O Estado de S.Paulo
O Tesouro teve de pagar juros prefixados de quase 13,39% ao ano para captar R$ 1,64 bilhão em papéis denominados NTN-F com vencimento em 1.º de janeiro de 2025. O juro, fixado em leilão realizado quinta-feira, revela o estrago que a perda de qualidade da política fiscal impõe ao governo. "Acho que o mercado tem na cabeça que um nível necessário de juro para fazer a inflação convergir para 4,5% (o centro da meta) é 13%", notou o sócio da Modal Asset, Luiz Eduardo Portella, ao jornal Valor. A declaração dá a ideia da dificuldade do Tesouro para evitar uma explosão dos custos da dívida.
Ao anunciar os resultados do leilão, o coordenador de planejamento da dívida, Otávio Ladeira de Medeiros, considerou a taxa "bastante interessante". O Tesouro, disse ele, temia que o custo fosse ainda mais elevado. Houve forte demanda, que permitiria colocar uma quantidade de papéis cinco vezes maior. Mas o vigor da procura não evitou as taxas bastante altas.
Desde 2007 o Tesouro leiloa título prefixado de longo prazo para balizar o mercado. Naquele ano, pagou juros de 12,64% ao ano, abaixo da Selic da época (13%). Depois, lançou papéis vencíveis em 2023 com juro de 13,1% ao ano (a Selic era de 11,25%) e de 2023 com juro de 11,329% (a Selic era de 9,75% ao ano). A diferença em relação à Selic de 10% é agora maior: 3,39 pontos porcentuais. Projeções de taxas futuras chegam a elevar a 14,4% o patamar do juro entre 2023 e 2025.
O Tesouro paga caro para alongar a dívida. Em outubro e novembro, o custo médio das NTN-F foi de 11,65% ao ano. Juros mais altos pagos nas novas emissões elevarão esses custos no futuro. Novas ameaças fiscais se acumulam. O aplicador que compra os papéis prefixados está aceitando os riscos. O custo de colocar NTN-F não é isolado, quando o mercado indica deterioração marcada por queda dos preços de ações e alta de cotações do dólar (revertidas, parcialmente, ontem). O câmbio sobe em razão da fuga da moeda para o exterior, aumento da compra de dólares em espécie por turistas e recuperação da economia norte-americana, que provoca valorização global do dólar.
O descumprimento da meta fiscal de 2013, citado no artigo de Felipe Salto, da Tendências, ontem no Estado, deixa a Fazenda a descoberto. Não se sustentam as declarações do ministro Mantega em 31 de dezembro sobre o superávit de 2013. O leilão das NTN-F de 2025 afasta dúvidas, se ainda existiam.