Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil
Na repolhuda equipe que ocupa os espaços nobres do governo do presidente Lula falta o amigo de confiança, com a autoridade da longa convivência além da ousadia para avançar o sinal e falar com a rude franqueza no momento certo, no contraponto do chorrilho de elogios merecidos pelo muito que está dando certo.
Lula é um temperamento que pega no tranco e dispara ao primeiro sinal de que o caminho está livre. A sua biografia acompanha a trajetória que começa no sertão de Garanhuns, na tórrida zona da seca, e muda o rumo com a coragem de dona Lindu ao levar a filharada no pau-de-arara para Paulo. Aqui Lula é alfabetizado no troca-troca de três escolas públicas, tira o seu certificado profissional no Senai, trabalha em várias empresas e alça vôo na fulminante ascensão como líder sindical que funda o PT, coleciona três derrotas como candidato a presidente da República e se elege na quarta tentativa, para o bis da reeleição.
A tisana do êxito excita o exibicionismo do inquieto e impaciente, que abomina as tediosas conversas políticas e as intragáveis reuniões administrativas para tratar assunto em geral já decidido mas que empacam na engrenagem burocrática. Solta-se à vontade, nas viagens a pretexto de lançar projeto de obras, acompanhar o seu andamento ou a suprema ventura da inauguração. Sempre com o palanque armado, assistência a favor garantida e o microfone a postos para o improviso da sua facúndia de excepcional comunicador popular, capaz de dois, três e mais discursos no giro de um dia.
Com tais incentivos, cutucado pela aprovação da sociedade, Lula passou da medida. E, agora, como que perdeu as estribeiras e a noção da conveniência. Emenda, uma atrás da outra, as caneladas nos desafetos e os elogios mais descabidos e absolutamente incompreensíveis a antigos inimigos. E baixou o nível na linguagem chula que chega a pornografia. Dá para entender, apesar do erro tático, a sua implicância com o antecessor, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, depois da transição civilizada, com salamaleques e promessas de amizade eterna. Como o "aqui você deixa um amigo", à porta do Palácio Alvorada, depois do longo jantar íntimo dos casais presidenciais.
Liberto das cautelas, livre como o pássaro que escapa da gaiola, o presidente dirigiu a sua maratona de reconciliação com os desafetos do passado recente com o ímpeto de derrubar todas as cercas de arame farpado. Numa das sessões de descarrego, elogiou em dose dupla os ex-generais-presidentes Emílio Médici e Ernesto Geisel, numa penitência de comover o mais empedernido coração. Do ex-presidente Geisel se salva a intervenção no DOI -Codi de São Paulo, depois de duas mortes sob tortura do jornalista Wladimir Herzog e do operário Fiel Filho.
Do mandato do presidente Médici não há notícia de um gesto, de uma palavra de apoio ao retorno da normalidade democrática. Só agora, andando de costas, o presidente Lula reeditou o brado retumbante do "ninguém segura este país", lema enigmático da ditadura militar que não esclarece quem pretendia segurar o Brasil.
Se em boca fechada não entra mosca, da goela escancarada podem escapar involuntárias tolices. Das quais, deve-se presumir o arrependimento do deslumbrado presidente no topo da popularidade e com o reconhecimento internacional, carimbado pela Standard & Poor´s, do grau de investimento, que acena com um período de prosperidade com a atração de capitais estrangeiros.
Se o estoque de sentenças está desfalcado pelo excesso de uso, cutucando os escassos neurônios, sempre se encontra o cascalho amontoado no canto. Lembro a curta máxima do saudoso Paulo Francis: Quem não lê, não pensa. Ou, lá fundo, no buraco da memória, o provérbio de áspera advertência: Elogio em boca própria é vitupério. Vitupério é um substantivo feio, que soa como xingamento. E é quase: insulto, injúria, ato vergonhoso, infame ou criminoso.
Convenhamos que não é caso para tanto. E que se resolve com juízo, modéstia e bom senso.
Na repolhuda equipe que ocupa os espaços nobres do governo do presidente Lula falta o amigo de confiança, com a autoridade da longa convivência além da ousadia para avançar o sinal e falar com a rude franqueza no momento certo, no contraponto do chorrilho de elogios merecidos pelo muito que está dando certo.
Lula é um temperamento que pega no tranco e dispara ao primeiro sinal de que o caminho está livre. A sua biografia acompanha a trajetória que começa no sertão de Garanhuns, na tórrida zona da seca, e muda o rumo com a coragem de dona Lindu ao levar a filharada no pau-de-arara para Paulo. Aqui Lula é alfabetizado no troca-troca de três escolas públicas, tira o seu certificado profissional no Senai, trabalha em várias empresas e alça vôo na fulminante ascensão como líder sindical que funda o PT, coleciona três derrotas como candidato a presidente da República e se elege na quarta tentativa, para o bis da reeleição.
A tisana do êxito excita o exibicionismo do inquieto e impaciente, que abomina as tediosas conversas políticas e as intragáveis reuniões administrativas para tratar assunto em geral já decidido mas que empacam na engrenagem burocrática. Solta-se à vontade, nas viagens a pretexto de lançar projeto de obras, acompanhar o seu andamento ou a suprema ventura da inauguração. Sempre com o palanque armado, assistência a favor garantida e o microfone a postos para o improviso da sua facúndia de excepcional comunicador popular, capaz de dois, três e mais discursos no giro de um dia.
Com tais incentivos, cutucado pela aprovação da sociedade, Lula passou da medida. E, agora, como que perdeu as estribeiras e a noção da conveniência. Emenda, uma atrás da outra, as caneladas nos desafetos e os elogios mais descabidos e absolutamente incompreensíveis a antigos inimigos. E baixou o nível na linguagem chula que chega a pornografia. Dá para entender, apesar do erro tático, a sua implicância com o antecessor, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, depois da transição civilizada, com salamaleques e promessas de amizade eterna. Como o "aqui você deixa um amigo", à porta do Palácio Alvorada, depois do longo jantar íntimo dos casais presidenciais.
Liberto das cautelas, livre como o pássaro que escapa da gaiola, o presidente dirigiu a sua maratona de reconciliação com os desafetos do passado recente com o ímpeto de derrubar todas as cercas de arame farpado. Numa das sessões de descarrego, elogiou em dose dupla os ex-generais-presidentes Emílio Médici e Ernesto Geisel, numa penitência de comover o mais empedernido coração. Do ex-presidente Geisel se salva a intervenção no DOI -Codi de São Paulo, depois de duas mortes sob tortura do jornalista Wladimir Herzog e do operário Fiel Filho.
Do mandato do presidente Médici não há notícia de um gesto, de uma palavra de apoio ao retorno da normalidade democrática. Só agora, andando de costas, o presidente Lula reeditou o brado retumbante do "ninguém segura este país", lema enigmático da ditadura militar que não esclarece quem pretendia segurar o Brasil.
Se em boca fechada não entra mosca, da goela escancarada podem escapar involuntárias tolices. Das quais, deve-se presumir o arrependimento do deslumbrado presidente no topo da popularidade e com o reconhecimento internacional, carimbado pela Standard & Poor´s, do grau de investimento, que acena com um período de prosperidade com a atração de capitais estrangeiros.
Se o estoque de sentenças está desfalcado pelo excesso de uso, cutucando os escassos neurônios, sempre se encontra o cascalho amontoado no canto. Lembro a curta máxima do saudoso Paulo Francis: Quem não lê, não pensa. Ou, lá fundo, no buraco da memória, o provérbio de áspera advertência: Elogio em boca própria é vitupério. Vitupério é um substantivo feio, que soa como xingamento. E é quase: insulto, injúria, ato vergonhoso, infame ou criminoso.
Convenhamos que não é caso para tanto. E que se resolve com juízo, modéstia e bom senso.