sábado, dezembro 11, 2010

Corte de despesas, imprensa e política externa : para não dizerem que não falei de flores

Bolívar Lamounier, Exame.com

No momento o Brasil tem dois presidentes – Lula saindo e Dilma entrando. Ministros eu não sei ao certo quantos são, suponho que uns 50, contando os 37 do governo Lula e alguns novos que vão integrar o governo Dilma.

Com tanta gente sondando, auscultando, dando palpite e decidindo, não dá para imaginar que todos vão cantar no mesmo tom. Alguma desafinação vai haver.

Mas ouvir Mantega e Lula desafinando num assunto tão sério como o ajuste fiscal, convenhamos que é estranho. Na apresentação da nova equipe econômica, ao lado de Miriam Belchior (Planejamento) e Alexandre Tombini (Banco Central), Mantega foi enfático. Disse que o ajuste seria feito e que haveria um corte substancial de despesas.

Aos ouvidos do mercado e dos mortais comuns que pagam impostos, isso soou como música. No governo Lula, a gastança aumentou que foi uma grandeza e o ajuste foi feito pelo lado da arrecadação.

E há muita coisa em jogo. Quando Lula chegar a São Bernardo e girar a chave na porta de sua casa, sua visão do Brasil como “uma ilha de tranqüilidade num mundo em turbulência” (qualquer semelhança com o slogan do general Geisel não é mera coincidência) já deverá estar a caminho de algum arquivo.

A economia mundial ainda parece longe de se recuperar da crise de 2008. A americana cambaleia. Mais dia, menos dia, a estagnação global irá forçando a China a reduzir seu crescimento, complicando o saldo comercial brasileiro.

Ao mesmo tempo, o aquecimento excessivo da economia brasileira e o real super-valorizado provocam forte aumento nas importações. Moral da história, é preciso desaquecer e desvalorizar. Um ajuste fiscal corajoso e bem feito serve para as duas coisas.

Foi por isso que a ária solfejada dias atrás por Mantega, Belchior e Tombini foi recebida com aplausos pelos mercados. Mantega disse que vai cortar, cortar e cortar. Inclusive no PAC.

Mas hoje no Rio o presidente Lula, com sua conhecida sutileza, disse para cortar onde quiser, desde que não seja no PAC . Quer cortar, corte no custeio, investimento não.

Devemos então entender que Lula está dizendo para cortar na máquina – inclusive ou principalmente nos gastos com o funcionalismo ? Não vou dizer que não acredito, direi apenas “a conferir”.

E com os russos – ou seja, com os partidos da base, a começar pelo PT e pelo PMDB – Lula e Dilma já terão combinado alguma coisa ? Essas gloriosas legendas, como sabemos, podem ser acusados de qualquer coisa, menos de austeridade fiscal.

Outro fato avaliado de maneira positiva foi a indicação de Helena Chagas para a Secretaria Especial de Comunicação, em substituição a Franklin Martins. Afinal, a escolhida, ela mesma jornalista, é filha de Carlos Chagas, um dos jornalistas mais respeitados e liberais do país; presume-se, pois, que sua conduta como secretária será orientada por valores semelhantes aos do pai.

Mas a troca em si parece alvissareira. Significa que a questão do novo marco regulatório para a mídia será tocada pelo Ministro das Comunicações e oxalá bem longe de certos conceitos restritivos a que o ministro Martins vinha dando guarida.

Um terceiro fato auspicioso foi a declaração de Dilma Rousseff sobre o Irã em sua recente entrevista ao Washington Post. Respondendo a uma questão sobre direitos humanos, Dilma criticou de maneira taxativa a posição do governo Lula em dois pontos importantes.

Primeiro, manifestou inconformidade com a situação de Sakineh, a iraniana condenada à morte por adultério, que aguarda a execução por apedrejamento. Segundo, discordou da posição adotada pelo Brasil na ONU, abstendo-se de condenar a conduta do governo do Irã em relação aos direitos humanos.

Não se conhece ainda o pensamento de Dilma a respeito do programa nuclear iraniano, mas no que toca aos direitos humanos ela já marcou uma distância considerável, e irreversível, em relação ao governo Lula. Dir-se-á que é apenas um primeiro passo. De fato, é um apenas primeiro passo, mas é importante.

Se a presidente quer de fato reorientar a nossa política externa, terá claras oportunidades de o fazer em conexão com Cuba. O tratamento dispensado pelo Irã a Sakineh é chocante, mas o que a ditadura cubana tem proporcionado a seus prisioneiros políticos não fica muito longe. Praticamente no mesmo dia em que Lula visitou a ilha, no começo deste ano, um deles morreu após 85 dias em greve de fome.

No caso cubano, a oportunidade brasileira transcende a questão dos direitos humanos. Tem a ver com o equacionamento de um futuro próspero, pacífico e democrático para o país no pós-socialismo.

Mais que notório, agora é público e oficial que o regime dos irmãos Castro chegou ao completo colapso econômico. Raúl Castro e o próprio Partido Comunista não só o admitem sem rodeios como preparam um mega-ajuste fiscal para os próximos meses.

Deste assunto e da política externa, de modo abrangente, Dilma ainda não tratou, e nem caberia esperar que o tivesse feito , mas sua entrevista ao Washington Post foi alvissareira.

Com assessores mais sensatos e livre de certas peias ideológicas de que Lula não quis ou não soube se livrar, ela poderá melhorar sensivelmente o desempenho brasileiro no plano internacional.