quinta-feira, dezembro 30, 2010

O mito e o mistificador

Adelson Elias Vasconcellos

Neste apagar das luzes de 2010, bem que o senhor Luiz Inácio poderia ter nos poupado de constrangimentos e humilhações. Afinal, faltando poucas horas para deixar de ser “o” para se tornar “ex”, um pouco de senso do ridículo não lhe faria falta. Um pouco de menos ignorância e mau caratismo, também não.

O futuro “ex” parece não perceber que, na política, como em tudo na vida humana, ele é passageiro. A vida e a obra de cada um cabe aos “outros” o julgamento, não a si mesmo. Lula quer ele próprio escrever o libelo em que a História o avaliará. Claro que se trata de uma arrogância e uma estupidez. Mas que seria de Lula se tais “predicados” não fizessem parte de seu cardápio pessoal?

Para mim, a avaliação de seus oito anos de reinado, sequer passa perto dos seis volumes que registrou em cartório. Aquilo não é material para se levar a sério, deve ser classificado na faixa de obras de ficção. Nada além disto. Como, ainda, ponho de lado toda a bazófia e a verborragia fedorenta destilada em seus discursos, muitos apenas de ocasião. Lula sempre foi e jamais deixará de ser um político oportunista e demagogo, e, como governante, um irresponsável que unicamente pensa em seu proveito próprio mesmo que tal proveito prejudique o país que governe. Tal inconsequência foi uma constante em seu governo . Também não o julgo pelo tal “carisma” ou pela tal “popularidade” e “aprovação”. Tiririca, um simples e mero palhaço, foi eleito com festa e tem enorme prestígio nacional, mas como palhaço, não como político.

Julgo Lula por dois vetores: pelo país que poderia ter deixado, e por sua repetida, exaustiva e totalmente desnecessária – porque inútil e desagregadora – louvação à ignorância. O homem esqueceu que, apesar de ser ele o presidente, o seu governo não foi construído unicamente por seu trabalho. Esqueceu que um “governo”, não sendo ditatorial, é formado por uma equipe, muitas vezes pessoas de maior gabarito, formação e competência que o próprio governante. São elas que fazem acontecer, compete a elas gerir os recursos, tomar decisões, encontrar soluções e dar uma cara ao governo. Isto é elementar, não para Lula, claro, que se acha acima dos demais mortais. Sua arrogância não tem limites.

Quanto ao segundo fator, suas mesuras constantes à ignorância, bem, basta ver o baixo índice de moralidade que campeia na administração pública, em todos os seus níveis. Em seu favor, tal descalabro não teve começo agora, vem de décadas e mais décadas de abusos. Mas é em seu reinado que a moralidade mais encontrou favorecimento para se decompor. Será preciso uma depuração completa, uma total higienização do pensamento nacional, para nos livrarmos da cultura que Lula incrustou na vida política brasileira.

E, dado que termina seu governo com os tais índices de aprovação nas alturas – conforme os institutos de pesquisas “encomendados” – fica claro que poderia ter feito mais e melhor, e não mais e pior, como se constata neste final de 2010.

A partir daí o primeiro vetor assume sua real dimensão. Que país Lula poderia ter deixado, e não o fez. Em todos os campos é visível que Lula contribuiu muito mais para mostrar o que faltou fazer do que obras prontas e realizadas. Tire-se o discurso e a propaganda, e vocês se depararão com um país faminto pela presença competente e permanente do Estado. É impressionante as oportunidades que deixamos de aproveitar para alavancar o desenvolvimento do país. Confronte todos os indicadores de eficiência, em todos os setores, e logo perceberemos que Lula consagrou o Brasil como o menos eficiente dos governos que o país já teve. Nos rankings de avaliação, em que eficiência é o indicador principal,  não apenas perdemos terreno, como ainda ficamos estacionados naqueles em que nossa era um pouqinho melhor. Neste sentido, na educação e na qualidade de vida o país derrapou na curva, vergonhosamente. Podendo fazer a revolução em favor do país, Lula optou por não fazer. E, claro, como outros países estão fazendo seus deveres de casa, não apenas estacionamos, mas fomos ultrapassados e aumentamos ainda mais nosso atraso.

Festejam-se indicadores econômicos e sociais como conquistas? Ora, volte-se no tempo e se busque o verdadeiro semeador dos bons frutos que hoje colhemos. Não, nem isso coube a Lula fazer. Até pelo contrário. Quando da semeadura, tentou iterferir e impedir o plantio.

Como venho afirmando há muito tempo, Lula é obra da enorme massa ignorante que habita o Brasil. Não lhe nego o oportunismo político: poucos no país, ontem ou hoje, se equiparam a ele. Desta virtude, resultou um personagem mitificado e mistificador. E poucos conseguem visualizar esta realidade, dado que os fatos são presentes demais, será preciso espaço de tempo necessário para o país despertar desta letargia. Claro que sempre haverá quem sequer deseje sair da cegueira. Afinal, há ainda muitas viúvas de Getúlio entre nós...

Nenhum outro presidente, contudo, teve tamanho volume de condições favoráveis para construir uma grandiosa obra em favor do país como Lula. Mas nenhum outro insistiu tanto em desperdiçá-las. Ao insistir em ele próprio escolher sua sucessora, sequestrou de forma miserável a vontade popular apenas para consagrar seu nome, para esparramar de forma bestial seu mito, seu culto, seu personalismo. Deste modo, e como nenhum outro jamais ousou fazer, Lula tornou o povo brasileiro – ao menos sua grande maioria – apenas uma massa de manobra para sua personificação exclusiva.

Assim, Dilma terá que governar dois Brasis em um mesmo mandato: o mitológico, obra de Lula e sua corte, e o real, em que não faltam problemas e carências, todas deixadas de lado por Lula da mitologia e da mistificação. Resta saber para qual Brasil Dilma dará priroridade...