sábado, dezembro 11, 2010

Uma herança ruim prá danar

Adelson Elias Vasconcellos

Não sigo a manada. Creio ter independência e informações suficientes para ter minhas teses, ideias e opiniões. Sendo assim, ao contrário do que a maioria afirma, digo que a herança que o governo Lula deixará para sua sucessora, dada as condições que desfrutou para governar e fazer o melhor em oito anos, não poderia ser pior do que será. Na terça feira, 07, abordamos aqui algumas verdades sobre a herança de Lula e que contrastam, inteiramente, com a qualificação de “bendita” que, tanto Lula quanto Dilma, lhe tem apregoado.

Vimos o desastre sacramentado na educação brasileira, com o resultado final do exame de avaliação internacional, PISA, para estudantes do ensino médio, em que nos colocamos na desconfortável e humilhante colocação nº 53, dentre 65 países avaliados. Em outros artigos publicados nesta semana, não apenas este desastre se comprova ainda mais, como também ficam claras as muitas carências de que padecemos, e os enormes desafios a enfrentar se, de fato, desejamos ingressar, a médio prazo, no seleto rol das nações mais desenvolvidas do planeta. Já disse que a questão da educação brasileira ser a droga que é, não se deve a falta de recursos. Falta-nos melhor gestão, planejamento e comprometimento de todo o país para considerar a educação como prioridade máxima para nosso pleno desenvolvimento. Não se pode tentar aplicar o engodo de que, num país em que mais de 70% de sua população é analfabeta funcional, em que a avaliação internacional, já por vários anos, nos situa na rabeira da comunidade internacional, vá se tornar uma potência mundial apenas porque possui frota aérea moderna, submarinos nucleares, trem bala, usinas de energia nuclear, e outros desvarios e fantasias brotadas nas cabeças toscas de governantes cretinos. Tudo isto é puro lixo diante de um povo brasileiro com as carências sociais e atraso educacional como é a nossa triste realidade atual.

Não há outra receita ou caminho a seguir: ou educamos de forma plena o povo brasileiro, ou navegaremos nas águas obscuras do subdesenvolvimento. Que fique a lição: a China está se tornando uma potência mundial de primeira, não pelo seu vertiginoso crescimento econômico. Este é decorrente da excelência com que a educação de seu povo é encarado por toda a sociedade. Neste rumo, anos antes, a Coreía do Sul também logrou uma vitória exemplar. Não por outra razão, a China obeve o primeiro lugar na mesma avaliação que nos deixa na divisão de descenso.

Mas disto já tínhamos conhecimento. O surpreendente é sabermos que, após oito anos de Bolsa Família, cantada em prosa e verso como a galinha dos ovos de ouro de uma revolução social, 40% de seus beneficiários ainda moram na situação de miseráveis. E onde ficaram, então, aqueles quase trinta milhões de brasileiros que, segundo o governo atual, migraram para a “nova classe média”? Bem, já explicamos o truque. A mudança não se deu na qualidade de vida de tantos milhões, apenas que se manipulou, de forma vigarista, e para baixo, os diversos degraus de renda. Assim ficou fácil enganar a tantos. O Bolsa Família, da forma como o governo o conduz, não passa de uma formidável bolsa caça votos com a “virtude’ de perenizar a pobreza da maioria de seus beneficiários.

Outra surpresa desagradável: os tributos incidentes sobre energia elétrica duplicaram sob a era Lula.

E, nesta semana, 24 horas após o ministro da Fazenda, Guido Mantega, reconhecer a necessidade cortar gastos e até investimentos, Lula, a exemplo do que já fizera no início do ano, veio desmentir, publicamente, seu Ministro. Afirmou que, para o PAC, não há de faltar um tostão. Bem, no ritmo que o PAC em termos de realização física tem andado desde sua “invenção”, vai ser difícil realizar tudo no tempo que Lula imagina. Quanto a faltar tostão, viu-se ontem, que, apesar de sequer ter atingido 40% de realização física, o governo já realizou em torno de 85% do dispêndio financeiro. Ou seja, já pagou por obras que sequer saíram do papel ou da intenção. O nome disso é vigarice. Não há nada melhor.

Mas, fossem apenas estes os desastres de um governo mentiroso com oito anos de mistificação, a gente ainda poderia encontrar motivos para festejar o outro lado da herança: a economia que, segundo se diz, vai bem obrigado.

Uma ova que vai. Vejam estas manchetes de ontem, apenas:
  • Lenta, desindustrialização já atinge produção e emprego;
  • inflação oficial tem maior alta mensal em mais de 5 anos,
  • poupança tem o pior desempenho em 7 anos,
  • FGTS tem pior rendimento pelo segundo ano seguido e, 2010, terá o menor rendimento desde que o fundo foi criado, em 1966.
Déficit em transações correntes? Recorde histórico: 50 bilhões de dólares. Nada disso tem origem em governos anteriores a Lula: é obra sua, exclusivamente sua. Assumiu com os juros mais altos do planeta, e entrega o governo com os juros mais altos do planeta. Sabemos o quanto o ambiente de negócios no Brasil é hostil. Muito embora haja quem torça o nariz para o fato, o certo é que, como noticiamos aqui,  Philips, Marcolo, Novelis, Vulcabrás/Azaléia e, agora, a fabricante de calçados femininos Schmidt Irmãos, tradicional indústria de Campo Bom/RS, estão tomando o caminho de saírem do país para continuarem sobrevivendo. Afora estas, outras empresas estão mudando seu foco de “fabricantes” para distribuidoras: preferem comprar lá fora o produto pronto, e apenas o distribuírem no mercado interno. Pena que não se tenha uma estatística confiável, mas, certamente, a percepção é de que uma dezena de empresas brasileiras tenham sido adquiridas por multinacionais nos últimos cinco anos, confirmando a tese da desnacionalização. Neste sentido, destaca-se o ramo sucroalcooleiro, em razão do álcool combustível, ou etanol como queiram.

A dívida interna mais do que dobrou neste período – superou a marca de 1,7 bilhões de reais e, a externa, apesar do discurso, ronda a casa dos 230 bilhões de dólares. O leitor dirá: "mas o governo não disse que pagou a divida externa?" Pois é, leitor, como é comum e rotineiro no governo Lula, a mentira tem um enorme peso  e foi disso que se viveu até hoje: na doce e infeliz ilusão de que tudo vai bem.

O superávit primário, a economia para pagamento da dívida, apesar dos malabarismos, não consegue cobrir o valor anual pago para o serviço ou sua rolagem . Resultado: o governo precisa aumentar a dívida, com novos financiamentos, só para quitar os juros anuais.

Juntem tudo isto com um país com a saúde pública na UTI, com metade do país sem saneamento básico, com indicadores educacionais e sociais abaixo da crítica, e vocês terão um Brasil colocado na rabeira do ranking das nações com melhor índice de desenvolvimento humano. Já nem vou falar da carga tributária, do sucateamento da infraestrutura, da insegurança jurídica derivada de uma burocracia asfixiante para as atividades produtivas, e convenhamos: o que há de "bendita" nesta herança para assim ser classificada? A estabilidade econômica? Ora, isto não é obra do senhor Lula, todas as reformas necessárias para consolidação desta conquista, ela as encontrou prontas, muito embora, na oposição, ele e seu partido tenham sido contrários a tudo o que foi feito em benefício do país.

Portanto, temos acima uma pálida ideia do governo real que Lula deixará para Dilma Rousseff. Querem um último exemplo da mistificação encenada por Lula de que ele descobriu o Brasil? Pois bem, Lula, por certo, tentará comparar de forma vigarista, como é de hábito, a média de crescimento de seus oito anos com os de FHC. Claro que esconderá que o mundo, ao tempo de seu antecessor, cresceu na média anual de 1,8%. Com Lula, o mundo prosperou na média anual acima de 7 %. Ou seja, as condições para o Brasil , sob o governo Lula ter prosperado imensamente, foram excelentes. Sem crises, com a economia arrumada, com as reformas principais já implementadas, Lula tivesse mantido apenas a média mundial de crescimento aqui dentro, e o país teria crescido o dobro. Vejam:

* Média anual FHC: 2,28% - Média Mundial: 1,8%
* Média anual Lula: 4,00% - Média Mundial: 7,00%

Mas tem mais: no grupo dos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), atuais motores do crescimento mundial, o país é o último da fila. A média do crescimento chinês, por exemplo, foi de 10,95% nos últimos oito anos, enquanto a do indiano foi de 8,2%. Até mesmo a Rússia, cujo Produto Interno Bruto (PIB) despencou 7,9% por causa da crise mundial em 2009, teve média melhor: 4,8%. O Brasil também ficou abaixo da média da América Latina no período: 4,64%, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), que já tem projeções para 2010.

Considerando as estimativas do FMI, entre 2003 e 2010, o Brasil fica à frente apenas do México, que cresceu 2,1% nesse período, se consideradas as principais economias da América Latina. O país empata com Chile e Paraguai, que também fecharão o período 2003-2010 com crescimento médio de 4%. A Argentina, por exemplo, registrará taxa de 7,4%; o Peru, de 6,4%; e a Venezuela, de 4,6%.

E se Dilma não tomar atenção e agir com rapidez, o problema da desindustrialização e desnacionalização tende a se agravar ainda mais, e ainda estamos próximos de produzir déficits, também, na balança comercial.

Como se disse aqui, um governo deve ser visto pelo ângulo dos resultados que obtém, e não pelos discursos e manipulação da verdade. Sendo assim, e dadas as análises dos resultados sociais, educacionais e econômicos, dá para se dizer que o governo Lula, juntados primeiro e segundo mandatos, foi um pouco além do medíocre. Nada além disso. Não há, como se vê, nada para se comemorar. E olhem que não falei do descalabro da segurança pública, do trânsito caótico, de política externa, da fragmentação institucional do país, e outras miudezas mais, como a percepção de 67,0% da população para o aumento da corrupção...

Se há uma herança ruim prá danar, é a que Lula deixará para sua sucessora que, na campanha pregava um “seguir mudando”. Os fatos estão aí, mesmo que de forma resumida, mas incontestáveis. E, creio até, que a maioria das pessoas tenha consciência deles, mesmo que não alcancem o conjunto completo da obra. Acho que há muito mais para mudar do que prá continuar. Do contrário, Tiririca ficará desmoralizado: com PT no poder, sempre dá para ficar pior do que já está.