Adelson Elias Vasconcellos
O noticiário do final de semana reproduziu amplamente as inúmeras irregularidades cometidas pelo MEC na condução e organização do ENEM, versão 2010. Os erros ocorreram no país inteiro, e não foram poucos os alunos prejudicados. O próprio MEC acabou por admitir seus erros, não sem antes praticar algo desastroso: como os alunos resolveram reclamar nas redes sociais as lambanças que sofreram, alguém do MEC resolveu contratacar e divulgou uma nota de ameaça. A notícia é do jornal O Globo. Retorno para comentar:
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MEC ameaça estudantes por comentários em redes sociais
O Ministério da Educação ameaçou, por meio do Twitter oficial do órgão (@MEC_Comunicacao), processar estudantes que "tumultuaram" o Enem 2010 através da rede social.
Com linguajar inapropriado, a assessoria de comunicação do MEC diz que está "monitorando" os candidatos:
"Alunos que já 'dançaram' no Enem tentam tumultuar com msgs nas redes sociais. Estão sendo monitorados e acompanhados. Inep pode processá-los".
Mais cedo, mensagens na rede social teriam sido enviadas por alunos que ainda estavam dentro da sala de prova do Enem, por celular.
No final da tarde, o ministério acionou a Polícia Federal (PF) para investigar a atuação de um repórter do "Jornal do Commercio" de Pernambuco, que tuitou do banheiro de um dos locais de prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) o tema da redação, um dos testes aplicados neste segundo dia de prova.
De acordo com a assessoria do MEC, a PF foi acionada porque o repórter teria tentado violar o sistema de segurança, por fazer uso de um aparelho celular, e revelar o tema da redação antes do prazo mínimo de permanência dos candidatos no local de prova.
A contraofensiva do MEC ocorre depois de estudantes de todo o país ameaçarem entrar com ações pedindo a anulação do exame por causa dos muitos problemas registrados no sábado.
Na Bahia, segundo o jornal 'A Tarde', a estudante Roberta Matos prestou queixa na polícia requerendo a invalidação da prova. Em São Paulo, candidatos falam em apresentar recurso, caso o MEC não faça a correção automática.
- Foi um erro do MEC e eu não posso ser prejudicada - disse Roberta Matos, que fez a prova numa escola do centro da capital baiana.
Em São Paulo, as amigas Brenda Cruz e Caroline Oliveira, que fazem as provas na Uninove, na Zona Oeste de São Paulo, contaram que durante o teste deste sábado (6) nenhum fiscal prestou a orientação adequada sobre o gabarito errado.
- Marquei errado no gabarito, se não resolverem decidi que vou entrar com recurso - disse Brenda, que pretende usar a pontuação do Enem para conquistar uma vaga no curso de Relações Internacionais da USP.
Os candidatos inscritos no Enem que tiverem sido prejudicados pelo erro devem procurar o Ministério Público (MP) para relatar o problema.
A recomendação é do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante. Uma das possibilidades, segundo ele, é que o exame seja anulado e aplicado novamente.
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COMENTO:
Depois das derrapadas cometidas pelo MEC em relação ao ENEM, e por dois anos consecutivos, a pergunta que fica é: que moral tem o MEC para se indispor às reclamações, por sinal justas, dos alunos prejudicados? Se tais reclamações ainda que não tivesse nenhum fundamento, que o órgão se pretende ou imagina ser o MEC para ameaçar quem quer que seja? Virou alguma coisa parecida a policia de governo? Naquilo que é sua função primordial, que resultados positivos este ministério pode nos apresentar nos últimos oito anos, que lhe dê alguma coisa parecida com competência? Ou acaso alguém esqueceu de enviar para ministro e os muitos assessores de porra nenhuma o último relatório sobre o IDH onde está claro que o país só não subiu na escala vergonhosa em que se encontra por culpa da má educação oferecida aos estudantes brasileiros?
Ministeriozinho metido a praticar censura absurda sobre obras infantis escritas de Monteiro Lobato parece ser o grau máximo de preocupação destes cretinos! Agora melhorar a qualidade de ensino, encontrar meios de colocar os mais de 40% de jovens fora do ensino médio de volta às escolas, e demonstrar ao menos um mínimo de rigor e competência na realização dos exames que coordena, isto, pelo que se vê, está fora do alcance destes senhores e senhoras que agora se colocam na função de censores da crítica justa que são feitas para um evento coberto de erros e do qual não demonstraram a menor competência em executar.
Também não me surpreende este comportamento arbitrário de parte do MEC. Um governo devotado à atropelar o regime de leis do país, que incentiva, abençoa e até premia a delinquência de seus aliados, que se indispõem ao contraditório e ameaça seguidamente com projetos à liberdade de expressão, que se utiliza da máquina e das verbas públicas para cooptação de parlamentares, e transforma programas sociais em bolsas caça votos, qualquer ministro de meia pataca se acha no direito de agir pela mesma régua do arbítrio e do autoritarismo.
Que o MEC se circunscreva em cumprir com competência sua função e, por certo, não dará motivos para críticas. E se agir fora do compasso, entenda de uma vez por todas que a crítica, quando mais sendo merecida, não deve ser contestada nem combatida com ameaças e intolerância. Além do país ainda viver num regime democrático, onde, portanto, vigora a liberdade de manifestação, não é sua função agir como entidade policial. Que a turma do MEC não extrapole sua autoridade nem suas funções básicas. Não tem moral para tanto.