quarta-feira, junho 25, 2014

Juro baixo em 2013 turbinou inflação atual, dizem analistas. Mas é preciso cuidado com a análise.

Gabriela Valente
O Globo

Até no governo cresce a percepção de que Selic deveria ter subido antes

 BRASÍLIA - Cresce dentro do governo a convicção de que o Banco Central (BC) errou a mão ao testar qual seria o juro neutro do país, ou seja, qual patamar da taxa básica (Selic) teria neutralidade: não alimenta nem combate a inflação. No início de 2012, a autoridade monetária decidiu mostrar ao país que não seria necessário mais usar taxa de juros em níveis muito altos para conter a alta de preços. Em outubro do mesmo ano, o Comitê de Política Monetária do BC (Copom) derrubou a Selic para 7,25% ao ano, a menor da história. Os juros básicos da economia ficaram nesse patamar até abril de 2013.

Segundo técnicos da própria equipe econômica, foi essa estratégia — arquitetada pelo Palácio do Planalto — que criou o atual problema inflacionário do país.

— Todo esse problema que estamos vivendo hoje começou aí. O BC errou na mão. Se o problema fosse apenas o choque de alimentos, a inflação já teria cedido — disse uma fonte do governo.

A opinião não é restrita aos bastidores do governo. É amplamente difundida entre economistas do mercado.
— Não havia condições para a Selic cair para 7,25% ao ano naquela época: a inflação estava muito alta e a política fiscal estava frouxa. Isso só aprofundou os desequilíbrios da economia — argumentou o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa.

Para Rosa, o resultado da política do BC foi o oposto do desejado: encareceu o custo da política de controle dos preços. Segundo ele, agora, é preciso uma carga de juros maior para colocar a inflação na meta. O economista lembrou que o governo precisou tomar medidas para tentar contornar a situação e interferiu diretamente nos preços das tarifas públicas. Assim, criou mais uma distorção econômica.

— E isso tudo nem ajudou a economia a crescer mais.

Já para o economista-chefe da corretora Gradual, André Perfeito, o BC fez certo ao cortar os juros na época. Ele lembrou que a Europa estava à beira do colapso e diminuir o custo do dinheiro era a melhor saída. No entanto, ele ponderou que o Banco Central errou ao demorar tempo demais para reagir e voltar a aumentar a Selic.

— O BC fez o correto porque em 2012 vivíamos num mundo em que todos os manuais foram rasgados e o experimentalismo reinava na política monetária — ressaltou Perfeito, antes de admitir:

— Mas o Banco Central errou ao deixar a taxa muito baixa por muito tempo.

INFLAÇÃO NO TETO DA META
A Selic foi mantida no piso histórico até abril do ano passado, quando o processo de elevação dos juros foi retomado, com alta em todas as reuniões do Copom. Atualmente, a taxa está em 11% ao ano. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado oficialmente no sistema de metas inflação, acumula alta de 6,37% nos últimos 12 meses.

O objetivo do Banco Central é fazer com que essa inflação fique em 4,5%, com uma uma margem de tolerância de dois pontos percentuais. É nesse limite de manobra que está estacionada a inflação desde 2009. Os analistas mais pessimistas preveem que o IPCA, em 12 meses, estoure o teto da meta já neste mês.

Na quinta-feira, o BC atualizará suas projeções quando divulgar o relatório trimestral de inflação, o seu documento mais importante. No mais recente, o prognóstico não era nada bom: o IPCA não chegaria ao centro da meta nem no primeiro trimestre de 2016. Agora, o quadro pode estar um pouco melhor porque os juros estão mais altos que em março e o dólar está mais fraco.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

É preciso cuidado com este tipo de análise. Juro baixo não é nem nunca foi sinônimo de inflação alta. O modelo econômico adotado no Brasil ainda carece de reformas micro para afastar de vez o fantasma da inflação e, deste modo, permitir que os juros sejam reduzidos gradualmente.

Em primeiro lugar, o governo, sem observar as reformas necessárias, tentou baixar os juros no grito. Não criou o ambiente propício para convivermos com inflação e juros baixos. Há muita indexação na economia, a começar pelo próprio salário mínimo, cuja lei de reajuste foi criada no governo Lula em acordo com as centrais sindicais. 

Também o governo Dilma tem lá sua parcela de culpa por poupar pouco, gastar muito além do que arrecada, além de incentivar e manter aquecido o mercado de consumo num tempo de oferta reduzida.  Se isto não bastasse, jamais os governos petistas deram atenção à uma política industrial que favorecesse não apenas novos investimentos produtivos, mas que também ampliasse a produtividade no chão da fábrica - um dos muitos gargalos -, além de desonerar a produção em toda a sua escala. Apenas alguns setores, mesmo que de forma tímida, tiveram desonerações pontuais, o que se mostrou insuficiente para reativar a toda a indústria.

 E a última derrapada do governo atual foi ter represado as tarifas públicas como transporte, combustíveis e energia elétrica, gerando uma expectativa de inflação, o que faz com que os preços sejam majorados justamente tendo em mente esta expectativa.  

No fundo, o governo Dilma fez uma aposta em baixar os juros abruptamente e sem que tivesse criado as condições sustentáveis para que eles se mantivesse em níveis baixos. Apostou e perdeu. E o que é pior: joga uma bomba relógio no colo do futuro presidente, seja ele quem for, que será difícil de desarmar além de desarranjar tanto o próprio equilíbrio fiscal do poder público, como  saúde financeiras das empresas, principalmente as estatais como Eletrobrás e Petrobrás.