Reinaldo Azevedo
Falei abaixo da solidão da meninada que protesta contra o baguncismo do Enem. Há mais a dizer sobre o trabalho dos gigantes que comandam o Ministério da Educação.
A prova, que não foi criada no governo Lula!, foi pensada como um instrumento de avaliação do ensino médio, com o objetivo de orientar políticas públicas que o qualificassem. Isso, como se sabe, não aconteceu. Prova única, transformou-se no vestibular das faculdades federais e de outras que, eventualmente, venham a aderir ao exame. Na prática, o MEC só estatizou o vestibular. Mas com grandes perdas — já volto a esse particular.
Como instrumento de avaliação da qualidade do ensino, o Enem deveria se fazer seguir de políticas públicas de qualificação do ensino médio, o que, é evidente, não está acontecendo — até porque a interferência do governo federal na área é pequena. Mas isso não o impediria de atuar. Se fosse o caso, convocasse um fórum dos estados e iniciasse um processo de:
a) unificação efetiva dos currículos;
b) qualificação dos professores;
c) estabelecimento de metas objetivas de melhoria da escola pública. Não se teria resultado da noite para o dia. A continuidade de uma política sustentada nesse tripé surtiria efeitos no médio prazo.
Nada disso está em curso.
Fernando Haddad preferiu deixar a sua “grande marca” na Educação — além da criação do “Sertanejo Universitário”, que vem a ser “a estética do ProUni”, como bem define Dona Reinalda: o fim do vestibular. E como ele decidiu pôr um termo a esse atraso? Ora, criando um megavestibular de quase quatro milhões de estudantes, com uma única prova por ano. Mas o fez com um diferencial: se as federais conseguiam aplicar vestibulares com razoável eficiência, o Enem de Haddad é um primor de incompetência.
A única maneira razoável de esse tipo de exame representar a eliminação do vestibular no seu formato tradicional seria a realização de “Enems” cumulativos. Alunos do primeiro , do segundo e do terceiro anos fariam provas com currículos específicos de seus respectivos níveis. Somam-se os pontos ao fim de três anos (e três provas) e se chega ao resultado. O Enem tem de ser cumulativo. Não ignoro que seria preciso realizar três séries de provas por ano e que eles não conseguem fazer nem mesmo uma… O fato de que sejam incompetentes não quer dizer que inexista o certo.
A forma atual não consegue nem mascarar as ditas “injustiças” do antigo modelo — deixo claro que esse papo de “injustiça” em ensino superior é uma conversa asinina, mas vá lá… Tudo está como era dantes, com uma ligeira diferença: não creio que tenha existido vestibular de universidade federal tão ruim quanto tem sido o Enem. Não havia lido ainda as provas. Eu o fiz hoje — no caso, a azul. Por isso demorei um pouco para voltar aqui. É de assustar! As questões se dividem em blocos de nomes modernosos e pomposos:
1 - Ciências Humanas e Suas Tecnologias;
2 - Ciências da Natureza e Suas Tecnologias;
3 - Linguagem e Códigos e Suas Tecnologias;
4 - Matemática e Suas Tecnologias;
5 - Redação
Os itens 1 e 4, que somam 90 das 134 questões, são um primor de proselitismo e de obviedade estúpida, cobrando do aluno não mais do que a capacidade de interpretar textos de quatro ou cinco linhas, desde que ele seja “ideologicamente sadio”. Falarei a respeito da prova com mais cuidado em outro post. As “Ciências da Natureza e Suas Tecnologias” escaparam do furor “companheiro”. Já havia apontado esta tendência no Enem em anos anteriores. Agora, acabou o disfarce: mais da metade da prova — incluindo a redação — está mais para um teste ideológico do que para um teste de conhecimento. Vocês verão exemplos gritantes.
Assim, ao se converter em megavestibular — e com essas características —, pautando as escolas do país inteiro, que passam a se orientar por ele, o Enem contribui é para confundir as referências das poucas escolas que conseguiam ministrar um conteúdo organizado. Ninguém mais precisa ensinar gramática, literatura, geografia, história, essas bobagens. Basta que o professor dedique seu tempo à formação de idiotas politicamente corretos. Isso resolve mais da metade da prova. Não pensem que “Matemática e Suas Tecnologias” sejam o bom exemplo do Enem. Há questões constrangedoras, como verificar se o aluno sabe quanto é 9,8% de 250 mil…
A herança de Haddad na educação irá muito além do “Sertanejo Universitário”… Em livros escritos antes de ser ministro, esse valente demonstrava sincero interesse em destruir o capitalismo. Vai ver esteja tentando pôr suas ideias na prática.