Leandro Modé, de O Estado de São Paulo
Segundo Monica de Bolle, economista da Galanto Consultoria, demanda no País ainda avança em ritmo chinês, o que aumenta rombo externo e eleva a inflação
SÃO PAULO - A economista Monica de Bolle, sócia da Galanto Consultoria, não tem dúvidas: o fraco desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre é enganoso e esconde um "acúmulo preocupante de desequilíbrios". "A absorção interna (soma do consumo com gastos do governo e investimentos) continua crescendo a taxas chinesas", disse ela ao Estado.
A economia desacelerou no 3º trimestre. O que isso significa?
Essa desacelerada é enganosa. Quando você destrincha o PIB e separa o lado da oferta do lado da demanda, é possível ver claramente que a absorção interna (soma do consumo com gastos do governo e investimentos) continua crescendo a taxas chinesas. A demanda doméstica cresce acima de 12% em termos anualizados. O que compensou esse crescimento foi o aumento das importações. É clara evidência de que há descompasso entre a demanda interna e a capacidade de oferta da economia brasileira, que está vazando para o setor externo. O PIB do terceiro trimestre, por ter sido baixo na margem, esconde um acúmulo preocupante de desequilíbrios.
Quais desequilíbrios?
O principal é o descolamento da demanda interna da oferta, que deteriora as contas externas. Além disso, provoca bastante pressão inflacionária. Temos visto nos últimos meses uma aceleração da inflação, que só em parte é explicada pelo choque dos alimentos. A parte de serviços, por exemplo, tem vindo muito forte.
Como faz para reequilibrar?
Receituário macroeconômico básico. De um lado, ajuste fiscal – nos últimos seis meses, as despesas do governo têm crescido a taxas superiores a 11% em termos reais. De outro, aperto monetário. É inevitável um novo ciclo de alta da Selic.
O pacote do BC para frear o crédito altera as projeções de aperto monetário?
É muito difícil medir. Essas medidas são muito bem-vindas, pois havia excessos no mercado de crédito que poderiam causar problemas à frente, mas as estimativas sobre o que pode ocorrer são muito arbitrárias e com margem de erro muito alto. Diante disso, embora as medidas provoquem algum aperto de liquidez, precisam ser complementadas por política monetária convencional. Isso significa aumento de Selic.
O seu cenário para 2011 considera o cumprimento do superávit primário de 3,1% do PIB? Nesse caso, como fica a Selic?
Não consigo mais construir cenário com superávit primário. Considero nos meus cenários o crescimento das despesas. Hoje, tomo por base o retorno do crescimento das despesas para o ritmo da média do governo Lula (7% ao ano em termos reais, um ritmo alto). Hoje, está em 11%. Esse ajuste de 4 pontos porcentuais é o mínimo que o governo deveria fazer. Supondo isso e um quadro externo um pouco melhor, se mantiver a Selic em 10,75%, a inflação ficará entre 5,5% e 6%. Para complementar o lado fiscal com medidas de aperto monetário, a taxa de juros precisa ir ao menos para 12,50%, 12,75% ao ano.
Com isso, a inflação voltaria para o centro da meta?
Sim, mas não necessariamente no fim do ano que vem.
As importações cresceram fortemente. Já está em curso alguma desindustrialização no País?
Não. Essa é uma visão um pouco exagerada do processo que vivemos. Hoje, temos crescimento da demanda forte demais e os preços internacionais ainda estão favoráveis, pois as empresas que vendem seus produtos internacionalmente estão com pouco poder de elevar preços. Por isso, temos importado muito, nos beneficiando do quadro global de economia combalida. É algo conjuntural. Quando pensamos em desindustrialização, estamos falando de algo mais estrutural.
Quanto o Brasil cresce em 2011?
Estou com projeção um pouco inferior à média, 3,5%.
Por quê?
Se o BC fizer o aperto que tem de fazer e o governo fizer os ajustes necessários, haverá o seguinte: em 2010, teremos crescido muito acima do potencial, que é algo entre 4,5% e 5%. Em 2011, vamos compensar um pouco esse efeito. Em 2012, se o governo colocar ordem macroeconômica na casa, convergiríamos de volta para o potencial.
Mas o crescimento deste ano não foi alcançado porque em 2009 houve retração?
Sem dúvida, parte é explicada pela recuperação da crise. Mas acho que fomos um pouco além. Não precisávamos ter mantido certas políticas de estímulo que mantivemos.