Marcio Beck
O Globo
Ex-presidente do BC participou do debate “O futuro da história - Os novos rumos do capitalismo”
AGÊNCIA GLOBO / DOMINGOS PEIXOTO
Gustavo Franco fala durante evento no Rio
RIO - O ex-presidente do Banco Central (BC) Gustavo Franco fez críticas e elogios às medidas do governo para enfrentar a crise, na noite desta terça-feira, no debate “O futuro da história — Os novos rumos do capitalismo”, promovido pelo Instituto Millenium, na ABL. Ele elogiou a ação do BC, mas condenou os incentivos fiscais:
— Gosto do que foi feito na esfera do BC, e não simpatizo com as medidas fiscais, de incentivo, de aumento de imposto, de IPI. Esse tira de um, aumenta de outro, seletivamente. Acho que medidas desse tipo têm que ser horizontais, quanto mais setorizadas, pior — afirmou Franco após o evento, mediado pelo colunista Merval Pereira.
Para ele, o Brasil tem condições para suportar uma nova onda da crise internacional, pelas altas reservas e sistema bancário forte.
— De 2008 até agora, foram tomadas medidas para fortalecer o sistema bancário, temos uma taxa de câmbio flutuante, e muitas reservas. Então, uma outra crise seria administrada talvez com mais facilidade — disse.
Em sua palestra, o ex-presidente do BC disse que, da mesma forma que a inflação era o principal problema estrutural da economia nas décadas de 1980 e 1990, o governo atualmente tem se focado na redução da taxa básica de juros (Selic).
- Sou da época em que 4,5% de inflação era a inflação de um fim de semana. O esforço do governo hoje para reduzir os juros é maior do que para trazer a inflação para o centro da meta (que é de 4,5%). Alcançar uma taxa de juros nominal de 4% é o novo "cálice sagrado" da equipe econômica - afirmou ele.
O economista André Lara Resende, que também participou do debate, destacou que a crise mostra que não se pode manter indefinidamente o crescimento do consumo com base no crédito, a menos que haja uma mudança tecnológica radical, "que não parece provável".
— Vamos bater nos limites físicos do planeta se quisermos trazer todos para os níveis de consumo dos países desenvolvidos. Quanto tempo demorará para alcançar esse limite é difícil dizer. É evidente, por exemplo, que o uso urbano do automóvel está se tornando disfuncional. Se tivesse que escolher um caminho (para evitar isso), eu apostaria nos impostos sobre o consumo em vez de impostos sobre renda e patrimônio.
