Thais Herédia
Portal G1
O tema do crédito ganhou novidades no mês de maio, mas trouxe novos alertas. A maior novidade é que, pela primeira vez “na história desse país”, temos um estoque de crédito maior que a metade do nosso PIB. Em economês, isso quer dizer que o volume de dinheiro para financiamentos a pessoas e empresas brasileiras alcançou 50,5% de tudo que produzimos no ano.
Daí vem o primeiro alerta. Mais do que o dobro do crescimento do crédito em maio, modesto 1,7%, foi registrado nos bancos públicos, onde a carteira de financiamentos subiu 2,5%. Na banca privada, as operações aumentaram 1%, e nos bancos estrangeiros, o resultado foi apenas 0,9% positivo.
“O banco público está emprestando mais, como queria o governo. De todo crescimento que houve no estoque de crédito, 67,3% deste volume está nos bancos públicos, 22,9% nas instituições privadas, e apenas 9,5% nos bancos estrangeiros. Quando se faz a concessão do crédito, a rentabilidade do banco aumenta no curto prazo. Mas com essa taxa de inadimplência , isso afeta o resultado lá na frente”, diz o economista Roberto Troster.
A segunda novidade é que os números confirmam que a estratégia do governo, ao fazer campanha para redução dos juros e estimular o crédito, funcionou – mas só fez sucesso no quintal de casa. Mesmo com a queda registrada nas taxas de juros para financiamentos em geral, os bancos privados estão mais cautelosos ao fazer novas concessões.
Aqui temos o segundo alerta. A inadimplência continua em alta, deixando o BC mais pessimista sobre a “acomodação” nos calotes, antes esperada para a metade do ano. Agora, segundo diretor do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel, a taxa de inadimplência das pessoas físicas, que ficou em 6% em maio, só deve arrefecer lá para dezembro.
“A perspectiva é que a inadimplência continue alta, porque o sistema bancário já fez a contribuição que dava. Esse sistema de crédito que temos hoje não funciona mais. Precisamos de um crédito mais consistente, com precificação transparente, prazos mais longos”, comenta Troster.
Para o economista, mesmo a maior novidade de todas, o fato do Brasil ter agora mais de 50% do PIB em crédito não merece tanta comemoração. Aqui na América do Sul, ficamos à frente do Paraguai, Bolívia e Colômbia. No Chile, o crédito é de 86%; na África do Sul, de 140% do PIB.
Cartão de crédito segue no posto de vilão dos juros e os financiamento de carros, dos calotes. São eles que vão carregar por mais tempo as facetas preocupantes que o mercado de crédito apresenta. O consumidor sente o golpe e revela, em pesquisas de confiança, que não está disposto a comprar muito nos próximos meses. Quem não vai gostar disso é o PIB, que ainda conta com apetite dos brasileiros para se “levantar” da dormência atual.