Carolina Benevides e Dandara Tinoco, O Globo
" Se Juca fica ou não fica é um problema menor "
" O ministério cumpriu o seu papel com o Gil e o Juca. Agora é momento de se ter um pensamento diferenciado, de dar um salto para construir uma indústria criativa do século 21 "
RIO - Após o lobby de artistas que se reuniram no Rio e em São Paulo para manifestar apoio à permanência do ministro Juca Ferreira à frente do Ministério da Cultura (Minc), o produtor cinematográfico Luiz Carlos Barreto afirmou que, na área em que atua, há "95% de descontentamento com as políticas que são executadas pelo ministério". Segundo ele, iniciativas que partem dos artistas são recusadas.
- Se Juca fica ou não fica é um problema menor. O que é preciso é mudar a concepção de política cultural, é preciso conciliar o Brasil arcaico com o moderno. Defendo um ministro antenado com a convergência tecnológica do século 21, que crie políticas diferenciadas para, por exemplo, artesanato e as que são ligadas ao processos industriais. Já estamos perdendo 10 anos do século 21, o ministério tem um modelo dos séculos 19 e 20 - defendeu Luiz Carlos Barreto, que nesta quinta-feira publicou artigo no jornal "Folha de S. Paulo" afirmando que a mobilização em torno de Juca é uma "pressão injustificável" e que a discussão em torno da sucessão do ministro se tornou uma campanha eleitoral.
O produtor afirmou ainda que o movimento pela permanência de Juca Ferreira foi um "apoio orquestrado".
Artistas que participaram das manifestações a favor do ministro reagiram. A cantora Fernanda Abreu, uma das organizadoras de um almoço no Rio , criticou o artigo do produtor, classificando-o de "leviano":
- Barretão foi leviano ao dizer que a manifestação é artificial. Ninguém foi forçado a ir ao almoço. O movimento avalia que a gestão do Juca e do Gilberto Gil (ex-ministro do governo Lula) colocou o ministério num outro patamar. Não estamos declarando apoio geral e irrestrito, não concordamos com tudo o que foi feito, mas gostaríamos de proteger o ministério da cota de política partidária - disse.
Para o ator Marco Nanini, a saída de Juca pode comprometer a continuidade de medidas que vêm sendo adotadas pelo ministério:
- O meu medo é que, nessa divisão política, o ministério seja prejudicado, que o trabalho que vem sendo feito e pode render frutos acabe. O Vale-Cultura, por exemplo, é democrático e precisa ter continuidade. Tenho medo que o ministério sirva para barganha política.
O diretor de teatro Aderbal Freire Filho também saiu em defesa de Juca. Ele negou, no entanto, que exista uma pressão para que o ministro permaneça no cargo.
- Sou inteiramente a favor da continuidade. O ministério era desprezado e desarticulado. E desde o Gil, começou a existir de fato. Não acho que existe pressão, o que existe é a defesa de um projeto. Mesmo quem discorda do ministério devia apoiá-lo, por ser aberto a discussões - disse.
Para o produtor de teatro Eduardo Barata, o movimento é espontâneo:
- As manifestações não são orquestradas, as pessoas que se manifestaram não estão ligadas a um partido, não têm tradição de partido.
Já a produtora Mariza Leão se manifestou a favor de Barretão:
- O ministério cumpriu o seu papel com o Gil e o Juca. Agora é momento de se ter um pensamento diferenciado, de dar um salto para construir uma indústria criativa do século 21, dentro de um modelo mais ambicioso. A discussão de quem fica ou quem sai não me interessa. O Juca é correto e honesto, mas acho que sempre quem está à frente do cargo há um tempo tem o momento de sair.