quarta-feira, novembro 17, 2010

"Jabuti é concurso de beleza", diz editor da Record

Paulo Werneck, Editor da Ilustríssima, Folha de São Paulo

Na quinta-feira (11), o presidente do Grupo Editorial Record, Sérgio Machado, enviou à diretora da CBL, Rosely Boschini, e ao curador do Prêmio Jabuti, José Luiz Goldfarb, carta datada de 9/11, anunciando que em 2011 não inscreverá seus livros no prêmio.

O motivo: sua discordância com os critérios da disputa, que permite que o segundo ou o terceiro colocados nas principais categorias vençam os prêmios de livro do ano de ficção e não ficção, superando os primeiros colocados em cada categoria.

Foi o que aconteceu em 2010 na categoria romance: "Se Eu Fechasse os Olhos Agora" (Record), de Edney Silvestre, não levou o prêmio de livro do ano de ficção, no valor de R$ 30 mil, que ficou com o segundo colocado na categoria, "Leite Derramado", de Chico Buarque (Companhia das Letras).

A decisão joga o peso do maior grupo editorial do país, no setor de obras gerais (que exclui técnicos e didáticos), contra a mais tradicional láurea literária brasileira.

Machado recebeu a Ilustríssima na sede da editora, no bairro carioca de São Cristóvão, com a diretora editorial do grupo, Luciana Villas Boas. O teor da entrevista e da carta foi adiantado na coluna de Monica Bergamo, na Folha, na sexta-feira.

Eles falaram à Folha tendo por testemunha a assessora de imprensa Gabriela Máximo e trinta das muitas estatuetas do Jabuti já conquistadas pelo grupo.

A editora foi fundada pelo pai de Sérgio Machado, um aficionado de histórias em quadrinhos que, nos 50, ainda adolescente, passou a adquirir os direitos das histórias de heróis americanos.

Caso raro no setor, a Record tem um parque gráfico próprio, que acaba de ser reforçado com uma segunda rotativa Cameron que acaba de chegar da Europa e está em fase de testes. A máquina é capaz de imprimir, cortar, colar a capa e refilar as laterais de 6 mil exemplares por hora. Está sendo testada e em breve ajudará a dar vazão à gigantesca produção dos 11 selos da casa: segundo Machado, em 2010 terão sido 10 milhões de exemplares vendidos, muitos deles pelas mãos de distribuidoras de cosméticos Avon, parceria que é a menina dos olhos da editora.

A linha editorial reúne autores de perfil crítico ao governo Lula, como Merval Pereira, Mario Sabino, Ferreira Gullar, Fernando Henrique Cardoso e Reinaldo Azevedo. Não faltam autores premiados no catálogo da Record, como os recentes "papa-prêmios" Edney Silvestre, Cristóvão Tezza e Ferreira Gullar, todos com vitórias acachapantes em diversos certames. "La Carte et le Territoire", de Michel Houellebecq, o romance vencedor do Goncourt 2010, deverá sair no ano que vem pela Record.

A decisão de não participar do Jabuti retira da disputa de 2011 favoritos deste ano, como "Em Alguma Parte Alguma", de Gullar, "A Duração do Dia", de Adélia Prado, e "Um Erro Emocional", de Tezza --a menos que seus autores os inscrevam. *

Folha - Por que o Grupo Record não vai mais inscrever seus livros no Jabuti?

Sérgio Machado - O primeiro ponto é o fato de que é um prêmio da categoria, do setor. A segunda coisa que está mencionada na carta é que esse setor, por várias razões que não são difíceis de imaginar, deveria ter o compromisso com a meritocracia, porque se a gente acredita na meritocracia, implicitamente está acreditando no livro.

O meu protesto não é contra quem ganhou, é contra o processo, contra o conceito, a concepção do prêmio. Nesse prêmio o livro é inscrito pelas editoras, que pagam por inscrição. Quando eu inscrevo e pago, estou aceitando as regras. E se eu não estou feliz com as regras, o que é que eu posso fazer? Não inscrever. É só isso que eu fiz. Eu não estou indo lá para reclamar.

Até acho que o Chico Buarque devia ganhar o prêmio Nobel, porque ele já ganhou três prêmios Jabuti, "é o cara", "nunca antes nesse país uma pessoa"... O que ele escreveu já ganhou o Jabuti. Não escapou um.

A que você atribui a premiação de "Leite Derramado"?

A concepção do prêmio favorece essa característica de celebridade. Se eu amanhã publicar um livro infantil da Xuxa, é capaz que eu ganhe o infantojuvenil. Esse prêmio, do jeito que está sendo disputado, poderia ser feito na plateia do Faustão. Ou do Silvio Santos. Porque não tem absolutamente nenhum critério.

Não é possível interferir no regulamento dentro da CBL?

Não, não é. E nem estou disposto, porque eu já fiz assim, verbalmente, há uma comissão. Esse assunto não é novo. Eles sabem, eles têm noção que é uma característica desse prêmio.

Quer dizer, no momento que ele tem essa segunda etapa, na qual você reúne os três primeiros lugares, eles vão para um voto entre os associados, um voto que não é atribuído ao mérito, porque nenhum dos associados terá lido aqueles livros. Se algum leu, foi o seu, e acaba sendo um concurso de beleza, passa a ser um voto de simpatia.

Luciana - E não tem muita transparência na contagem dos votos. Essa metodologia retira um das grandes fundamentos de qualquer prêmio, que é orientar [o leitor]. Se você for votar no óbvio, não precisa do prêmio.

Soa como um "tapetão" pra você?

Não. Soa uma coisa mal pensada. Você tem que ser orientado. Tem que haver uma lista. Agora essa lista chega e diz assim: o melhor é esse, o segundo é esse, o terceiro é esse. Se essa lista não ranqueasse, se fosse um "short list" [lista de finalistas] como o do Booker Prize, como são os outros, não haveria esse mico do segundo ganhar [o prêmio de "livro do ano"], o terceiro ganhar, o que é uma coisa esquisita.

Você espera de uma associação de editores uma coisa bem editada, uma coisa bem pensada. É mais ou menos você fazer na sua livraria, arrumar os seus livros, mas o melhor é aquele que está aqui embaixo da prateleira? Não faz sentido.

Eu não tenho nada a dizer, eu não participo da diretoria, a única coisa que eu tenho é o seguinte: devo me inscrever ou não? E cheguei à conclusão de que está me dando muito trabalho explicar regras com que eu não concordo para as pessoas. E custa caro, porque afinal de contas a gente está pagando.

Mas como o senhor pretende explicar para os autores que publicou em 2010 que não vai inscrevê-los no Jabuti 2011?

Primeiro, conto com a compreensão deles. Vou explicar que a inscrição é onerosa, que o autor pode inscrever sua obra livremente. Aquele que quiser fizer achar está livre para fazer.

Ele pode ser prejudicado porque está numa editora que rompeu com prêmio?

Luciana - Pode ser até beneficiado, porque ele está indo contra a norma da editora.

Sérgio - Pode ser que ele seja valorizado por isso. Poderiam mandar ele até para o terceiro lugar e ele ganhar [o prêmio de livro do ano], o que seria mais bacana ainda. (Risos.)

Este ano vocês publicaram dois autores favoritíssimos ao Jabuti ou a qualquer outro prêmio brasileiro, que são o Ferreira Gullar e a Adélia Prado, para ficar nos consagrados.

Tem mais, tem mais. Lya Luft e Tezza.

Luciana - A Lya não quer ser inscrita de maneira alguma.

Por quê?

Luciana - Ela não acredita. Ela não acredita que não seja prejudicada.

Existe uma intenção de reafirmar um consenso nacional em torno do Chico Buarque?

Acho que isso é uma obviedade. Não acho que houve por parte da CBL, mas de certa forma acaba sendo, quer dizer, fica combinado assim, quando o Chico Buarque tiver um livro, ele já ganhou.

Luciana - Eu acho isso um sintoma da nossa pobreza cultural, da nossa caipirice. No Canadá existe uma situação muito parecida, mas não acontece nada disso.

Você tem o Leonard Cohen, que é o grande "lyricist" [letrista], o grande poeta de música, o grande músico nacional, que tem quatro ou cinco romances, vários livros de contos, ele nunca teve que ganhar prêmio no Canadá, apesar de ser um ídolo nacional.

Sérgio - É o exemplo, na minha opinião daquela unanimidade burra, como dizia o Nelson Rodrigues. Porque realmente não tem reflexão, foi pelo que Chico de fato representa, é uma coisa que é assumida como uma unanimidade.

Vocês ficaram com raiva?

Uma das coisas que mais movimentam o humano é a sensação de injustiça. É uma das coisas que você fica capaz até de... é impressionante.

Luciana - A raiva foi crescendo aos poucos. A raiva do Edney aumentou ao longo do dia e foi transmitida para mim. No dia seguinte, ele me disse: Luciana, estou me sentindo como o Paulo, o filho do dono do armazém que foi prejudicado pelo filho do oligarca da cidade, que ganhou na porrada, na rasteira [trama de "Se Eu Fechasse os Olhos Agora", livro de Edney].

Edney foi roubado?

Roubado, garfado. É uma coisa desagradável, porque a sua defesa pode ser sempre: ah, está com dor de cotovelo... mau perdedor... Mas nós entendemos que o autor é a razão de ser da editora.

O Jabuti fez a diferença para o Cristóvão?

Luciana - Acho que não. O Jabuti sozinho não faz diferença nenhuma. O que fez a diferença para o Cristóvão foi a consagração em todos os planos.

E se a CBL propuser um novo regulamento?

Claro, vamos estudar, vamos ver, vamos experimentar, claro. A ideia é essa.