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Mateus Silva Alves, Estadão Conteúdo
"Mesmo que tenha existido a inquietação social, agora temos certeza de que essa inquietação está esfriando, não sei por quanto tempo", comentou o cartola
ilson Dias/ABr
Ao dizer que não sabe quanto tempo os protestos vão durar,
Blatter escancara sua preocupação com a Copa do Mundo de 2014
Rio - Tomando todo o cuidado para não soar antipático, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, deixou claro nesta segunda-feira o incômodo que lhe causou, e ainda causa, a onda de protestos que tomou de assalto o Brasil e a Copa das Confederações.
Na entrevista coletiva que concedeu em um luxuoso hotel do Rio para fazer uma avaliação do torneio, o suíço mencionou várias vezes as manifestações, mesmo quando não foi perguntado sobre isso.
E sempre exibiu seu desconforto por ter de lidar com um problema que não esperava encontrar no Brasil. "Quando começamos, havia um certo temor do que iríamos encontrar", comentou o cartola. "Mesmo que tenha existido a inquietação social, agora temos certeza de que essa inquietação está esfriando, não sei por quanto tempo."
Ao dizer que não sabe quanto tempo os protestos vão durar, Blatter escancara sua preocupação com a Copa do Mundo de 2014. São grandes as chances de as manifestações se repetirem no Mundial, talvez até de maneira mais intensa do que na Copa das Confederações.
Por isso, o chefão da Fifa tenta a todo custo diminuir a importância dos protestos contra os torneios organizados por sua entidade no Brasil. "Não quero opinar sobre problemas internos do Brasil", disse ele. "O futebol serve para conectar as pessoas. Nunca dá para satisfazer a todos, então nós tentamos satisfazer o máximo de pessoas possível."
Também presente à entrevista, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, defendeu a legitimidade das manifestações e lembrou que em nenhum momento o governo federal prometeu um evento completamente livre de problemas. "Creio que cumprimos o desafio de realizar o torneio, mas em nenhum país em que se faz um evento desse tamanho o desafio é 100% cumprido."
O ministro voltou a defender o investimento do governo na Copa das Confederações e na Copa do Mundo e garantiu que as obras de infraestrutura prometidas para o torneio do ano que vem estarão todas prontas, embora a maioria delas esteja muito atrasada.
"As obras têm de ficar prontas para a Copa do Mundo, não para a Copa das Confederações. E quero lembrar que elas são para a população, não para a Copa. Elas já seriam feitas de qualquer maneira, apenas o calendário foi modificado."
***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Vamos por partes. Primeiro, quanto as manifestações. Na Copa elas tendem a se intensificar. Até lá serão ao menos mais três elefantes brancos a serem inaugurados: os estádios de Manaus, Cuiabá e Natal.
Segundo, confrontando o que vai ser entregue com o projetado originalmente, no campo da mobilidade urbana, por exemplo, a população se dará conta de que muita coisa ficou pelo caminho. Além disso, muitas obras não ficarão prontas para a Copa. e sequer se tem segurança quando serão concluídas.
Terceiro, dentre as reivindicações das passeatas, educação e saúde, mesmo que seus problemas crônicos comecem a ser atacados de imediato, não haverá tempo hábil para que os resultados apareçam.
E, quarto, muito orçamento do tal "legado"será elevado, tornando a irritação da população ainda maior por serem indícios de que a corrupção, apesar das leis, continuará resistente. E esta resistência só será quebrada mediante ações judiciais mais rápidas e com mais políticos condenados e presos, sem regalias.
