Adelson Elias Vasconcellos
Não sou marqueteiro, nem cientista político. As opiniões que expresso partem, primeiro, da própria experiência de vida. Segundo, da lógica da informação, o conjunto de fatos a revelar um cenário. Sendo assim, não tenho aqui a pretensão de apontar caminhos que, a meu ver, a presidente Dilma deveria adotar neste momento de crise.
Após três semanas de protestos, protestos a revelarem uma completa insatisfação da população para com o governo, ou melhor, com os governos em todas as suas esferas e a total rejeição aos políticos e respectivos partidos, era evidente que a queda da popularidade presidencial se revelaria da forma como o Datafolha demonstrou. Considerado apenas 2013, Dilma perdeu metade de seu capital político.
Mas a queda em grau em tão forte não se explica apenas pelos protestos. Os protestos é que demonstram que a tal popularidade não era tanto quanto se imaginava. Isto se conclui facilmente. Havia, como ainda há, um descontentamento com o resultado de um governo ruim. Voltem um pouco no tempo. Apesar das pesquisas concluírem pela aprovação majoritária do governo Dilma, quando se descia para o chão dos serviços a cargo de seu governo, a avaliação se situava em nível regular. Nada além disso.
Se formos reunir os clamores mais incisivos que vem das ruas, em nenhum quadro encontraremos reforma política como cobrança. Assim, a resposta que o governo tenta dar à crise está, a meu ver, fora de foco. Trata-se muito mais de um diversionismo, de um “vamos mudar de assunto”, do que propriamente transmitir à população que, de fato, o governo ouviu os seus protestos e cuidará de atender ao que se pede.
É claro que o sistema de representação política precisa ser mudado, não apenas para dar maior transparência à ação dos políticos brasileiros, como também para que a formatação do congresso, das assembleias legislativas e câmaras de vereadores representem a realidade das urnas, coisa que hoje está muito longe de acontecer. No campo da reforma política, a agenda de mudanças é muito extensa.
Mas pergunta-se: é disso que o povo protesta nas ruas? Creio que não. O povo cobra por educação de qualidade. O governo responde destinando mais verbas para a área. Mas destinar mais verbas para uma área cujo sistema não sofrerá mudanças estruturais, resolverá o problema da má qualidade? É óbvio que não. A mudança não deve acenar com mais verbas num sistema deficiente. É preciso redesenhar o sistema em vigor. E mesmo que melhorem todos os aspectos relacionados à educação, como curriculum, carga horária, qualificação dos professores, salários mais justos, estrutura física e de meios das escolas, valorização e priorização do mérito, os resultados demandarão certo tempo para acontecer. Qualquer pressa tende a piorar o que já é ruim.
No campo da saúde a situação não é menos diferente. Jogar milhares de médicos importados resolverá o problema da falta de estrutura crônica por que passam os hospitais públicos? Modificará a situação desumana de pacientes jogados em macas imundas nos corredores das unidades? Abastecerá de forma mínima as enfermarias com medicamentos essenciais? Corrigirá o problema crônico de equipamentos indispensáveis parados durante meses por falta de manutenção?
E quanto à segurança, que resposta o governo Dilma tem para reduzir drasticamente a vergonhosa estatística de mais de 50 mil homicídios ano? E a situação precária do sistema prisional?
No campo da impunidade e corrupção, qual o projeto para reduzir drasticamente o tempo de julgamento e cumprimento efetivo da pena pelos condenados? Natam Donadom teve aberto um processo contra si em 1995. Somente cerca de 18 anos depois é que o parlamentar foi para à prisão. E ainda assim permenece deputado. Dá para aceitar? Por quanto mais, por exemplo, assistiremos mensaleiros condenados à prisão, aboletados placidamente nas cadeiras do Congresso Nacional? Por quanto tempo mais vamos insistir em não reduzir a maioridade penal?
Vejam: em apenas três áreas de responsabilidade do governo federal, educação, saúde e segurança pública, o que não faltam são questões a exigir ação imediata. Mesmo que os resultados demorem a aparecer, se as mudanças projetarem sensível melhorias nestas áreas, se o objetivo for reduzir os problemas atuais a um mínimo razoável, colocar isto tudo de lado, para se envolver numa questão complexa, e da qual grande parte da população se acha distante, creio ser um escolha equivocada.
Outro campo que está a exigir mudanças urgentes é o da economia. Porém, considerando a mentalidade atrasada do responsável pela área, somente a mudança de nomes poderá colaborar para que estas mudanças aconteçam. Estará Dilma disposta alterar seu ministério para trazer gente que irá se chocar frontalmente com o que ela própria pensa sobre economia? É bom não esquecer que ela sempre rejeitou, até mesmo na campanha eleitoral, qualquer ideia ou apelo por austeridade fiscal. E, no entanto, dada as condições atuais, ela própria acenou com um pacto pela austeridade fiscal. Porém, até aqui, não suspendeu a política de expansão de gastos. Quando lhe informaram que uma das sugestões seria a redução do número de ministérios, subiu nas tamancas.
Portanto, sem que o governo provoque profundas mudanças na condução de suas políticas e programas, não será com reforma política que Dilma conseguirá desfazer o mal estar e insatisfação contra o seu governo. E, em consequência, não conseguirá recuperar seu capital político. Mesmo que, cenário exageradamente otimista, alcance a prioridade número de sua gestão que é reeleger-se em 2014, dado todos os indicadores de seu governo, a crise tende a aumentar.
Por outro lado, querer impor uma agenda de mudança no sistema político-eleitoral para vigorar já a partir das eleições de 2014, considerando todas as questões que precisam ser equacionados tanto no campo político, quanto no logístico, corre-se o risco de enfiar o país num buraco, onde se torrará milhões de reais numa aventura que não nos assegure transformações importantes e positivas para a representatividade política.
Lula, que se encontra na África, referindo-se às manifestações, afirmou que “...isso é resultado do que foi feito nestes 10 anos...” . Então, se “isto” é derivado da insatisfação popular, depreende-se que os 10 anos de PT no poder é a maior responsável por estas insatisfações, correto?
Conclui-se, deste modo, ter chegado a hora de mudar: mudar o comando do país que provocou todo este tumulto, e que, dada às respostas oferecidas no cardápio governamental, não se direcionam a minimizá-las já que não se está atacando as graves questões que levaram o povo às ruas.
O fato, meus amigos, é que o governo Dilma continua surdo. E assim é porque as políticas que estão aí, e que provocaram toda as insatisfações que estamos assistindo, foram escolhas de governo, e tais escolhas foram construídas sobre aquilo que Dilma acredita ser o certo. Está visto que erraram tanto no diagnóstico quanto na prescrição do tratamento. E, ao escolher a reforma política como prioridade neste momento, ele como que está a nos dizer que não tem respostas para as questões que nos desagradam. Agora cabe aos eleitores também se tornarem surdos aos apelos que Dilma e petistas nos darão durante a campanha em 2014. Nada mais justo para aqueles que nos ignoraram até aqui, e que continuam apostando que não passamos de massa de manobra, fácil de enganar, fácil de convencer.
Nesta edição, transcrevemos matéria do Valor online contando aquilo que muitos fizeram questão de esconder sobre as pesquisas: maior perda de popularidade de Dilma ocorreu entre os mais pobres. Eis aí um resultado bem interessante: até agora é um espanto o que há de gente tentando emplacar a insatisfação popular restrita apenas à classe média. E há aqueles que ainda dizem que estes “insatisfeitos” formam o contingente oriundo da nova classe média, aquela invenção grotesca do Marcelo Neri que, de presente, ganhou um ministério.
Eis aí: nem com os tantos bilhões das bolsas que os governos petistas jogam no colo é capaz de aplacar a indignação proveniente dos maus serviços públicos que são oferecidos à população, e cuja precariedade acaba afetando bem mais à classe mais pobre da população. E os governos petistas ainda insistem em criticar à imprensa? Nunca na história ela foi tão chapa branca e torceu tanto a favor das esquerdas como agora.