e comprometimento da classe política, com o bem estar da população e futuro progresso do país como um todo.

O que impressiona é que as pessoas com algum relevo em termos culturais, profissionais, econômicos e até políticos, que poderiam se posicionar contrários a tamanho descaso, simplesmente viram às costas para o problema e sequer são capazes de uma crítica contra esta política do atraso e subdesenvolvimento.

Não interessa se a população tem celular, carro e tevê de alta definição. A escuridão educacional as tornam indivíduos sem poder de decidirem sobre si mesmos, são fantoches capitaneados pelos interesses escusos dos governantes da ocasião. Bens materiais da forma como se está ofertando não passam de meras esmolas para se aniquilar o sentimento de indignação e protesto contra governos ocupados por mercenários do Tesouro. Não apenas a capacidade de discernir está sendo alijada: mas a própria capacidade dos indivíduos de decidirem por si mesmos.

Em paralelo, sem educação, saúde, segurança e saneamento não há como conceder-se emancipação cidadã à grande maioria.

Que a classe política se comporte de forma tão miserável, moral e eticamente, não chega a surpreender. Inexplicável e vergonhosa, no caso, é a omissão e o silêncio criminoso daqueles que podendo comandar um processo de mudanças, optam por torcerem o rosto para o lado, para fingirem que não sabem de nada.

Quando olho para os movimentos de revolta popular que estamos assistindo nos países árabes, confesso sentir um pouco de inveja daquela gente: cansaram de opressão, tirania e exploração em favor de uns poucos. É de se esperar que no Brasil não tenhamos tal necessidade, de todo um povo se insurgir contra os desmandos de seus governantes. E que fique a lição: não há ditadura tampouco tirania que, no devido tempo, não provoque rebelião popular. Mesmo naqueles países em que há eleições – fajutas, só para enganar a torcida – os partidos dominantes e assentados há décadas no poder, estão sendo repelidos.

Que os políticos brasileiros tenham em mente este aprendizado: o povo é que nem sabão. Você tenta segurá-lo entre mãos e o consegue por certo tempo, mas um dia, ele escorrega entre seus dedos e voa para longe.

Portanto, está na hora da educação começar a ser tratada com a seriedade que merece, e por todos: não se trata apenas de competência a mais por parte dos governantes, mas de todos os cidadãos entenderem que somente por ela, a educação, se consegue ser um homem livre, de direito sim, porque a lei já assegura isto, mas de fato, também, por cada um conquistar o comando de sua própria vida no conjunto da sociedade em que vive.