sexta-feira, janeiro 06, 2012

URSS, Coréia do Norte, Cuba e o que alguns chamam de “sonho socialista”

Bolívar Lamounier, Portal Exame

De alguns anos para cá, graças a umas poucas fotos e seqüencias de televisão,  pudemos ter pelo menos uma vaga  noção a respeito da Coréia do Norte.  Com a morte de  Kim Jong-il e a confirmação de seu  filho para o comando do país,  mais algumas imagens  e informações fragmentárias chegaram ao Ocidente.

Pelas  informações eu passo batido, pois não sei que valor têm.  Pelas imagens, devo confessar que  tenho um enorme interesse.

Se  a frase acima levou o leitor  a me imaginar decifrando a alma de um país distante  através de  fotografias, apresso-me  a esclarecer que não se trata disso. Não sou  possuidor desse  ou de qualquer outro dom misterioso. A  alma que eu tento decifrar não é a dos norte-coreanos, é a nossa mesmo: a dos brasileiros, ou dos latino-americanos, como queiram. A alma de uma parte ponderável da nossa juventude, especialmente.

Junto com Cuba, a Coréia do Norte é o que sobrou do antigo sonho socialista (leia-se: marxista-leninista).

Do ponto de vista econômico, a situação da Coréia do Norte deve ser parecida com a de Cuba. O que a torna diferente é o seu poder de chantagem. Rigorosamente militarizado, o país tem um programa nuclear (sabe Deus em que estágio) e uma razoável capacidade para disparar mísseis de médio alcance. Disto sabem muito bem os coreanos do Sul e os japoneses.

Sim, a Coréia do Norte é um país paupérrimo, e a pobreza obviamente reforça o seu jeitão macabro. E a Alemanha Oriental, na antiga e orgulhosa Prússia, tinha um jeito alegre e jovial? Outro dia eu falei sobre o filme “A vida dos outros” e me perguntei por que  os jovens que ainda cultivam o mito da revolução não se munem de coragem para assisti-lo.  De coragem e de honestidade intelectual para refletir sobre ele.

Volto, porém, às fotos e imagens de TV. E ao que chamei de velho sonho socialista. Olho de novo a foto do jovem Kim Jong-un em uniforme militar, tento imaginar o cotidiano da sociedade que ele de um jeito ou de outro encarna, e  me pergunto: ainda há no mundo alguém capaz de se inspirar nisso?

Estarei por acaso forçando a barra? Minha indagação é capciosa? Duas interpelações eu antecipo sem nenhuma dificuldade.  A  primeira: “a Coréia do Norte pode não inspirar, mas por que você não fala de Cuba?”

De Cuba eu não  tenho falado porque não vejo necessidade.   Temos tido muitas notícias de lá, e aqueles a quem Deus aquinhoou com a virtude da paciência podem até entrar no site do Granma, o órgão oficial do Comitê Central do Partido Comunista cubano. Os textos que ele imprime não estão em coreano, estão em espanhol, e o próprio governo já desistiu de fazer segredo. Diz para quem quiser ouvir que a situação da ilha é catastrófica.

Segunda interpelação: “nenhum ‘caso concreto’ invalida o sonho socialista. Você está falando do ‘socialismo realmente existente’, não do socialismo como sonho, teoria e projeto histórico”.

Isso é verdade: falei de dois “casos concretos”. O sonho, a teoria e o projeto  surgiram em meados do século 19: cerca de 160 anos atrás. Levado à prática , a ferro e fogo, o projeto transformou a URSS numa grande potência militar. Finda a guerra de 1939-45, a URSS logo atingiu a paridade com os Estados Unidos em capacidade destrutiva e dominou direta ou indiretamente quase metade do planeta.

Chegou até à insensatez  – vejam só – de atender  a um desatinado pedido do companheiro Fidel Castro: instalou mísseis com ogivas nucleares em Cuba. Mas, como diz o conhecido refrão, o mundo roda e a Lusitana voa. Ao completar  75 anos, a grande potência não se agüentava mais. Desmoronou como um castelo de cartas.

E sobre a teoria e o sonho, que posso dizer neste exíguo espaço? Não muito, evidentemente, mas o meu desejo, de qualquer forma, é tocar só em dois pontos.

Vladmir I. Lênin podia ter mil defeitos, mas tinha duas grandes qualidades: dizia o que pensava e escrevia com uma clareza de dar inveja.  Após a Revolução de 1917, com a experiência  que havia adquirido em debates com os socialistas na Rússia e fora dela, ele logo avisou, curto e grosso: a teoria é uma só e a interpretação correta é a do Partido.  Doa em quem doer.

E, de fato, doeu em muita gente. Morto em janeiro de 1924, Lênin não chegou a ver  em quanta gente, mas realmente não foi em pouca. Em todos os “casos concretos” do “socialismo realmente existente”, sem exceção, o partido e a polícia política desenvolveram técnicas assaz eficientes para impedir discordâncias teóricas ou oníricas.

Meu segundo e último ponto é sobre o lugar da psicologia na teoria marxista. Há nela um axioma  não-escrito que ao fim e ao cabo se revelou mais importante que a maioria dos axiomas escritos que a compõem. Ele diz que, do ponto de vista psicológico, os líderes marxistas são inteiramente homogêneos. São todos iguais, rigorosamente equivalentes – e admiráveis. Nenhum é maluco, mau caráter ou paranóico.  Todos altruístas, fortes, destemidos, equilibrados etc.

Este pilar não-escrito da teoria  nenhum marxista de destaque jamais conseguiu questionar…e permanecer no partido. Lênin, se não tivesse falecido, talvez o fizesse. No leito de morte, ele redigiu e deixou com sua mulher o que veio a ser conhecido como seu “testamento”. Era para ser lido no próximo congresso do PC.

Nesse documento, Lenin fazia uma recomendação ao mesmo tempo grave e enfática: o partido precisava tirar Stálin da Secretaria Geral – a posição de poder em que ele se abotoara. No lugar dele, era imprescindível – vou citar literalmente – colocar alguém “mais tolerante, mais leal,mais cortês, que tenha mais consideração pelos camaradas, que seja menos caprichoso etc”.

Para bom entendedor, pingo é letra.