Míriam Leitão
O Globo
A África do Sul teve um crescimento a mais por causa da Copa de 0,4 ponto percentual do PIB. Mas o investimento em infraestrutura aumentou nos anos anteriores à disputa de 4,5% para 10% do PIB. Aqui, de 2008 a 2012, foi de 1,8% a 2,3%. Isso reduz a expectativa do impacto do evento na economia, apesar da esperança de que venham mais que os 300 mil turistas que foram para lá.
A comparação do investimento em infraestrutura, por causa da Copa, na África do Sul e no Brasil foi feita pelo Citibank dos dois países. Marcelo Kfoury, superintendente do Departamento Econômico do Citi no Brasil, não acredita muito que a Copa vá elevar o crescimento brasileiro. O economista Armando Castelar, do Ibre da Fundação Getúlio Vargas, também não acredita nesse efeito positivo.
— Vai ter feriado demais e isso significa menor faturamento para o comércio e menos produção para a indústria, o que neutraliza o eventual ganho da vinda dos turistas — disse Castelar, repetindo o que tem sido dito por algumas empresas, como as do setor automobilístico.
Tanto o Citibank quanto a FGV estão projetando um crescimento do PIB de apenas 1,8% para o Brasil em 2014. Entrevistei os dois economistas no programa de ontem da Globonews.
Marcelo Kfoury acha que o Brasil também vai se aproveitar menos da melhoria do cenário internacional:
— Os Estados Unidos estão crescendo mais, mas o Brasil perdeu competitividade, exportava antes 20% para os Estados Unidos, está exportando 10%. Recuperar esse mercado não é fácil.
Castelar acha que a médio prazo o fortalecimento da economia americana é bom para o Brasil, mas a transição para o novo ritmo dos Estados Unidos será complicada. E lembra que a Ásia está com problemas.
— Os Estados Unidos estão acelerando, e o Fed vai parar de imprimir US$ 1 trilhão por ano. Num primeiro momento, o Brasil sofre com a saída do dinheiro e o custo de financiamento das empresas e do governo, que será maior. A transição para uma economia internacional melhor será complicada. Quanto à Ásia, a China está reduzindo o grau de endividamento da economia, apertando o interbancário e pode crescer menos de 7%. A Índia está mal: com déficit em transações correntes alto e inflação alta — diz Armando.
Marcelo Kfoury mandou esta tabela abaixo mostrando o que ele chamou de os "mais frágeis": países que têm dívida alta, déficit em transações correntes, e que tiveram desvalorizações maiores com os primeiros movimentos de mudança da política monetária americana. O Brasil teve uma desvalorização no ano passado de 15%, e de 5,88% apenas entre outubro do ano passado e janeiro de 2014, conforme se vê na tabela.
Os dois economistas acham que pode haver mais saída de dólares do Brasil nesta continuação da política de redução dos estímulos monetários. No ano passado, já houve um fluxo externo negativo de US$ 12 bilhões, como divulgado pelos jornais. Isso pressiona o dólar. O Citi está prevendo um dólar a R$ 2,50, podendo ser mais alto ao longo do ano. A balança comercial vai melhorar um pouco, segundo Armando Castelar. De US$ 2 bilhões de superávit para US$ 8 bilhões.
A Copa poderia ser mais bem aproveitada para empurrar o crescimento do Brasil se o país tivesse investido mais e se preparado para incentivar os investimentos. Com a opção de muitos feriados, há o risco de que os bons efeitos sejam neutralizados. Além disso, ocorrerá nesse momento de transição da economia internacional em que o Brasil sentirá outros impactos.
