quarta-feira, janeiro 16, 2013

Dez anos no poder: projeto político do PT se aproximou do centro


Marcelle Ribeiro e Tatiana Farah 
O Globo

Para especialistas, partido precisa conciliar seus projetos com alianças, pensar em novos líderes e atualizar seu programa

SÃO PAULO — Dez anos depois de assumir o governo federal, o PT tem que melhorar o relacionamento com a base aliada para conciliar seus projetos com a manutenção de alianças políticas, pensar em novos líderes e atualizar seu programa político, segundo cientistas políticos. Para especialistas, as bandeiras do partido foram se tornando mais moderadas ao longo dos anos e isso se acentuou durante as gestões de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff. A militância também mudou na última década: com a profissionalização das campanhas, menos petistas vão voluntariamente às ruas balançar bandeiras. Mas o partido, afirmam especialistas, deve crescer nos próximos anos.

Para o cientista político da Universidade Federal de São Carlos Pedro Floriano Ribeiro, a militância do PT vive uma esquizofrenia, pois no programa da legenda ainda consta que o partido é socialista, apesar de ela já ter abandonado a agenda radical. Por isso, é preciso atualizar seu ideário.

— O partido foi se moderando e isso foi importante para chegar ao governo. Essa moderação só fez se acentuar de 2003 em diante — diz Ribeiro, para quem a moderação dos projetos está ligada à necessidade de conquistar apoio no Congresso.

Na opinião de Ribeiro, o PT evita insistir em bandeiras como abertura de arquivos militares e na reforma agrária para não “constranger” o governo, que é mais sensível nesses temas.

Segundo o professor do departamento de Ciência Política da Unicamp Oswaldo Amaral, no governo, o PT se aproximou mais de tendências de centro.

— O partido se aproximou ainda mais do centro e teve que lidar com as imposições do sistema político brasileiro, como o presidencialismo de coalizão. Esse processo de adaptação à posição de partido governante no âmbito federal não foi simples e deixou marcas profundas. O escândalo do mensalão expôs da pior maneira possível as dificuldades do partido em lidar com essa nova situação — disse Amaral.

Segundo Ribeiro, outro desafio do PT nos próximos anos é renovar as lideranças do partido. Para ele, o PT está se tornando uma legenda “envelhecida”.

— Vários líderes caíram nos escândalos de 2005 e 2006, tanto que o Lula teve que buscar uma “outsider”, a Dilma. Que nomes eles teriam para 2018, considerando uma reeleição de Dilma em 2014? Hoje há pouquíssimos nomes em vista — diz Ribeiro, que é autor do livro "Dos sindicatos ao governo: a organização nacional do PT de 1980 a 2005".

O PT também tem que resolver sobre como manter a unidade e lidar com as rivalidades internas dos integrantes do partido, que variam conforme o desempenho do governo, na opinião do professor do departamento de Ciência Política da Unicamp Oswaldo Amaral.

— Embora isso seja mais fácil hoje do que quando o governo Lula começou, o grau de união dos grupos no interior do partido parece bastante condicionado ao desempenho do governo. Ou seja, uma eventual queda de popularidade da administração Dilma pode acentuar as rivalidades internas — diz Amaral.

Nos últimos dez anos, o PT ficou muito focado na figura do ex-presidente Lula, segundo cientistas políticos. Na opinião de Pedro Ribeiro, isso trouxe ganhos, como o crescimento da legenda em regiões onde Lula tem alta popularidade, como o Nordeste. Mas, por outro lado, o lulismo tem riscos.

— E quando ele não estiver mais aqui? Como o partido vai se virar? — afirma Ribeiro, que disse que surgiu a imagem de que Lula é “intocável” e “inquestionável” dentro do partido.

Nos últimos dez anos, os militantes do PT mudaram, segundo o professor de Ciência Política da PUC-SP Pedro Fassoni Arruda.

— A militância do PT era mais aguerrida, saía às ruas e participava de comícios. Mas não foi uma mudança apenas por causa do PT, mas pela profissionalização das campanhas eleitorais. O petista de carteirinha que saía às ruas com uma camisa vermelha com uma bandeira deu lugar a pessoas são contratadas para fazer isso por R$ 50 ou R$ 80 por dia — afirmou Arruda, que disse as denúncias de corrupção impactaram nos militantes, fazendo com que alguns decidissem deixar o PT.