Ministro está preocupado com a inflação medida pelo IGP-M, que deve incomodar a partir do ano que vem
(Nilton Fukuda/AE)
Mantega diz que o IGP traz inflação "de fora para dentro"
"Isso jogava a favor dele nos últimos dois anos. Por isso, o governo se fez de morto e não quis discutir o índice. Agora a discussão ganha sentido porque a situação se inverteu” - André Chagas, economista.
A velha discussão a respeito da indexação da economia brasileira voltou à tona na semana passada com o anúncio feito pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que o governo estuda usar um novo índice de inflação que exclua os preços de alimentos e combustíveis. A preocupação principal do ministro é com o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), medido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), que mensura os preços de diversos itens, como alimentos, transportes, custos da construção civil e até commodities. O ministro avalia que esse índice traz a inflação “de fora para dentro”, já que o preço das commodities é definido internacionalmente. Além disso, sofre com a oscilação do dólar, já que estes produtos são precificados na moeda norte-americana.
Indexação é o reajuste periódico e automático dos preços de produtos e serviços, com base nas taxas acumuladas de índices de inflação estabelecidos previamente. O problema é que a indexação traz inflação passada para os preços atuais, independentemente do rumo da inflação atual. Os efeitos nocivos desse mecanismo eram sentidos de forma mais intensa nos períodos de hiperinflação, quando os salários também eram indexados por lei. Após a conquista da estabilidade macroeconômica, iniciada com o Plano Real, e a implantação do sistema de metas de inflação, o aumento de preços passou a ser controlado e a indexação deixou de ser um problema onipresente.
No entanto, a indexação ainda permanece em menores níveis. Na década de 90, para viabilizar as privatizações, o governo estabeleceu o reajuste anual de preços de alguns serviços, como energia elétrica e telefonia, com base em um cálculo que leva em conta o IGPM do ano anterior. São os chamados preços administrados. Este é o índice que registrou nesta segunda-feira taxas acumulada de 10,56% no ano. E o que pode dar dor de cabeça para Mantega nos próximos anos.
O economista André Chagas, pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisa Econômica, explica que até 2009, a indexação era uma herança boa. O IGPM de 2009 registrou taxa negativa de 1,7% e acabou perdendo força como indexador na formação de preços em 2010. Mas este ano, o índice acumula alta de 10,56% de janeiro a outubro.
“A preocupação é futura. Isso jogava a favor dele nos últimos dois anos. Por isso, o governo se fez de morto e não quis discutir o índice. Agora a discussão ganha sentido porque a situação se inverteu”, explica. O economista avalia que seria mais fácil ter mudado os contratos há dois anos, quando as concessionárias de serviços eram interessadas. Agora que o reajuste de preço lhes favorece, a previsão é de briga jurídica, segundo Chagas. “E também vai passar a impressão de que o governo vai domar a inflação a canetada. Isso aumenta as expectativas. Não precisamos mais disso, já amadurecemos”, pondera.
Salário mínimo –
Para a economista do banco Santander Tatiana Pinheiro a discussão sobre a força do IGP-M como indexador nocivo já está ultrapassada. Na visão dela, se o ministro quer discutir indexação, deveria focar na questão do reajuste do salário mínimo. Atualmente, o salário mínimo é corrigido anualmente levando em conta a inflação do ano anterior (Índice de Preços ao Consumidor Amplo – IPCA -, considerado a “inflação oficial”) e o Produto Interno Bruto de dois anos antes. Em 2012, o reajuste levará em conta o PIB deste ano, que deverá fechar 2010 com alta de 7,55%, segundo as projeções do mercado divulgada na pesquisa Focus desta segunda-feira, e a inflação de 2011, que, segundo as mesmas projeções, deve ser de 5,20%. “Em uma conta simples, dá mais de 13% de aumento”, afirma.
A economista explica que o aumento do salário mínimo impacta diretamente o preço dos serviços de empregado doméstico e custos da construção civil, o que acaba realimentando os índices de inflação que mensuram esses preços, como o IPCA e o IGP-M.
