Sílvio Guedes Crespo, Estadão.com
Quem estuda no Brasil e é capaz de ler estas linhas pode dizer que o problema da educação acomete “o povo brasileiro” – ou seja, “os outros”. Mas não é preciso ser altruísta para ficar indignado com a qualidade do ensino. Nesse assunto, o “povo” inclui, no mínimo, a classe média.
Com base em dados do Pisa (sigla em inglês para Programa para Avaliação Internacional dos Estudantes), a revista britânica “The Economist”, em reportagem até elogiosoa sobre a evolução da educação no País, sintetiza sua opinião em uma frase: “Até as escolas privadas são medíocres [no Brasil]”.
“Os alunos dessas escolas vêm dos lares mais abastados de todos, mas elas despejam garotos de 15 anos que não conseguem fazer mais do que a média das crianças da OCDE”, afirma a revista. A OCDE, Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, é um grupo de 30 países, a maioria deles ricos.
Em resumo: os alunos das famílias mais ricas do Brasil estão, evidentemente, em melhor situação do que os pobres, mas se igualam aos estudantes medianos dos países desenvolvidos.
Com o título “Não mais o último da classe”, o texto da “Economist” mostra que o Brasil teve melhoras significativas nessa área. O País se tornou objeto de um estudo de caso da Pisa chamado “Lições encorajadoras retiradas de um amplo sistema federal”.
A revista atribui essa evolução a medidas tomadas pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e ampliadas pelo atual chefe de governo, Luiz Inácio Lula da Silva. Entre elas estão o piso para gastos das escolas por aluno e para salário de professores, o que “fez uma enorme diferença” em regiões mais pobres.
Os elogios da revista, que fique claro, não são sobre o estado atual da educação no País, mas sobre o avanço nos últimos dez anos. O Brasil “passou do ‘desastroso’ para o ‘muito ruim’”, afirma o semanário.
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“The Guardian” destaca a necessidade de uma reforma da educação no Brasil
Instituto Millenium
Sem uma reforma completa da educação, o milagre do desenvolvimento econômico e a redução da pobreza estão em risco. É o que afirma o artigo “Can Brazil learn from its success?” (‘O Brasil pode aprender com seu sucesso?’) de Siân Herbert, no jornal inglês “The Guardian”, em 27 de setembro. A autora comenta que nenhum dos candidatos à presidência adotou como bandeira uma reforma da educação. Ela elogia os avanços obtidos na àrea social nos últimos anos, mas destaca que o aumento da frequência escolar não foi acompanhado por um aumento também da qualidade do ensino: “A educação é desvalorizada na sociedade brasileira e raramente aparece nos debates na esfera pública ou privada”, diz Herbert. “Lula frequentemente tem usado sua própria falta de educação formal como um instrumento retórico para minar seus adversários políticos, as elites dominantes. De acordo com dados recentes do Relatório de Desenvolvimento Humano para a América Latina e o Caribe do PNUD, 10 dos 15 países mais desiguais do mundo estão localizados na América Latina. A falta de sistemas de educação estão no cerne deste problema. Não é coincidência que o Brasil é o 10º país mais desigual do mundo.”