Paulo Guedes, Revista Época
“A luz que a experiência nos dá é a de uma lanterna na popa, que ilumina apenas as ondas que deixamos para trás”, lamenta Samuel Coleridge, no registro de Roberto Campos, na introdução de suas extraordinárias memórias, A Lanterna na Popa (1994), e de Barbara Tuchman, no epílogo de sua A Marcha da Insensatez (1984). Já Alan Greenspan, em seu interessante A Era da Turbulência (2007), recorre a um insight de Winston Chuchill – segundo o qual, “quanto mais se recua na observação do passado, mais se avança na visão de futuro” – para anunciar com sua lanterna na proa: “Temos muito a deduzir sobre a economia dos Estados Unidos e do mundo nas décadas vindouras”.
“A luz que a experiência nos dá é a de uma lanterna na popa, que ilumina apenas as ondas que deixamos para trás”, lamenta Samuel Coleridge, no registro de Roberto Campos, na introdução de suas extraordinárias memórias, A Lanterna na Popa (1994), e de Barbara Tuchman, no epílogo de sua A Marcha da Insensatez (1984). Já Alan Greenspan, em seu interessante A Era da Turbulência (2007), recorre a um insight de Winston Chuchill – segundo o qual, “quanto mais se recua na observação do passado, mais se avança na visão de futuro” – para anunciar com sua lanterna na proa: “Temos muito a deduzir sobre a economia dos Estados Unidos e do mundo nas décadas vindouras”.
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Uma boa interpretação de um momento histórico exige tanto a lanterna na popa quanto na proa. Pois o tempo é uma dimensão fundamental em eventos econômicos. Há enormes defasagens entre causas e efeitos, importantes para uma interpretação correta desses eventos. Em que medida o “recessivo” programa de estabilização da memorável dupla Campos e Bulhões foi responsável pelo “milagre” econômico de nosso simpático Delfim Netto? Da mesma forma, até onde o “brilhante e formidável” Plano Cruzado resultou na “irresponsável” seqüência da moratória externa, da explosão inflacionária e do seqüestro da poupança? E quanto deve a popularidade atual do presidente Lula aos ventos favoráveis de um ininterrupto período de cinco anos de crescimento econômico global?
A crise americana exige iluminação abrangente. A lanterna na popa registra uma recuperação cíclica e uma reestruturação corporativa da economia dos Estados Unidos nos anos 80, que se estendeu em um poderosíssimo ciclo de crescimento deflagrado por inovações tecnológicas e pelas forças da globalização nos anos 90. Esse prolongado período de excepcional crescimento nos Estados Unidos perdeu intensidade na virada do século. Mas as forças deflacionárias resultantes das reduções de custos trazidas por ondas de novas tecnologias, pelo aumento da produtividade, pela competição de preços em mercados globais, pela mão-de-obra barata e pela colossal taxa de poupança eurasianas permitiram a Alan Greenspan exorbitar na condução de uma política monetária e creditícia excessivamente expansiva à frente do Fed, o banco central americano.
Greenspan postergou o declínio, mas trouxe a exaustão. Fez a economia americana correr dopada, formando bolhas sucessivas nas Bolsas, nos imóveis e nos mercados de crédito. Greenspan sacou contra o futuro, mas escapou da detecção de sua índole inflacionista graças exclusivamente a fatores externos. Os excessos que promoveu são hoje visíveis em toda parte, e exibem suas digitais. Acendendo agora a lanterna da proa, vemos pressões de custos exercidas por aumentos de preços dos recursos naturais e das matérias-primas em geral; pela desaceleração do aumento da produtividade, após a difusão de novas tecnologias; pela convergência de preços trazida pela globalização; e pela eventual absorção do excesso de mão-de-obra e poupança asiáticas.Adverte Greenspan: “O ônus de gerenciar essa mudança de ambiente recairá sobre o Federal Reserve. O árbitro final da inflação é a política monetária. Tudo dependerá da reação do Fed. A maneira como responderá ao ressurgimento da inflação terá efeitos profundos sobre o desempenho das economias americana e mundial em 2030”. Pergunto eu: apenas em 2030? E se tudo isso já estivesse ocorrendo quando Greenspan deixou o cargo? Entenderíamos por que seu sucessor, Ben Bernanke, muito preparado quando estava na popa, parece agora tão assustado com a lanterna na proa.