segunda-feira, fevereiro 26, 2007

O enclave do MST

Humberto Trezzi , Jornal Zero Hora(RS)

Nas duas últimas semanas, casais, crianças, lonas pretas e sacolas cheias de roupas e flâmulas vermelhas desembarcaram de dois caminhões em dois sítios do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no norte do Estado.
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Os militantes, em romaria, chegam com o propósito anunciado de esperar o momento certo para deflagrar invasões em fazendas lindeiras às terras do MST. As propriedades visadas ficam num perímetro de 40 quilômetros de extensão por 20 de largura - entre as cidades de Carazinho e Pontão - que se tornou o front da reforma agrária do Rio Grande do Sul.
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Uma das recordistas em produção agrícola no Estado, a região, chamada Planalto Médio, vive uma disputa crescente e violenta pela posse da terra. Zero Hora fez uma pesquisa e constatou que essa linha de frente, que compreende ainda os municípios de Sarandi, Almirante Tamandaré do Sul e Coqueiros do Sul, vivenciou entre os anos 2001 e 2006 mais de cem ocorrências policiais registradas em fazendas.
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São 20 invasões de propriedades rurais, 18 registros de furto e abate ilegal de gado, 12 incêndios de lavouras, além de 70 atos de depredação de propriedades rurais, o que inclui corte de árvores e destruição de veículos usados na lavoura.
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Em quase todos os casos, testemunhas e vítimas ouvidas nos inquéritos policiais apontam militantes do movimento dos sem-terra como autores. Quatro líderes regionais do MST, que tiveram prisão preventiva decretada pela Justiça como supostos responsáveis pela onda de delitos, estão foragidos.
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- Muitas das aspirações do MST são legítimas, mas aqui no Planalto Médio eles ultrapassaram todo o limite do razoável. O que muitos sem-terra fazem aqui é um escárnio, querem transformar a região num enclave do movimento, na versão gaúcha do Pontal do Paranapanema (região de conflito agrário no oeste de São Paulo que só esta semana sofreu 13 invasões de terras) - descreve o juiz Orlando Faccini Neto, de Carazinho, que ordenou a prisão dos líderes do MST.
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O epicentro desse cadinho de ódios é a fazenda Coqueiros do Sul, situada no município com o mesmo nome e pertencente a Félix Guerra. Ela foi invadida sete vezes desde 2004, e o fazendeiro registrou 71 ocorrências criminais contra o MST.
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Região ambicionada é o celeiro do Estado
Guerra está cercado pelos sem-terra. O exército de simpatizantes do movimento, num raio de até 20 quilômetros da fazenda, é composto de 7,4 mil pessoas. São quatro acampamentos de sem-terra e pequenos agricultores que reúnem 2,4 mil pessoas, além de outras 5 mil radicadas em nove assentamentos na Fazenda Annoni, que podem se reunir ao grupo caso decidam fazer uma invasão em massa.
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O MST não nega que deseja ocupar a fazenda, "na lei ou na marra", como definem seus líderes. As razões são várias, a começar pelo tamanho. Os 7 mil hectares pertencentes a Guerra representam 200 vezes a área do Parque da Redenção, em Porto Alegre.
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A família Guerra entregou ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) um documento com mais de 1,2 mil páginas que atestaria a alta produtividade da fazenda, comenta Paulo Guerra, filho do proprietário. Mas isso pouco importa para o MST.
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- Não é uma questão de produtividade, é questão moral. Ninguém pode ser dono de uma área desse tamanho - resume Ivanir Loureiro, líder do MST no acampamento Oziel Alves, encravado na face leste da fazenda Coqueiros do Sul. A decisão de formar um enclave de minifúndios ligados ao MST tem fundamentos econômicos, pois a área ambicionada é um celeiro do Estado. As terras férteis dali valem até 50% a mais do que na região da Campanha, por exemplo. E na fronteira os fazendeiros são unidos e um alvo mais difícil.
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O projeto é fazer uma MSTlândia
Félix Guerra, o dono da Fazenda Coqueiros, foi transformado em desafeto preferencial do MST também por motivos ideológico-sentimentais. Ele é o último grande proprietário na região que foi berço do movimento dos sem-terra. A menos de 20 quilômetros de sua fazenda está situada a Encruzilhada Natalino, onde milhares de sem-terra expulsos das reservas indígenas de Nonoai realizaram em setembro de 1979 a primeira invasão, da fazendas Macali e Brilhante, protagonizada pela entidade que viria a ser chamada, anos depois, de MST.
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É junto dali que fica a Fazenda Annoni, onde o movimento foi oficialmente fundado. Todas essas áreas invadidas no passado foram desapropriadas pelo governo federal e entregues a integrantes do MST. Acuar Guerra, portanto, é questão de honra para os sem-terra, alerta um documento preparado pelo serviço reservado da Brigada Militar e anexado a processo judicial criminal sobre delitos ocorridos em fazendas, que tramita em Carazinho.
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Sem a presença de sua fazenda, ficaria consolidado o projeto de uma MSTlândia de matizes socialistas, encravada entre as duas principais estradas da região, a BR-386 e a RS-324. A desapropriação da Fazenda Coqueiros é apoiada por 23 prefeitos da região.