quarta-feira, dezembro 12, 2012

Okamotto nega ameaça, mas admite encontro com Valério: ‘conheci ele depois do mensalão’


Josias de Souza

 O Instituto Lula veiculou na página que mantém na internet o áudio de uma conversa que seu presidente, Paulo Okamotto, teve com jornalistas em Paris. Inquirido sobre a acusação de que ameaçou Marcos Valério de morte, Okamotto negou a denúncia. Mas admitiu que esteve com o operador do mensalão. Deu a entender que falaram sobre o escândalo.

“Não tenho nenhum motivo para desejar mal ao Marcos Valério. Conheci ele depois do episódio do mensalão”, disse Okamotto, sem especificar datas e locais. “A história que ele contava é que tinha feito um empréstimo em nome das empresas dele para ajudar o PT. E isso acabou trazendo um grande transtorno para ele. O transtorno maior, inclusive, é que chegou a ser condenado.”

Okamotto acrescentou: “Pelo que eu entendi no processo todo, ele esclareceu a toda a imprensa brasileira, ele contribuiu com a Justiça, deu os nomes pra Justiça. Portanto, tudo o que ele tinha pra falar, suponho que já tenha falado. E até algumas coisas que ele falou a Justiça não levou em consideração, porque ele disse que era empréstimo que ele tinha conseguido.”

No depoimento que prestou na Procuradoria da República em 24 de setembro, Valério declarou que Okamotto o ameaçou de morte. Chegou mesmo a reproduzir as frases que diz ter ouvido do amigo de Lula: “Tem gente no PT que acha que a gente devia matar você. Ou você se comporta, ou você morre.”

Valério disse à subprocuradora-geral da República Cláudia Sampaio e à procuradora Raquel Branquinho que se sentiu “literalmente ameaçado.” E Okamotto, de Paris: “Eu ameacei ele de morte? Por que eu vou ameaçar ele de morte?” Para ele não revelar as coisas, respondeu um repórter. “Está nos autos que eu ameacei ele de morte? Duvido! Duvido que ele tenha falado isso!”.

Okamotto encontra-se na capital parisiense para acompanhar o ex-presidente num evento organizado com a participação do Instituto Lula, o “Fórum pelo progresso social…” Na saída de um seminário, o próprio Lula foi instado a comentar o pedaço do depoimento em que Valério diz que dinheiro do mensalão pagou suas contas pessoais. É “mentira”, limitou-se a dizer.

Indagado sobre o mesmo tema, Okamotto saiu de banda: “Tem que perguntar pro Lula.” No final da conversa, disse que se sente “tranquilíssimo”. Não enxerga nenhuma denúncia no depoimento de Valério. “Que denúncia que tem?” Um repórter mencionou o trecho em que o ex-parceiro de Delúbio Soares diz que Lula deu seu “ok” para os empréstimos de fancaria do mensalão. Okamotto desconversou: “Mas isso aí é um negócio… Você está me perguntando como eu me sinto. Eu me sinto tranquilo.”

Ficou no ar uma dúvida intrigante: não sendo dirigente do PT nem réu no processo do mensalão, por que diabos Paulo Okamotto achou necessário conversar com Marcos Valério sobre o escândalo? Na versão ditada por Valério às procuradoras, Okamotto procurou-o duas vezes. Uma, em 2005, dias depois da entrevista em que Roberto Jefferson esmiuçou o mensalão à repórter Renata Lo Prete. O encontro ocorreu na casa de Eliane Cedrola, diretora de uma empresa de Okamotto. O interlocutor de Valério pediu-lhe que guardasse segredo sobre o que sabia. Apresentou-se como emissário de Lula.

O segundo encontro, revelou Valério na Procuradoria, ocorreu na Academia de Tênis de Brasília, onde Okamotto se hospedava. Foi nessa conversa, cuja data não foi especificada no depoimento, que Valério diz ter ouvido a ameaça de Okamotto.

Ex-presidente do Sebrae, Okamotto foi alvejado pela oposição na CPI dos Bingos, que ficou conhecida como comissão do ‘Fim do Mundo’. Bem na época do mensalão, descobriu-se que Okamotto liquidara uma dívida de Lula com o PT. Coisa de R$ 29.436,26. Eram recursos próprios, dizia o bom amigo. Quebrou-se o sigilo bancário de Okamotto. Porém, uma decisão de Nelson Jobim, então ministro do STF, sustou a abertura dos dados.