terça-feira, maio 03, 2011

Dilma se recupera bem da pneumonia, informam os médicos. Faltou dizer algo mais sobre seu estado geral

Ricardo Setti, Veja online

Dilma em São Paulo:
saúde de governante é assunto de interese público

Amigos, louve-se a transparência com que a Presidência da República permitiu que o Hospital Sírio-Libanês de São Paulo informasse sobre o estado de saúda da presidente Dilma Rousseff, sob tratamento de um foco de pneumonia no pulmão esquerdo.

Os médicos, inclusive o cardiologista Roberto Kalil, a quem a presidente visitou em casa no fim de semana, recomendaram que ela diminuísse a carga de trabalho, mas assinalaram que a presidente está “bem”. Nesta segunda-feira, ela permaneceu recolhida ao Palácio da Alvorada e não cumpriu agenda.

Dilma passou todo o domingo se submetendo a exames no hospital, os quais detectaram o problema.

O governo foi transparente em relação à pneumonia, problema que hoje é de pequena monta diante dos recursos da medicina. Poderia e deveria ter ido mais longe e apresentado, por resumido que fosse, um quadro mais geral sobre a saúde da presidente, que, como se sabe, foi acometida de um câncer no sistema linfático que a levou à extirpação de um nódulo em março de 2009, e ao posterior tratamento por quimioterapia.

Durante a campanha eleitoral do ano passado, em setembro, a então candidata considerou “um pouco deselegante” uma pergunta sobre sua saúde feita pelo jornalista Rodrigo Flores, gerente de notícias do UOL, durante sabatina promovida pelo porta.

Assunto é de alto interesse público
Em post que publiquei na estréia deste blog, e cujos termos mantenho, escrevi: “Deselegante coisa nenhuma. A pergunta era obrigatória: saúde de um candidato à Presidência é assunto de Estado, é de alto, fundamental interesse público”, e citei o exemplo de democracias maduras, nas quais se divulgam periodicamente relatos completos sobre o estado físico dos governantes. Se ultrapassa o âmbito do foro íntimo e passa a ser de crucial interesse público o estado de saúde dos candidatos à Presidência, o é mais ainda depois que um deles é eleito.

Nenhum cidadão de bem, nem o mais feroz oposicionista ao governo da presidente, deseja que ela esteja doente. Pessoalmente, espero e torça para que o problema de 2009 nunca mais se manifeste. Considero, porém, por delicado que seja o tema, que os médicos que a assistem ou o Planalto, diante da gravidade do mal que a acometeu em 2009, e apesar do excelente prognóstico dado à época, deveriam revelar o estado geral da presidente que, repito, espero seja o melhor possível.

Não custava nada ao cardiologista Roberto Kalil, e seria extremamente tranquilizador, dizer algo além de que a presidente “é uma pessoa saudável”.

Juscelino, Costa e Silva, Figueiredo e Tancredo:
saúde sem transparência


Os precedentes de JK, Costa e Silva, Figueiredo e Tancredo
O passado dos presidentes brasileiros nessa matéria não é de transparência, pelo contrário.

O presidente Juscelino Kubitschek, que era médico, nada disse sobre como ia seu coração quando ele concorreu ao então Palácio do Catete, em 1955, e ele acabou sofrendo um enfarte em 1958 (mantido em segredo até deixar o poder).

Durante o regime militar, jamais de cogitou de informar sobre o estado geral do general Costa e Silva, ministro do Exército do primeiro presidente do regime militar, marechal Castello Branco. Costa e Silva, “eleito” indiretamente em 1967, acabou tendo um derrame que o tirou do poder em 1969, e depois o levou à morte, “atirando o Brasil num período de anarquia militar”, como lembrou o jornalista Elio Gaspari, com uma junta militar assumindo interinamente o poder — os “Três Patetas”, como os apelidou o falecido deputado Ulysses Guimarães — até a escolha biônica do general Garrastazu Médici para sucedê-lo.

Outro dos cinco generais-presidentes que apresentou problemas de saúde no poder — e parecia forte como um touro ao assumir, em 1979 — foi o general João Baptista Figueiredo, enfartado e submetido a cirurgia de ponte de safena na Cleveland Clinic, nos Estdos Unidos, em 1981.

Para não mencionar, naturalmente, o presidente Tancredo Neves, que meses antes do que deveria ser o dia de sua posse, 15 de março de 1985, já sentia dores e mal-estar na região do abdômen, sem que nenhuma providência mais séria fosse tomada e notícia alguma vazasse para a opinião pública, em consequência de um tumor cuja cirurgia o levaria a morrer no dia 21 de abril do mesmo ano.

Vivemos numa democracia, e a transparência, inclusive sobre essa questão — que não é de foro íntimo dos envolvidos, mas de alto interesse público — deveria ser a regra.