Nem sempre concordo com Elio Gaspari. Prefiro cronistas que ao menos mostrem a cara, e não se utilizem de certo humor para disfarçar suas simpatias. Se o cronista tem lado político, que o diga às claras. Gaspari, muitas vezes, tentando ser sarcástico, acabando distorcendo fatos para que eles caibam direitinho na sua ideologia ou teses, ou naquilo que julga pensar.
Contudo, em outras tantas, ele como tem certas recaídas, e acaba reproduzindo com fidelidade a realidade em seus artigos. E, apesar de focar com precisão o estelionato eleitoral que cometem Dilma , PT e governadores da base aliada recém eleitos em relação à recriação da CPMF, como querendo provar sua “isenção” acaba atacando o governo de FHC e, prá variar, comete um erro histórico. Em certo momento afirma Gaspari que “(...) Afinal, a CPMF foi criada e desvirtuada pela ekipekonômica tucana (...)”. Errado: o imposto (ou contribuição) é criação do governo Itamar Franco, e não dos tucanos. Quando a MP de sua criação foi encaminhada ao Congresso, e este (e muito por inspiração dos petistas), sem ter maioria tucana, acabou fazendo uma repartição do que seria arrecado para outros fins. Basta que qualquer um recorra a pesquisas simples e constatará que foi bem assim.
Portanto, com a devida correção que a verdade histórica impõem, reproduzo abaixo a parte do artigo de hoje do Gaspari sob o título “Dilma ampara um lance de estelionato” onde ele reproduz aquilo que no blog já apontamos como estelionato eleitoral, desde que o assunto foi tocado por Lula e, depois, pelos governadores da base aliada recém eleitos e que Dilma Rousseff acabou incorporando. Claro que, a meu ver, o estelionato eleitoral de Dilma não se caracteriza apenas pela CPMF mas, sobretudo, porque no discurso de campanha e até aquele do dia da eleição após sua proclamação como vitoriosa, falou de não mexer na liberdade de imprensa, enquanto laranjas esparramavam pelo país projetos de criação de conselhos de comunicação, ou, em palavra de gente, departamento de censura. Assim como será estelionato eleitoral se levar adiante uma ideia cultivada há um certo tempo por Lula, a de reduzir nos ganhos das cadernetas de poupança, e que acabou vazando para o mercado, assim, de mansinho, para medir a reação e ver se cola. Já nos basta o achaque nas contas do FGTS, assunto que abordamos aqui na semana passada.
Mas é bom que gente como Gaspari já levante este alerta sobre os compromissos de campanhas em contraste com as ações após a eleição. Que a oposição desperte para a realidade do que está acontecendo no país e passe a atuar de verdade. E é bom que outros cronistas, comentaristas políticos e cronistas em geral espalhados pela imprensa, comecem a bater na tecla de erros que parecem contaminar a construção a linha de governo da futura presidente. O país não pode ser conduzido por mais tempo com mentiras e trapaças.
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Durou exatamente três dias a lorota da redução da carga tributária propagada pelo governo e pela oposição durante a campanha eleitoral.
Dilma Rousseff foi eleita no domingo e, na quarta-feira, docemente constrangida, disse que ‘tenho visto uma mobilização dos governadores’ para recriar o imposto do cheque, a falecida CPMF, derrubada pelo Congresso em 2007.
Se ela acreditava no que dizia quando pedia votos, anunciaria sua disposição de barrar a criação de um novo imposto. No entanto, disse assim: ‘Não pretendo enviar ao Congresso a recomposição da CPMF, mas não posso afirmar... Esse país vai ser objeto de um processo de negociação com os governadores’.
Quando um repórter insistiu, ela se aborreceu: ‘Considero que essa pergunta já está respondida’. Quem entendeu a resposta ganha uma viagem a Cuba.
A ‘mobilização’ vem de pelo menos 13 dos 27 governadores, inclusive o tucano Antonio Anastasia. Nenhum deles, nem ela, teve a honestidade de defender a posição durante a campanha.
Tentar empurrar a recriação da CPMF como coisa dos governadores é uma ofensa à inteligência do eleitorado que deu 55 milhões à doutora Rousseff. Se ela começa o governo com tamanha passividade, vem coisa pior por aí.
É preferível supor que a doutora soubesse da iniciativa, concordando com ela, desde que as cartas rolassem por baixo da mesa.
Dilma aceitou a enganação e perfilhará a ressurreição de um imposto derrubado pelo Congresso. Pior: um imposto em cascata, pois uma transação que envolve cinco cheques será taxada cinco vezes com a alíquota de 0,1%.
O apoio de Anastasia e a bancada do silêncio confirmam que o PSDB é capaz de tudo, menos de fazer oposição. Afinal, a CPMF foi criada e desvirtuada pela ekipekonômica tucana.
Em 2007, três governadores do PSDB trabalharam contra sua derrubada. O comissário José Eduardo Dutra assegura: ‘Todos, eu disse todos, os governadores são a favor da CPMF’. Todos, inclusive Dutra, preferiram o lance de estelionato eleitoral.
