quinta-feira, julho 04, 2013

Economia: a pedra no caminho da reeleição

Adelson Elias Vasconcellos


A presidente Dilma já completou dois anos e meio de seu mandato, e ao fechar o terceiro ano, completará um ciclo completo de desastres econômicos. A inflação jamais ficou perto da meta, que é de 4,5%. Sempre superou a barreira de 5% e pode fechar 2013 com elevação de 6%. 

O crescimento do PIB não poderia estar pior. Ou melhor, até poderia o país viver uma recessão. Mas esta é uma hipótese que se deve para frente, não agora. Começou com 2,7% em 2011, caiu para 0,9% em 2012, e já se projeta que encerra este ano em torno de 2%, talvez menos. 

A balança comercial, não fosse o truque cretino aplicado pela Fazenda em junho,  e o saldo negativo seria histórico. O déficit em conta corrente vai de vento em popa: R4 70 bi. Nesta semana, Mantega anunciou que para atingir a meta  fiscal prevista, talvez só corte de gastos não baste, precisará elevar impostos.  

Sempre que questionados sobre o baixo crescimento, tanto ministros quanto a própria presidente trataram o assunto com total descaso.  O discurso apelava para um tal “bem estar social” que as manifestações de rua acabam por desmentir. 

Dilma sempre desprezou qualquer política fiscal responsável. Seu governo tratou de expandir a demanda o quanto pode. Tanto aquecimento, num país com escassez de oferta e com produção em queda, não poderia provocar resultado diferente: conseguiram ressuscitar a inflação que já parecia esquecida dos brasileiros.

No campo dos investimentos, a coisa vai desabando lentamente e sem perspectiva de se recuperar. Para a infraestrutura, Dilma acenou com um tal Plano de Concessões cujo êxito dependia de marcos regulatórios. 

Quando estes foram concluídos e saíram do forno, notou-se que “o leque de oportunidades” já nasceria morto, dado o enorme preconceito e má vontade do governo em relação ao capital privado.  O tal plano encruou de vez. Ninguém acredita nas “facilidades” que o governo oferece. E por uma razão principal: Dilma resolveu tabelar o lucro das empresas, sem deixar de impor “exigências” que não se coadunam com o retorno dos investimentos proposto. Assim, nada anda. 

E quanto mais tempo passa, a infraestrutura vai se deteriorando ainda mais. Pelo lado dos serviços, bem está nas ruas a população dizendo em que estado se encontram.

Neste tempo, com pequenas oscilações, a receita com impostos, taxas e contribuições se mantém equilibrada, estável aos anos anteriores.

Acima, o leitor tem um cardápio variado mas que, definitivamente, contraria as  mais elementares teorias econômicas. Em condições como as que temos, a chance de crescimento, e crescimento sustentável, robusto, é única: ZERO.

A permanecerem as condições atuais e com os resultados decorrentes das escolhas feitas,  Dilma verá seu projeto de reeleição se desmanchar nos números.  Não há chance de dar certo um governo que tem feito tudo para, de fato, dar errado.  

As facilidades creditícias e os incentivos fiscais a  atividades específicas, tudo armado para alavancar o consumo, já deveriam ter sido retiradas há mais tempo.   Quanto mais se insistir nesta política, e enquanto não se produzir uma política industrial minimamente competente, maior será a munição que o governo estará dando para a inflação continuar resistente.  Por exemplo, os juros SELIC cuja baixa Dilma tanto comemora, podem retornar ao patamar anterior por duas razões:   uma, a escassez de oferta para suprir a demanda aquecida provocará mais inflação. E, com o dólar em linha ascendente, também os importados que, de certa forma serviram para segurar os preços,  deixarão de ser aliados para se tornarem vilões dos preços em alta. E a segunda razão reside no fato de que o governo Dilma continua expandindo seus gastos, e uma expansão suicida porque  muita acima do crescimento do PIB, da elevação das receitas e até acima da própria inflação. É crescimento real, expandindo ainda o consumo e pressionando , em consequência, elevação dos preços.  

Enquanto o governo Dilma não se convencer de que ele é problema para os desajustes econômicos do país, insistindo em traçar paraísos fictícios do tipo “vai tudo bem” ou do tipo “está tudo sob controle”, quando a realidade insiste em provar o contrário,  a perspectiva de curto e médio é que os cenários piorem ainda mais.

A mesma economia em expansão que levou Dilma ao poder, pode se tornar a causa de sua capitulação.  Seu desejo de reeleição pode não se realizar não por fatores externos, como o governo tenta, falsamente, atribuir as razões dês seus fracassos. Será a arrogância intermitente que conduzirá Dilma ao cadafalso.  E o que é pior: seu péssimo terá a malvadeza de comprometer quem a suceder, por obrigá-lo a consumir metade do mandato para por a casa em ordem, não se dispensando um pequeno período recessivo, indispensável para o reequilíbrio das finanças públicas e recuperação da responsabilidade fiscal.    

Um detalhe. Na eleição presidencial que colocou Dilma no trono, no segundo turno o candidato foi José Serra. O tucano, se não estou enganado, recebeu mais de 44 milhões de votos. 

Tenho observado que Dilma já recebeu em seu gabinete para um papinho sobre sua ideia de reforma política, entidades com bem menos representantes. Até agora, o único que foi convidado, pela oposição, foi Randolfo Rodrigues, representando  o pequeno PSOL. Os demais ficaram fora do baile.

Ora, uma presidente da república governa o conjunto do povo brasileiro, satisfeitos e insatisfeitos, governistas e oposicionistas, pretos, negros, amarelos e vermelhos, gordos e magros, homens e mulheres, adultos, jovens, crianças e velhos. Assim,  não se pode excluir  de um debate sobre mudanças que afetarão a vida de TODOS, os que representam mais de 40% do eleitorado do país. Tal atitude demonstra o tamanho do espírito pequeno da governanta, sua mesquinhez, sua falta de senso democrático, além de continuar  ignorando solenemente as imposições a que o cargo lhe impõem. A resposta a esta atitude menor virá, com certeza, em outubro de 2014. 

Diante de cenários tão sombrios que se observa na economia, ver a presidente da república dedicada integralmente à uma reforma política que nem o epicentro das insatisfações, é preocupante. Se tudo estivesse bem, vá lá. Governar é também escolher prioridades conforme os momentos. Porém, não é isso que se vê. Muito do que se reclama deriva, justamente, da má condução da economia que, invariavelmente, recairá no colo dos contribuintes, afetando em grau maior as classes mais pobres.  

Diante da apatia e do imobilismo que se observa, muitos investidores vão puxando o freio de mão para novos empreendimentos, quanto mais é que o próprio governo que emite sinais claros de completa insegurança, isto é, de que os contratos poderão ser cumpridos ou não, a depender os alaridos.

E, a persistir este comportamento negligente, a presidente faz uma aposta arriscada que pode comprometer seriamente seu projeto de reeleição. O Brasil precisa de medidas urgentes para dinamizar sua economia, aqui e agora, e não pode ficar sentando esperando até o resultado das urnas de daqui um ano, para saber que rumo tomar.