segunda-feira, novembro 08, 2010

A problemática dos juros para o novo governo

O Estado de São Paulo

A mudança de governo sempre suscita a esperança de que problemas críticos serão resolvidos, e não há dúvida de que um desses problemas é o das taxas de juros, que o atual governo pretende resolver antes da posse do novo.

Dois mandatos não foram suficientes para encontrar uma solução, pela simples razão de que, sem um retorno à austeridade na condução das finanças públicas, não se pode chegar a uma modificação aceitável.

O problema das taxas de juros aparece nos dois níveis, de curto e de longo prazos. A curto prazo, acarreta um custo financeiro elevadíssimo para as empresas e tem uma taxa básica que favorece operações de arbitragem, com grande responsabilidade pela supervalorização do real e pelo déficit da balança comercial e das transações correntes.

Isso exigiria forte redução da taxa Selic, que só será possível num quadro de austeridade nos gastos públicos e de eliminação de qualquer expediente de indexação. Podemos imaginar os obstáculos que o novo governo terá de enfrentar para chegar a esse objetivo.

A obtenção de uma taxa de juros aceitável para o longo prazo depende de se encontrarem recursos para investimentos, seja para a indústria, seja para a infraestrutura ou para a construção civil.

O BNDES, que até agora tem sido a fonte quase que única de financiamento de investimentos, chegou a um ponto em que não tem mais capital para assumir novos compromissos, e os financiamentos para o setor imobiliário dependem da captação das cadernetas de poupança, que entrou em fase de grande declínio.

É preciso estimular a poupança interna para que se possa colocar no mercado títulos de longo prazo, num país cuja memória dos tempos de hiperinflação ainda está presente. A grande tarefa das autoridades será oferecer estímulos e garantias aos investidores que aceitarem subscrever títulos de longo prazo. Não há dúvida de que existe uma poupança potencial importante que é preciso canalizar. Para isso os investidores em títulos longos devem ficar isentos do Imposto de Renda; os bancos que captam tais recursos, dispensados dos depósitos compulsórios; e deve-se criar um mercado secundário para dar liquidez a esses papéis.

No entanto, esses objetivos só poderão ser atingidos se a administração das despesas públicas der segurança de que não haverá retomada da inflação e se o Tesouro deixar de aparecer no mercado para oferecer remuneração elevada, com garantia, para papéis de liquidez imediata.