sábado, abril 05, 2008

Uma bomba-relógio prestes a explodir nas mãos dos prefeitos

Adelson Elias Vasconcellos

Uma reportagem no Jornal do Brasil, e sobre a qual falaremos no próximo post, dá conta de que, diariamente, são 290 mil pessoas dirigindo embriagadas pelas estradas e ruas do país. Em parte, isto explica porque o trânsito no Brasil mata mais, por ano, do que todas as guerras somadas juntas. Além do problema social e humano que a perda destas vidas acaba acarretando, o prejuízo que causa é imenso. E disto já se falou muito, mas, na prática, pouco ou nenhum progresso se obteve.

Só que isto acaba sendo um tormento conseqüente que aflige o povo brasileiro em razão de que, na totalidade de nossos municípios, e são mais de 5.000, poucos, raríssimos são os que contam com um plano viário decente e voltado para o futuro. O normal é a ação das prefeituras no sentido de empurrarem os problemas com a barriga, entregando a solução nas mãos dos futuros prefeitos que os sucederão.

Em plano federal, não é diferente, basta ver o abandono em que se encontram nossas principais rodovias, principalmente a de tráfego intenso de cargas, transportando riqueza dentro do território nacional, ou transportando a produção agropecuária de seus pontos de origem até o destino, sejam as fábricas, sejam os portos.

Se o diagnóstico do presente já é horroroso, imagine-se dentro dos próximos 5 anos. Há uma bomba relógio prestes a explodir, e ela será detonada justo neste espaço de tempo. Pode até acontecer antes, como é o caso de São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, em destaque, mas também poder-se-ia incluir neste rol todas as capitais e cidades de porte médio.

O estopim desta bomba-relógio é a facilidade de crédito para a compra de automóveis. Estão vendendo como nunca, e o ingresso desta frota nova todos os anos nos trânsitos já problemáticos dos grandes e médios centros urbanos, nos levará fatalmente ao caos.

Analise-se São Paulo, por exemplo. Diariamente, os quilométricos engarrafamentos além dos transtornos que trazem quanto a compromissos que se deixa de atender, dos negócios que são adiados, além de contribuirem ainda para aumentar as poluições sonora e ambiental já em níveis quase insuportáveis, além de elevar os níveis de estresses das pessoas.

Os investimentos são escassos e, se atentar para o capítulo dos transportes de massas, a coisa chega a beirar a calamidade pública.

Não se está aqui preconizando que o governo restrinja a venda de veículos. A comercialização em níveis atuais é que está causando dores de cabeça diante da falta de planejamento viário e rodoviário.

Há uma urgente necessidade das nossas autoridades passarem a dar prioridade em grau de urgência, antes que seja de emergência, para o re-planejamento urbano das grandes cidades que não suportarão sem traumas e doses cavalares de problemas, o volume de novos carros que nelas ingressam anualmente.

Da mesma forma, é mínima a preocupação em dotar o transporte de massas de maior capacidade e conforto para atender uma demanda cada mais crescente. Fosse o nosso transporte coletivo bem estruturado e voltado à atender seus usuários com um mínimo de respeito, e por certo muitos até poderiam prescindir de seus carros em seus deslocamentos para o trabalho por exemplo, o que contribuiria para desafogar os engarrafados trânsitos nas horas de maior pique.

Para isso, poderia, por exemplo, o tal Ministério das Cidades, que até agora não disse a que veio, provocar discussões sobre o tema e, de forma coletiva, encontrar soluções de curto, médio e longo prazos.

Poderiam, também, nossas autoridades tornarem-se um pouco mais responsáveis na fiscalização destes trânsitos conturbados, agindo com rigor e sem concessões para motoristas alcoolizados, na concessão com maior critério para novas habilitações (o que não faltam são motoristas que sequer conseguem dirigir carrinho de pipoca, quanto mais um veículo como o automóvel), bem como em licenças de trafegabilidade para veículos caindo aos pedaços e com péssima manutenção.

A punição ao mau motorista não é apenas a aplicação de um simples castigo para aumentar a arrecadação dos cofres dos municípios, (como muito cretino alega para evitar a aplicação da lei em benefício de todos) mas, sim, para reduzir drasticamente o excessivo número de acidentes e mortes. Quem não tem competência para estar à frente de um volante, que use outro meio de transporte para se deslocar. Inadmissível é a eterna omissão dos órgãos e pessoas responsáveis, dando licença para matar para pessoas muitas vezesa reincidentes no cometimento de acidentes provocados por sua imperícia ou na simples desobediência às leis vigentes.

Não há, nesta questão, meio termo. Para que a comercialização de veículos novos no país continue no ritmo de crescimento atual, é urgente que as autoridades, em todos os níveis, prefeituras e governos estaduais e federal, se unam para que tais facilidades não acabem transformando-se em um terrível pesadelo. Porque é certo que, a se manter a falta de ações e de planejamento que presentemente se vê, o rigor no cumprimento da legislação de trânsito que permite que qualquer um faça qualquer coisa à frente de um volante, na verdade, não se estará dando um “conforto” do mundo moderno para o bem das pessoas. Estaremos lhe entregando uma arma que pode ser acionada contra muitos, sendo alguns até inocentes, bem como por conta do próprio motorista imprevidente que, apesar de sua inabilidade para dirigir e da seqüência de infrações impunes frutos de uma fiscalização ineficiente e omissa, poderá ser usada contra si mesmo.

Para o tanto que se vende atualmente, as ações para melhoria do tráfego já deveriam estar em plena execução e conclusão. De alguma forma, e algum prejuízo, haveremos de ter e sofrer nos próximos anos. Isto é absolutamente certo. Contudo, não se pode esperar que o caos se instale de vez para agir. A função dos agentes públicos não é administração de crises, e sim, sobretudo, de planejamento, de antecipação a problemas que visivelmente estão se criando. O quadro que estamos vendo em São Paulo hoje, poderá se repetir em cidades como Rio de Janeiro, Brasília e outras nos próximos anos. E o custo, neste momento, poderá ser muito maior do que se iniciar o trabalho agora. Sem contar, e o prejuízo seria irreversível, nas milhares de vidas que se perderá por conta da incapacidade e imprevidência das autoridades. Depois de a bomba explodir, de nada vale o choro, restará apenas contar e enterrar os cadáveres. Acho que este país já perdeu vidas em demasia por conta dos apagões ocasionados pelo poder público. E já está da hora para agirem.