Adelson Elias Vasconcellos
Há uma forte corrente de artistas fazendo lobby pela permanência do senhor Juca Ferreira como Ministro da Cultura. De antemão, me posiciono totalmente contra. Pelo tempo que este senhor já é ministro, não há desculpas para as falhas graves por ele cometidas.
Antes de apontar estas falhas, me permitam algumas rápidas colocações. A tarefa principal de qualquer ministro encarregado pela cultura de um país, pelo menos sendo este um país sério, é a preservação da memória cultural nacional. Principalmente aquela ligada às raízes de um povo, que forjaram e ajudaram a moldar sua identidade como sociedade indivisível. Assim, não apenas as obras devem ser preservadas e conservadas além de divulgadas para o conhecimento de novas gerações, como ainda seus autores, sejam músicos ou poetas, escritores ou compositores, artistas plásticos dos mais diferentes gêneros, artistas cênicos e todo o corpo de coadjuvantes que ajudam e dão forma às obras como coreógrafos, dançarinos, iluminadores, diretores de arte, etc. Mas os grandes criadores que externam um sonho, uma fantasia, eternizando a passagem de sua geração pela existência física, estes, em especial, devem ter sua memória revivida em tempo quase integral.
Uma das formas de se cultivar a lembrança destes monumentos criadores, por exemplo, é sempre preparar-se intensas comemorações pelo centenário de nascimento. É o momento adequado para se prestar justo tributo a estes modeladores da identidade de um povo, difundin ainda mais as suas obras, recordando suas vidas dedicadas às artes, irradiando às novas gerações as verdadeiras raízes de sua formação.
Neste sentido, é indesculpável para um Ministro da Cultura, com plena consciência de sua função maior, deixar passar em branco, a exemplo do senhor Juca Ferreira, os centenários de figuras que, neste ano de 2010, completariam cem anos de vida, se vivos fossem. Reparem nesta pequena lista, elaborada pela Maria Helena R. R. de Souza, nada menos do que a filha de Adoniran Barbosa, um verdadeiro timaço fora de série:
• Claudionor Cruz - 1º/4;
• Jorge Veiga -14/4;
• Custodio Mesquita - 25/4;
• Vadico - 24/6;
• Luiz Barbosa - 7/7;
• Haroldo Lobo - 22/7;
• Adoniran Barbosa - 6/8;
• Nássara - 11/11, e
• Noel Rosa 11/12.
É um ultraje. Não há desculpa para tamanho esquecimento, tamanha ingratidão com qualquer um dos grandes artistas que foram as grandes figuras acima.
É tratar a arte musical brasileira, tão brasileiramente esculpida por eles, com menos caso. Um ministro da Cultura que, num país sério, cometessem tamanho deslize, sequer teria oportunidade para uma segunda oportunidade, quanto mais para ser reconduzido ao mesmo cargo no qual se mostrou tão inepto e incompetente.
O senhor Juca Ferreira até pode ser boa pessoa, ter boas intenções de fazer um trabalho bem feito. Mas isso só não basta. Quando teve a preciosa chance de demonstrar seu apreço para com os grandes nomes que engrandeceram com suas maravilhosas obras e participações a cultura nacional, falhou miseravelmente. E isto é imperdoável.
O senhor Juca Ferreira já havia aprontado uma palhaçada que também marcou de forma incompetente, para se dizer o mínimo, sua passagem pelo Ministério, quando da escolha do filme brasileiro para representar o país na escolha de melhor filme estrangeiro no Oscar de 2011. Criou no site do Ministério uma enquete para que o povo escolhesse de uma relação, qual deveria representar o Brasil. E, muito embora "Nosso Lar", lograsse 70% da escolha popular, a turma da “curtura” resolveu escolher o filme sobre Lula que, na enquete, ficara apenas em um sexto lugar. Babação de ovo? Sem dúvida. Sequer o filme teve sucesso de público e crítica e, a rigor, como produção cinematográfica, é um filme bastante pobre, ao contrário, por exemplo, de "Nosso Lar".
Esse Zé-faz-nada tem sido, até aqui, bastante competente apenas para puxar o saco do presidente de plantão e "facilitar" alguns patrocínios para a turma que agora o apoia. Contudo, a cultura brasileira é patrimônio do povo, e não de seu presidente ou de seus ministros. Assim, merece um pouco mais de respeito.
Portanto, creio que os artistas, que engrossam fileira em favor do senhor Juca Ferreira, deveriam vir à público tentar justificar a razão de que sua escolha em favor do atual ministro, tenha maior peso do que os motivos comprovados pelos quais este senhor não tem a menor competência e aptidão para cargo tão importante. Certo mesmo é sua intransigente omissão em relação a herança deixada por artistas que dedicaram suas vidas para enriquecer a identidade nacional com obras de reconhecida expressão cultural.
Creio que um país em que a Educação já é tão maltratada e que, ao contrário do discurso de nossos governantes, tem sido relegada a uma posição de menor destaque, colocar à frente do Ministério da Cultura alguém que sequer é capaz de respeitar, resgatar e manter viva a memória de nossos monstros sagrados das artes, é uma ofensa que podemos e precisamos evitar. Que o senhor Juca Ferreira vá se dedicar a outros afazeres e deixe o espaço que ocupa livre para alguém com maior apreço e comprometimento com a cultura brasileira.