Carlos Brickmann, Observatório da Imprensa
O Exército alemão ainda era uma força extremamente poderosa, e o público alemão estava convencido de que a guerra não apenas iria durar muito tempo como, no final, as Potências Centrais (impérios Austro-Húngaro, Turco e Alemão) seriam vencedoras. Essas eram as notícias que recebiam; e, quando a Alemanha se rendeu, o que ficou na opinião pública foi a imagem da traição - da facada nas costas, dos líderes civis e militares que se venderam ao inimigo.
Os meios de comunicação são poderosos. A imagem que traçam da realidade é frequentemente tão ou mais poderosa que a própria realidade, a tal ponto que, quando a realidade se impõe, surgem as versões conspiratórias da História. É o que devemos temer na guerra ao narcotráfico, iniciada no Rio de Janeiro (e que ainda pode perfeitamente estender-se a outros Estados, já que mercado existe e existem os fornecedores). As informações e as imagens são reais: com apoio de blindados dos fuzileiros navais, o Bope, tropa de elite da Polícia Militar do Rio, colocou em fuga um imenso grupo de narcotraficantes e ocupou um de seus principais redutos, a favela de Vila Cruzeiro. Foi uma vitória épica, bonita, acompanhada passo a passo pela TV. Mas nem tevê nem ninguém mostrou tudo.
1 - Qual a vantagem de espalhar os traficantes, em vez de prendê-los? OK, o território brasileiro não deve ser entregue aos bandidos, isto é correto; mas simplesmente afastá-los de onde estão significa que vão para outros lugares, e não que, privados de sua ligação telúrica, de suas raízes na terra em que vivem, se transformarão em cidadãos capazes de exemplarmente cumprir a lei.
É o que acontece em São Paulo, com os nóia, os viciados em crack que se concentravam na região conhecida como Cracolândia: as intervenções policiais fizeram com que saíssem da Cracolândia e se espalhassem por outras regiões da cidade. E, quando a Polícia saiu, boa parte voltou à Cracolândia. Final da história: a Cracolândia continua sendo Cracolândia e outras regiões ganharam um imenso problema que não têm a menor idéia de como resolver.
2 - A existência de consumo faz com que surjam fornecedores. Imaginemos um cenário em que todos os atuais fornecedores sejam presos e colocados em locais de onde não possam comandar o crime. Alguém tomará seu lugar. Sem cocaína, sem ecstasy, sem outras drogas é que o consumidor não vai ficar. Ou seja, num primeiro momento o tráfico será desorganizado, mas logo depois se organiza. E toca a usar armamento pesado para enfrentar os novos donos do pó.
3 - Se a Globo e a Record localizam os bandidos em fuga, que é que impede a Polícia de também fazê-lo? Melhor ainda, tendo em mãos os mapas e conhecendo as trilhas da região, por que deixar de lado o cerco e a captura?
4 - Por que, de repente, os bandidos começaram a incendiar carros e ônibus no Rio? Os serviços policiais de informações não terão qualquer idéia do que possa estar ocorrendo? E não se trata de uma explosão que acabou entusiasmando outras pessoas: tudo indica que o movimento é articulado, coordenado.
5 - Se é tão importante ocupar território, se a Vila Cruzeiro é um território de tão alta importância, por que, após a ocupação de 2008, pelo mesmo Bope que a ocupou agora, foi desocupado e devolvido aos bandidos?
6 - E os bandidos de outras especialidades, por onde andarão? A turma dos sequestros, dos arrastões, dos assaltantes, dos batedores de carteiras, dos ladrões de automóveis, dos desmanches, os mafiosos dos caça-níqueis, todos terão se alistado na turma dos traficantes?
7 - O governador do Rio, Sérgio Cabral, está completando quatro anos de mandato. Há alguma explicação para a quase invisibilidade da presença do Estado em todas as favelas invadidas nestes últimos meses?
8 - Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Garotos da classe média para cima são mais bem tratados pela imprensa e pela Polícia do que pessoas da mesma idade, da classe média para baixo. Isso não acontece só na área de tráfico e consumo de drogas, mas em todas as áreas: recolher os rapazes que, sem provocação, agrediram pessoas que nem conheciam na avenida Paulista, SP, foi um processo que demorou vários dias e exigiu muita pressão de opinião pública. Na área do tráfico a coisa é ainda mais clara: o milionário que dava dinheiro a um traficante de primeiro time, para ajudá-lo a fugir e se esconder, não teve nenhum tipo de aborrecimento, exceto explicar que tinha agido com a mais louvável das intenções. Se fosse pobre, ninguém levaria sua boa intenção a sério.