segunda-feira, fevereiro 16, 2009

O futuro pela janela

Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa

No apartamento discreto da Zona Sul, do Rio, Petrônio Portela, presidente nacional da Arena, estava surpreendentemente intranquilo naquela noite de 1974. A garrafa de uísque, o balde de gelo, dois copos, um jornal, era só. Toca a campainha, o próprio Petrônio abre a porta. Entra Delfim Neto. Gordo, mas ágil, sorridente, meia hora de amena conversa. Petrônio abriu o jogo :

- Delfim, vamos falar de São Paulo. Na verdade, não há o que discutirmos. Há uma decisão tomada e tenho apenas que comunicá-la. Você não pode ser o novo governador de São Paulo.

- Mas isto é uma violência. Tenho sete anos de serviços prestados à revolução. Não posso aceitar este veto.

- Muito mais serviços à revolução, mais do que você e mais do que eu, prestou o Lacerda. E foi tirado de campo (cassado no AI-5 de 1968).

- Mas Lacerda fez a Frente Ampla. De que me acusam?

Delfim
Petrônio serviu um uísque para os dois e continuou:

- Não se trata de acusar, Delfim. O governo Geisel tem uma estratégia para São Paulo e você não está enquadrado nela.

- Não me conformo. Vou disputar na convenção.

- Iria, Delfim. Não vai haver mais convenção. Os diretórios é que indicarão o governador.

- Tenho maioria no diretório.

- Tinha. Não terá mais. Está tudo acertado.

- Então disputo o Senado.

- Também não pode. O governador será o Paulo Egidio e o senador o Carvalho Pinto.

- Quer dizer que estou cassado.

- Não está. Vá para a Câmara Federal ou para um posto no Exterior.

- Não quero. Volto à Universidade.

- Volte. Mas não cometa o erro do Lacerda. Não jogue o futuro pela janela. Deixe a história caminhar.

Despediram-se, Delfim saiu. Delfim tinha tomado três doses de uísque. Petrônio, uma só.

Quercia
A conversa foi na sala. No escritório do apartamento, que era dele, o senador Vitorino Freire ouviu tudo e me contou, com meu compromisso de só publicá-la depois da nomeação de Paulo Egidio para o governo de São Paulo. Nomeado por Geisel em 29 de março de 74, aprovado pela Assembléia Legislativa em outubro de 74, foi empossado em 15 de março de 75. Carvalho Pinto, o senador indicado, levou uma surra de Quércia em 15 de novembro de 1974:

- “Em 15 de novembro, Orestes Quércia (MDB) conquistou uma vitória consagradora, obtendo 4 milhões e 600 mil votos contra 1 milhão e 600 mil de Carvalho Pinto, da Arena” (Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, da Fundação Getúlio Vargas).

Em janeiro de 75, lancei “As 16 Derrotas Que Abalaram o Brasil”, abrindo com a conversa de Petrônio e Delfim e furando toda a imprensa. Em 7 de fevereiro, Delfim assumia a embaixada do Brasil em Paris, substituindo Lira Tavares, um dos “três patetas” de Ulysses Guimarães.

Dilma
Trinta e cinco anos depois, como Geisel nomeou Paulo Egidio governador e depois João Batista Figueiredo presidente, Lula nomeou Dilma Roussef candidata do PT às eleições presidenciais de 2010.

E, no PSDB, Fernando Henrique quer nomear logo José Serra candidato, só para não disputar prévias com Aécio Neves, que já não ganha nas pesquisas, não ganharia nas prévias e muito menos na eleição.

Ermirio
Durante décadas, o empresário Antonio Ermírio de Morais, dono do monopólio do cimento no País, queixou-se (e com razão) dos bancos e sua gigolotagem social acobertada pelo Banco Central. Escreveram peças para ele, encenadas em nome dele, defendendo teses empresariais contra bancos.

Até que ele fundou o seu. Criou o Banco Votorantim. E logo explodiu na praça. Guloso como os outros, fez do seu tamborete mais um trampolim para ganhar com juros sobre juros. E quebrou. O governo, que ele sempre condenou por entrar no sistema financeiro e no mercado, mandou o Banco do Brasil comprar 49% do Votorantim: 2,4 bilhões.

Nem teve o pudor de dar um tempo para disfarçar. Com os 2,4 bilhões do Banco do Brasil, arranjou mais 2,5 bilhões do BNDES e comprou a Aracruz Celulose por 5 bilhões. O profeta do livre mercado, do governo fora, trocou seu banco bichado por uma empresa verde e limpa.

Itália
A imprensa está cheia de bobos escrevendo baboseiras sobre a Itália e o asilado Battisti. Deviam ler, na “Folha” de quinta, o artigo do jornalista Pedro Del Pichia, correspondente da “Folha” em Roma de 78 a 81.

Discute-se se a luta armada de que ele participou era justa ou errada. A meu ver, erradíssima, porque sem nenhuma chance de vitória. Como também era inviável a luta armada no Brasil, depois do golpe de 1964.

Mas, como a daqui, a de lá foi uma luta política e não pessoal.

Obama
Esse pacote do Obama está parecendo o PAC de Lula. É um PAC, que virou Pec, não entrou no Pique e acaba estourando como um Poc.