Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa
Com o alto nível intelectual de sempre e o estilo primoroso de escrever com arte, traçando um paralelismo entre a realidade e a ficção, o poeta Ferreira Gullar publicou artigo na "Folha de S. Paulo" de 7/9, caderno Ilustrada, traduzindo o Brasil como o imaginário país de Bralândia, nação sobre a qual se lançam investidas sindicais, para ampliar de um para quatro dias de trabalho de todos por ano contribuição compulsória no sentido de multiplicar às alturas o Imposto Sindical.
Com o alto nível intelectual de sempre e o estilo primoroso de escrever com arte, traçando um paralelismo entre a realidade e a ficção, o poeta Ferreira Gullar publicou artigo na "Folha de S. Paulo" de 7/9, caderno Ilustrada, traduzindo o Brasil como o imaginário país de Bralândia, nação sobre a qual se lançam investidas sindicais, para ampliar de um para quatro dias de trabalho de todos por ano contribuição compulsória no sentido de multiplicar às alturas o Imposto Sindical.
O produto é distribuído aos órgãos de classe, sem fiscalização por parte do Tribunal de Contas, já que a CUT se mobilizou e o ministro Carlos Lupi convenceu o presidente da República a vetar o dispositivo aprovado pelo Congresso que previa tal controle. Isso tudo, como diz o papa do neoconcretismo, no reino da Bralândia, espécie de Oz como no filme da Metro que consagrou Judy Garland. Ferreira Gullar, na peça que produziu, percorre a história do sindicalismo de Bralândia, ressaltando suas divergências e convergências com o processo de industrialização.
Uma análise de fato primorosa, que vale a pena ler. As contradições, como tudo na vida, são inevitáveis. É natural, a história universal está repleta de exemplos. Mas há limites. Agora, em Bralândia, uma tentativa de rompê-los. Para pior. No Brasil, o sindicalismo foi fortalecido e usado por Vargas, que instituiu o Imposto Sindical. O sistema, que se mobilizou pela posse de João Goulart em 61, transformou-se em máquina partidária e acabou se constituindo no principal motivo que levou à derrubada do governo pelo poder militar.
O empresariado urbano e rural uniu-se ao golpe nos quartéis, temendo ser tragado por uma sublevação, formando uma aliança entre o capital e a força das armas. Passados quinze anos, estourou a primeira greve pós 64 no ABCD paulista e dele emergiu a liderança de Luís Inácio Lula da Silva. Lula, o metalúrgico, frisavam os jornais, repetindo o ritmo contido no título do filme em exibição, "Mimi, o metalúrgico", da diretora Lina Werthmuller. A expressão pegou e Lula decolou rumo ao futuro.
A ocupação da administração pública pelo poder militar era flagrante. Todos os ministérios e empresas estatais possuíam generais e coronéis no comando. Às vezes, majores. A administração pública só, não. O sistema empresarial privado, também. Lembro-me que Ronald Levinhson colocou o general Idálio Sardenberg na presidência da Delfim Caderneta de Poupança, responsável por colossal rombo no Sistema Financeiro de Habitação do BNH.
Gullar focaliza mais em Bralândia o confronto que começou a existir entre o empresariado e a noite dos generais, e que levou a livre iniciativa a compor com lideranças operárias. A presença militar era mais onerosa do que a sindical. Mas dei a este artigo o título "Ferreira Gullar e o capitalismo". Sei que Gullar sempre formou na esquerda. Mas não estou querendo, nem de leve, fazer qualquer restrição a ele.
É alguém honesto, sob todos os aspectos, inclusive intelectualmente. Estou, isso sim, aproveitando o tema para tentar uma colocação sobre a qual pensei livremente há poucos dias. Uma colocação de ordem geral. No mundo, na verdade, só existe o capitalismo. Seja ele privado ou estatal.
Ele, de tão forte, inexpugnável na essência dos fatos, encontra-se por igual em todas as nações, em todos os momentos. Inclusive agora me espanto porque, no auge da guerra fria, de 48 a 75, os Estados Unidos, do alto de seu imperialismo, de que são exemplos mais fortes as guerras da Coréia e do Vietnã, não apontaram contradição do imperialismo soviético que invadiu a Hungria em 56 e a antiga Tchecoslováquia em 68, para destroçar a tentativa de libertação de Moscou, que foi chamada de Primavera de Praga.
O capitalismo está presente em todos os instantes da existência humana, de um lado ou de outro. Veja-se agora o exemplo definitivo da China. Nem pode ser de nenhuma outra maneira, sobretudo sob o ângulo marxista de que capital é trabalho acumulado. Portanto, a capitalização é inseparável do processo de desenvolvimento. No plano do indivíduo, se as pessoas não são iguais, umas vão se capitalizar mais do que outras.
Os países, também. O capitalismo, desta forma, é algo inevitável na Terra. Pode ser que no Céu seja diferente. Na vida terrena não pode ser. O tema a que Ferreira Gullar recorreu no domingo, no seu espaço permanente na FSP, que acompanho sempre, implicitamente assinala a realidade a que me refiro. Mas vai além: mostra que as teses distributivas do passado transformam-se em concentradoras de renda, bastando para isso que os insatisfeitos passem para o lado do poder e alcancem a satisfação que, no fundo, sempre desejaram.
Este, inclusive, é o conflito maior entre o reformismo e o conservadorismo. O reformista de ontem é o conservador de amanhã. Assim, a conquista do poder na Bralândia gullariana significou a maior derrota do impulso de reforma. Existe a opressão, o opressor, o oprimido. Digo eu. Quase nunca o oprimido é contra a opressão. É, isso sim, contra o fato de não ser ele o opressor. Uma vez no poder, o fator ético se evapora. Só em Bralândia?