Demétrio Magnoli, Estadão
''Como todo mundo, eu gostaria de viver uma longa vida. A longevidade tem sua importância. Mas não estou preocupado com isso agora. Só quero cumprir a vontade de Deus. E Ele me permitiu subir a montanha. E eu vi lá de cima. E enxerguei a terra prometida. Posso não chegar lá com vocês. Mas quero que saibam que nós, como um povo, chegaremos à terra prometida.'' Martin Luther King pronunciou essas palavras há exatos 40 anos, naquele que foi seu último discurso. Menos de 24 horas depois, o homem que tinha um sonho tombava morto, alvejado a tiros na sacada de um hotel modesto de Memphis, no Tennessee. Duas semanas atrás, outro discurso, sobre o mesmo tema, pronunciado por Barack Obama, evidenciou a distância que ainda separa a nação americana da ''terra prometida''.
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Obama homenageou King, mas o discurso mais importante de sua campanha presidencial, talvez de sua vida, nasceu de uma imposição, não de uma opção. Dias antes, o pastor negro de sua igreja, que foi seu confessor, oficiou seu casamento e batizou seus filhos, amaldiçoara os Estados Unidos como uma ''nação racista''. O candidato precisava reagir a um escândalo - e escolheu o caminho mais digno. No lugar de apenas se dissociar de uma maldição revestida de amargura e rancor, ofereceu um balanço do ''impasse racial no qual estamos presos há muitos anos''. A peça, elegante e pungente, é uma crítica devastadora às políticas de raça.
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O ''povo'' de King não eram os negros, ou ''afro-americanos'', na linguagem do culturalismo essencialista, mas a nação americana inteira. O seu sonho, ''profundamente enraizado no sonho americano'', era uma visão pós-racial, expressa na esperança de que ''meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação na qual não serão julgados pela cor da sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter''. A revolução que ele personificou foi interrompida pelos arautos do multiculturalismo, que rodearam a crença nas raças com as paliçadas defensivas das políticas de preferências raciais. A inversão do sinal sustentou a velha equação que faz cada um ser julgado pela cor da sua pele.
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Gueto, mais que a segregação urbana dos ''diferentes'', é o círculo de giz pelo qual se delimitam linguagens, culturas, políticas. O racismo americano produziu um país pontilhado de guetos. Após a morte de King, a reação multiculturalista triunfante coloriu os muros dos guetos, consagrou a separação como um ideal e carimbou os negros com o rótulo de ''afro-americanos'', que quase significa ''estrangeiros''. Nas universidades, junto com as cotas raciais, formaram-se guetos intelectuais devotados à celebração de supostas diferenças culturais essenciais. No interior do Partido Democrata, cristalizou-se um gueto político organizado sobre a plataforma das preferências de raça que almeja converter os negros em vasta clientela eleitoral. Os racialistas brasileiros adaptam como podem os dogmas formulados nesses dois guetos.
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No seu discurso mais célebre, de 28 de agosto de 1963, King invocou a promessa de igualdade da Declaração de Independência. A mesma invocação inicia e conclui o discurso recente de Obama, cuja candidatura nasceu como negação da negação multiculturalista e como retomada do fio partido há 40 anos. O tear do qual emana esse fio é a Revolução Americana, que ainda não cumpriu integralmente sua promessa fundadora.
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A identidade dos Estados Unidos construiu-se sobre uma tensão de fundo entre aquela promessa e a concepção multiculturalista do melting pot, que é o caldo constitutivo da nação. No melting pot, os componentes do povo vivem juntos, no mesmo território e sob o mesmo governo, sem jamais se misturarem efetivamente. A noção de mestiçagem, como intercâmbio biológico e cultural criador, não tem lugar nesse conceito que celebra os muros e abomina as pontes. A novidade de Obama está na descoberta da mestiçagem como antídoto contra o multiculturalismo.
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Há fissuras reais no mundo dos estamentos ''raciais'' americanos. O censo dos Estados Unidos, ao contrário do brasileiro, não inclui nenhuma categoria destinada a abrigar mestiços. Mas os imigrantes latinos têm dificuldades em se descrever segundo categorias raciais rígidas e nos censos de 1990 e 2000 mais de 40% deles escolheram a opção ''alguma outra raça'', prevista apenas para acomodar insignificâncias estatísticas. Esse ato de subversão da lógica censitária, que ameaça implodir a consistência das séries históricas, representa a introdução de um imaginário de mestiçagem na caixa de vidro das raças.
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A caixa de vidro experimenta outras marteladas. Há um ano, a Suprema Corte declarou inconstitucionais as políticas educacionais baseadas em cotas raciais e o juiz Anthony Kennedy associou uma indagação incomum a um protesto inesperado: ''Quem exatamente é branco e quem é não-branco? Ser forçado a viver sob um rótulo racial oficial é inconsistente com a dignidade dos indivíduos na nossa sociedade.'' Nos últimos meses, centenas de milhares de jovens, negros e brancos, revelaram-se fartos das políticas de raça ao acorrerem em massa aos comícios gigantescos de Obama.
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''Sou o filho de um homem negro do Quênia e de uma mulher branca de Kansas. (...) Sou casado com uma americana negra que carrega dentro dela o sangue de escravos e proprietários de escravos - uma herança que transmitimos a nossas duas preciosas filhas. (...) É uma história que marcou a minha personalidade genética com a idéia de que essa nação é mais que a soma de suas partes - que, a partir de tantos, somos verdadeiramente um.'' Obama é um mestiço, palavra que não encontra correspondência rigorosa na língua inglesa. A sua ancestralidade genética não é tão incomum entre os americanos e, em si mesma, carece de significado político. A singularidade relevante encontra-se na sua visão da mestiçagem como ponte entre King e a Declaração de Independência e como inspiração para a reinvenção da identidade americana.