sábado, maio 10, 2008

A "ameaça" furada do Aparecido

O secretário de Controle Interno da Casa Civil, José Aparecido Nunes Pires, apontado como o responsável pelo vazamento do dossiê com gastos secretos do governo Fernando Henrique, mandou avisar nesta sexta-feira a assessores do Palácio do Planalto e dirigentes petistas que está disposto a prestar depoimento na CPI do Cartão Corporativo. Antes de viajar para Goiânia para tentar esfriar a cabeça, ele fez um desabafo em tom de ameaça de que não será o bode expiatório do escândalo. Acrescentou que está disposto a revelar que a ordem de comando para elaboração do dossiê com objetivo político partiu da secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra, principal auxiliar da ministra Dilma Rousseff. É o que mostra reportagem de Gerson Camarotti na edição deste sábado em 'O Globo'.

- Tudo o que eu quero é ir para a CPI - disse Aparecido a amigos.

A ministra Dilma Rousseff prestou depoimento no Senado, esta semana, com a informação confirmada de que Aparecido tinha sido o autor do vazamento.

Para integrantes da cúpula do PT, Aparecido negou com veemência que tenha sido o autor do vazamento das informações sigilosas. Mas voltou a relatar que forneceu dois funcionários da Secretaria de Controle Interno para elaborar o que Dilma chama de banco de dados.

Segundo ele, os funcionários de sua secretaria estranharam o comportamento dos demais servidores da Casa Civil que faziam o mesmo trabalho. Por esse relato, esses servidores reagiam com gargalhadas e comemoração diante de cada nova descoberta sobre gastos curiosos ou exóticos do ex-presidente Fernando Henrique e de sua mulher, dona Ruth Cardoso.

Já naquela ocasião, Aparecido chegou a alertar caciques petistas sobre o que classificou de comportamento "amador" dos funcionários da Casa Civil. Esses relatos circularam pelo Palácio do Planalto, ainda em fevereiro, o que causou grande desconforto no comando da Casa Civil. Desde então, ele alega que passou a sofrer forte perseguição política de Erenice Guerra.

Nesta sexta, a própria Dilma falou por telefone com petistas e assessores do Planalto que têm contato com Aparecido. Nessas conversas, a ministra tentou passar segurança e afirmou que o secretário de Controle Interno não teria munição contra ela. Mesmo assim, Dilma foi alertada de que Aparecido está disposto a chegar muito perto dela, ao atacar diretamente Erenice. Por isso, cresce no Planalto o sentimento de que a secretária-executiva deveria ser sacrificada, apesar da resistência da própria Dilma.

Em tempo: o José Aparecido não vai para CPI coisa nenhuma, e se for, não dirá absolutamente nada. Sua “ameaça” é muito mais no sentido de ser preservado e receber, por seu silêncio, uma boquinha rica nos milhares de cargos à disposição. Ele sabe que deverá sair da Casa Civil,e para tanto, já prepara seu futuro imediato.

E a prova de que está em curso mais uma pantomima federal podemos ler a seguir:

Decretado o segredo de justiça

Eis aí o quanto este governo preza a verdade que o Luiz Inácio diz contar até para o diabo. Por envolver informações sigilosas, juiz federal decide dar tratamento reservado à investigação. Um dia depois de o Palácio do Planalto divulgar o resultado da sindicância interna da Casa Civil e apontar o secretário de Controle Interno, José Aparecido Nunes Pires, como responsável pelo vazamento dos gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso com cartões corporativos, o juiz da 12ª Vara Federal de Brasília, José Airton de Aguiar, decretou segredo de justiça no inquérito do caso.

A decisão impede que a Polícia Federal divulgue informações sobre os passos da investigação que, segundo autorização da própria justiça, deverá ser concluída nos próximos 60 dias. O delegado federal Sérgio Menezes vai pedir à Casa Civil cópia da sindicância que concluiu ser Pires quem vazou as planilhas de gastos do governo FH.

Auditor do Tribunal de Contas da União (TCU), levado para o governo pelo ex-chefe da Casa Civil José Dirceu, Pires já era apontado pelo delegado Menezes como um dos suspeitos pelo vazamento. Ele será intimado a prestar depoimento nos próximos dias e poderá ser indiciado. Os dados obtidos pelo Instituto da Tecnologia da Informação (ITI), órgão ligado ao Gabinete de Segurança Institucional do Palácio do Planalto, poderão ser anexados ao inquérito. Para a Polícia Federal o que terá valor jurídico, no entanto, serão os laudos que estão sendo preparados pelos peritos do Instituto Nacional de Criminalística (INC) do próprio órgão. Especialistas em informática, eles estão analisando os 13 computadores apreendidos nas salas da Casa Civil, onde foi feito o levantamento sobre os gastos com cartões corporativos, e devem chegar a conclusões mais amplas sobre o vazamento.

Assim, e menos de 24 horas após o depoimento da ministra Dilma ser inapelavelmente desmascarado, agora o governo tentar conter a sangria, e vai sentar em cima dos fatos que a investigação possa apurar e os quais, por sua natureza, comprovem, uma vez mais, que os trapaceiros do Poder Público não passam de um bando de mentirosos empedernidos, escória hipócrita que não admite que sejam divulgados seus atos criminosos.

Não fica nisto nenhuma surpresa. Desde a divulgação do mensalão, o governo Lula age no sentido sempre inverso em qualquer investigação que ameace mostrar-lhe sua verdadeira face.