terça-feira, julho 02, 2013

IPEA confirma nossa teoria sobre as manifestações

Adelson Elias Vasconcellos

O texto é de Clarice Spitz  para o jornal O Globo, em que traz a declaração a do presidente do IPEA, Marcelo Neri, o cara que inventou a classe média dos R$ 300,00 sobre as manifestações que correm pelo país. Neri, depois de sua “estupenda invenção” foi devidamente agraciado por Dilma com a boquinha rica do IPEA.           
  
Mas ao menos ele acerta no ponto em que afirma que as manifestações de rua no Brasil tem sido conduzidas por gente da classe média. E justifica:  (...)” enquanto uma família chefiada por analfabeto teve um ganho de 88,6% na renda per capita nos últimos 10 anos (2001 a 2011), em uma família cujo chefe era uma pessoa com 12 anos ou mais de estudo, o rendimento caiu 11,1%.”

Ou seja, a grande distribuição de renda no Brasil se deu pela fórmula invertida. Ganharam os pobres o dinheiro que foi retirado da classe média real. E ganharam também os ricos, também via empobrecimento da classe média real. 

Assim, o PT inventou a fórmula em que si tira de quem tem um pouco para dar a quem não tem nada. Mas também se tira de quem tem um pouco, para se dar para quem tem muito. Lembro que Lula se gaba até hoje de que os banqueiros ganharam muito dinheiro durante seus dois mandatos. 

Eis aí parte do descontentamento desta classe média nas ruas, conforme dissemos aqui.  A outra parte da insatisfação, e ao contrário do que afirma Mantega, está na inflação em alta, que acaba por penalizar também a classe média, principalmente no campo dos serviços privados aos quais esta categoria precisa recorrer para fugir da precariedade dos serviços públicos, como educação e saúde. É só conferir as estatísticas que indicam o avanço das mensalidades escolares e dos planos de saúde privados. E, ainda para mostrar o quão distante da realidade está o garboso ministro da Fazenda do governo Dilma, é sobre que recai o peso maior da tributação na fonte sobre seus ganhos. 

Diante disto, é forçoso reconhecer que a insatisfação tem muitas causas, e todas derivadas de um método de governo, inaugurado  com Lula em 2003, em que se empobrece a classe média, para forçar uma classificação de classes que se ajuste ao discurso patológico desta turma. E, em contrapartida, para ficar de bem com que lhe financia a estupidez, se transferem grande parte desta renda de classe média para banqueiros e empresários amigos do reino. Infelizmente, poucos na imprensa brasileira são capazes de se aperceber da mistificação, e acabam dando eco à vigarice petista.

Várias vezes desmontamos esta farsa, seja da tal “nova classe média” que não passa de uma vergonhosa manipulação estatística, seja para denunciar o confisco dos salários dos trabalhadores via imposto de renda na fonte, seja, ainda, para desmascarar a farsa dos tais ganhos reais do salário mínimo. Aquilo que o governo promove em ganhos reais, ele mesmo confisca na forma de imposto de renda na fonte, além dos impostos e taxas diversas que aplicou nos serviços públicos. Exemplo deste achaque é o volume de tributos incidentes sobre as tarifas de energia elétrica, que nos governos petistas mais do que dobraram, tornando estas tarifas uma das mais caras do mundo.   E, do lado do imposto de renda fonte sobre o trabalho assalariado, a isenção que, em 2002 ia até 5 salários mínimos, hoje não ultrapassa a 2,5 salários. 

É claro que o blabláblá explicativo de Marcelo Neri que se segue no texto, não passa de gabolice e vigarice.  Tenta criar uma falsa teoria sobre as razões da insatisfação para justificar sua vigarice sobre a tal “nova classe média”.  Quanto à sua afirmação estúpida de que a possibilidade de haver nas manifestações pessoas da sua invenção, isto é, a tal “nova classe média”, não resiste a dez segundos de reflexão com a realidade.  
É claro que qualquer indivíduo com um pingo de juízo, seja de que classe de renda for, não pode estar satisfeito com a péssima qualidade dos serviços oferecidos pelo governo petista. Eles não são apenas precários, são indignos. 

Contudo, esta categoria de renda que Neri comemora, tanto quanto os dependentes e beneficiários do Bolsa Família não deixaram sua condição social anterior, continuam sendo pobres.   Esta “promoção” só existe para embalar o discurso canalha do governo petista.  São pessoas que se utilizam maciçamente dos serviços públicos, dado que sua condição de renda não lhes permite custear os de natureza privada. Tal condição desmonta ainda mais a farsa inventada por Neri.

Porém, a baixa renda é e continuará sendo dependente dos programas dito sociais. E o medo de perderem estes benefícios, com alguns sendo beneficiários há mais de 10 anos (!!!!), o que comprova a falta de portas de saída e a situação de perenização da pobreza que os programas produzem, faz com que elas não saiam às ruas para protestarem, muito embora ninguém lhes esconde o seu descontentamento com saúde, educação. Porém, sobre estas pessoas de baixa renda, é preciso reconhecer incide a maior agressão social e institucional porque, além  de educação e e saúde precárias, elas são atormentadas pela insegurança pública e a falta de saneamento básico, além da indignidade do transporte público que chegou a tamanha indigência,  por culpa exclusiva de nossos governantes, dada a escandalosa omissão no seu dever de fiscalizar.  

Assim, e as imagens da cobertura das televisões não conseguem esconder, há muitas pessoas nos estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste que se juntam às manifestações pelas mesmas razões que faz a classe média sair às ruas. 

 Tivesse o senhor Marcelo Neri um  pingo de vergonha na cara, e um mínimo compromisso com a verdade não teria afirmado de forma tão vigarista que “...O Brasil fez demais e não de menos. Talvez a desigualdade tenha caído numa velocidade maior que a gente seja politicamente... uma zona de conforto, do ponto de vista político.”

 Ocorre, e as estatísticas não desmentem, que a desigualdade no Brasil iniciou sua trajetória de queda a partir de 1995, com o Plano Real, os programas sociais de FHC que colaboram para a queda da desnutrição e mortalidade infantil, além da universalização das matrículas no ensino básico, e com a política de aumentos reais do salário mínimo também iniciado com FHC.  

E se houvesse “Brasil demais”, senhor Neri, simplesmente não haveria insatisfação. O que justamente move estes milhões nas ruas é a falta de “mais Brasil” em suas vidas, justamente em razão dos governos petistas fazerem muito menos do que deveria e poderiam, além do fato de que, e isto provado, os programas ditos sociais não passam de assistencialismo barato porque não oferecem as pontes de emancipação como indivíduo aos seus milhões de beneficiários e eterno-dependentes.

 Segue o texto do Globo.

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RIO - O ministro-chefe interino da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE/PR) e presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcelo Neri, disse que a origem da onda de protestos que varre o país pode estar no ritmo diferenciado de avanços sociais ocorridos na última década, com a renda no topo da população subindo com muito menos força do que na base. Para ele, os protestos nas ruas não são feitos “pelos mais pobres”.

Neri citou o fato de que enquanto uma família chefiada por analfabeto teve um ganho de 88,6% na renda per capita nos últimos 10 anos (2001 a 2011), em uma família cujo chefe era uma pessoa com 12 anos ou mais de estudo, o rendimento caiu 11,1%. Lembrou ainda que a renda per capita nas principais capitais do país tem alta de 3,1% em termos reais, entre junho de 2012 e maio de 2013. Na periferia, sobe 5,4%. Nas famílias com mais de seis pessoas no domicílio, avança 5% e tem alta de 6,3% para trabalhadores com menos de um ano de estudo.

— Tenho uma suspeita de que não é a mulher negra da periferia (que está nas manifestações) — afirmou. — Pessoas que estão na parte superior da distribuição, no lado belga da ‘Belíndia' , talvez tenham razões para não estarem tão satisfeitas — disse, ao citar o termo cunhado pelo economista Edmar Bacha, em 1974, para marcar os contrastes do Brasil próspero - representado pela Bélgica - e da miséria da Índia.

Para Neri, o descontentamento popular, a despeito das melhoras nos indicadores sociais, pode ser explicado porque as desigualdades caíram com uma intensidade que superou a “zona de conforto” política.

— O Brasil fez demais e não de menos. Talvez a desigualdade tenha caído numa velocidade maior que a gente seja politicamente... uma zona de conforto, do ponto de vista político. Talvez a gente tenha feito demais, eu particularmente tenho muito orgulho do que se fez no Brasil em termos de redução de desigualdade, mas a desigualdade era alta, o brasileiro aceitava, nossas instituições, nossos comportamentos nos levavam a ter uma desigualdade alta — afirmou.

Ele não descarta, porém, que entre os manifestantes possam estar também pessoas da “nova classe média”, aquelas que ascenderam à nova classe C há cerca de 10 anos, e que hoje pedem avanços também na educação e na saúde. Segundo ele, as aspirações de consumo são potencializadas pela internet.

— Talvez elas queiram outras coisas, para além do ganho de renda, (além) do ganho trabalhista, seja ganhos de saúde, de educação. As pessoas se acostumam às suas conquistas e querem mais. Por outro lado, quando você olha para o lado vê que os pobres estão ganhando mais, isso talvez possa explicar um certo inconformismo — disse.

Ele reconhece que o país vive um momento de incertezas com as manifestações e vê uma tendência de estabilidade para a trajetória de queda na desigualdade.

— O mercado de trabalho está dando sinal de desaquecimento, o que me preocupa é que todo aumento de renda decorre do salário — afirmou.