quarta-feira, janeiro 16, 2013

Menos atrativo


Editorial
Folha de São Paulo

Interferência excessiva do governo e falta de política econômica consistente pesam contra o Brasil nas escolhas de fundos de investimentos

Por causa dos impostos elevados e da maior interferência do governo na economia, grandes fundos estrangeiros passaram a trocar o Brasil por outros emergentes na hora de fazer seus investimentos.

Dados da consultoria norte-americana EPFR, especializada em fluxo de capitais, mostram que, entre os fundos voltados para mercados emergentes, a parcela investida no Brasil caiu de 16,7%, em 2009, para 11,6%, em novembro passado. É o nível mais baixo desde 2005.

Tal padrão se repete em outras categorias de investimentos. No caso de fundos globais de ações, a fatia brasileira é hoje de 1,2%, o menor patamar desde 2008.

Num claro sinal de que a capacidade de atração do país diminui, o Brasil perde espaço até mesmo se considerada apenas a América Latina, com um recuo de quase dez pontos percentuais em relação à média de 2010 e 2011.

O resultado final pode ser medido nos dados do Banco Central relativos ao investimento estrangeiro em carteira (que inclui renda fixa e ações). Nos 12 meses encerrados em novembro último, houve queda de 25% na comparação com o mesmo período de 2011.

Para um país que necessita de investimento externo a fim de financiar não só suas empresas como também o próprio governo, o cenário não é animador.

A redução, é verdade, se explica em parte pela cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) na entrada de capitais, que visa conter aplicações de curto prazo. No caso da renda fixa, o governo aumentou o tributo de 2% para 6% em 2010, o que praticamente zerou as entradas.

Além da tributação específica, porém, há dois fatores mais preocupantes que ajudam a entender a perda de espaço do Brasil.

Um deles é a dificuldade que o país enfrenta para retomar seu crescimento. A média de 1,8% nos últimos dois anos prejudicou a rentabilidade das empresas.

Outro fator negativo é a interferência governamental em vários setores da economia, fomentando um ambiente de incerteza para os investidores. Petróleo, mineração, bancos, siderurgia e energia -que juntos compõem mais de 50% do índice Bovespa- foram alvo de intervenções. 

Para além das medidas pontuais, trata-se, mais uma vez, da incapacidade do governo de formular uma política econômica à altura dos desafios do país. Não por acaso, mais e mais investidores apontam para os riscos da leniência com a inflação e a piora das contas públicas nos últimos anos.

Em contrapartida, de certa forma até paradoxalmente, a entrada de investimento estrangeiro direto permanece alta. Se empresas brasileiras continuam sendo compradas por estrangeiros, então quem pensa no longo prazo ainda tem fé no país. Por quanto tempo?