Editorial Jornal do Brasil
O país inteiro aguardou o pronunciamento do presidente Lula sobre a tragédia do vôo 3054 em Congonhas. Quando este foi exibido, descobriu mais uma vez que havia esperado demais de um líder que tem medo de comandar. A reação tardia, três dias depois do acidente, não foi sublimada por ações que a justificassem. O chá de sumiço foi só a estratégia oportuna para impedir que a revolta nacional fosse, de novo, colada à figura presidencial. Como se isso já não estivesse acontecendo: o novo colapso aéreo de ontem, agora no Cindacta IV, três horas depois do pronunciamento, responde ao presidente e a um país apavorado.
Bem orientado, Lula falou com emoção, tentando tocar o coração dos enlutados pela dor. Foi mais respeitoso que seu assessor direto, flagrado festejando de forma obscena as revelações sobre os defeitos na aeronave que a empresa aérea manteria ocultos se a imprensa não os descobrisse. Menos que as vidas ou cobrar responsabilidade à companhia, falou mais alto a salvação política.
O novo apagão tornou o recado teatral do Planalto ridículo diante das demandas que se propunha resolver e não o faz. Deixou de aplacar o sentimento de indignação alimentado pelas omissões que conduziram a mais uma tragédia e por revelações cujo contorno parece emoldurar a negligência quase criminosa.
Para a população brasileira, o governo simplesmente não agiu. E não age. Lula quis transparecer o sentimento de pesar que não resiste à comparação com as decisões que anunciou. Afinal, para quem vai voar hoje, sejam passageiros ou pilotos, a situação é rigorosamente a mesma que culminou em 188 mortes. Ou até pior, como se viu no grau de risco que envolveu a pane em Manaus. O pesar presidencial faz parte da maquiagem.
A reorganização do tráfego aéreo em Congonhas e em outros pontos saturados deveria ter saído há muito tempo. Mas as empresas sempre dominaram essas discussões. O resultado do veto ainda está fumegante.
O maior desastre aéreo da aviação brasileira equilibrou o contencioso. As empresas perderam, mas nem por isso deixaram de ganhar algo essencial em um setor que trabalha sete dias por semana, 24 horas por dia: tempo. Serão mais dois meses, além de todos os prazos, dias e horas que o presidente já exigira desde o início do apagão aéreo. E no qual a única mudança no céu está nas almas que ali aguardam por uma explicação que não virá tão cedo.
Da mesma forma, anunciar a construção de um novo aeroporto em São Paulo foi outra medida para empurrar a crise de emergência para um tratamento à base de homeopatia. Como governar é contrariar interesses, a melhor forma de evitar isso é dissimular a falta de vontade em meio às brumas vagas dos projetos de longo prazo. Como medida de ação, ante à gravidade da hora, o anúncio do pacote foi o benchmark de um mórbido marketing oportunista. Deu a um governo omisso no assunto um caráter proativo que jamais demonstrou. Os funerais em Porto Alegre tornaram a manobra inócua e expuseram seu caráter desrespeitoso.
O discurso presidencial também foi alvo de fogo amigo. Ver o presidente da inepta Agência Nacional de Aviação Civil sorrindo, ao ser agraciado pelo comandante da Aeronáutica com a medalha do Mérito Santos Dumont, foi como matar novamente as 188 pessoas a bordo do Airbus.
O semblante orgulhoso dos homenageados diante da dor de tantas famílias conspurcou o valor do prêmio e de quem o concede, já que a honraria é pregada no peito de brasileiros que prestam serviços relevantes à aviação. Nesse caso, deve ter sido outorgada pela tenacidade da Anac em bloquear as mudanças em Congonhas que poderiam ter evitado o horror.
O país inteiro aguardou o pronunciamento do presidente Lula sobre a tragédia do vôo 3054 em Congonhas. Quando este foi exibido, descobriu mais uma vez que havia esperado demais de um líder que tem medo de comandar. A reação tardia, três dias depois do acidente, não foi sublimada por ações que a justificassem. O chá de sumiço foi só a estratégia oportuna para impedir que a revolta nacional fosse, de novo, colada à figura presidencial. Como se isso já não estivesse acontecendo: o novo colapso aéreo de ontem, agora no Cindacta IV, três horas depois do pronunciamento, responde ao presidente e a um país apavorado.
Bem orientado, Lula falou com emoção, tentando tocar o coração dos enlutados pela dor. Foi mais respeitoso que seu assessor direto, flagrado festejando de forma obscena as revelações sobre os defeitos na aeronave que a empresa aérea manteria ocultos se a imprensa não os descobrisse. Menos que as vidas ou cobrar responsabilidade à companhia, falou mais alto a salvação política.
O novo apagão tornou o recado teatral do Planalto ridículo diante das demandas que se propunha resolver e não o faz. Deixou de aplacar o sentimento de indignação alimentado pelas omissões que conduziram a mais uma tragédia e por revelações cujo contorno parece emoldurar a negligência quase criminosa.
Para a população brasileira, o governo simplesmente não agiu. E não age. Lula quis transparecer o sentimento de pesar que não resiste à comparação com as decisões que anunciou. Afinal, para quem vai voar hoje, sejam passageiros ou pilotos, a situação é rigorosamente a mesma que culminou em 188 mortes. Ou até pior, como se viu no grau de risco que envolveu a pane em Manaus. O pesar presidencial faz parte da maquiagem.
A reorganização do tráfego aéreo em Congonhas e em outros pontos saturados deveria ter saído há muito tempo. Mas as empresas sempre dominaram essas discussões. O resultado do veto ainda está fumegante.
O maior desastre aéreo da aviação brasileira equilibrou o contencioso. As empresas perderam, mas nem por isso deixaram de ganhar algo essencial em um setor que trabalha sete dias por semana, 24 horas por dia: tempo. Serão mais dois meses, além de todos os prazos, dias e horas que o presidente já exigira desde o início do apagão aéreo. E no qual a única mudança no céu está nas almas que ali aguardam por uma explicação que não virá tão cedo.
Da mesma forma, anunciar a construção de um novo aeroporto em São Paulo foi outra medida para empurrar a crise de emergência para um tratamento à base de homeopatia. Como governar é contrariar interesses, a melhor forma de evitar isso é dissimular a falta de vontade em meio às brumas vagas dos projetos de longo prazo. Como medida de ação, ante à gravidade da hora, o anúncio do pacote foi o benchmark de um mórbido marketing oportunista. Deu a um governo omisso no assunto um caráter proativo que jamais demonstrou. Os funerais em Porto Alegre tornaram a manobra inócua e expuseram seu caráter desrespeitoso.
O discurso presidencial também foi alvo de fogo amigo. Ver o presidente da inepta Agência Nacional de Aviação Civil sorrindo, ao ser agraciado pelo comandante da Aeronáutica com a medalha do Mérito Santos Dumont, foi como matar novamente as 188 pessoas a bordo do Airbus.
O semblante orgulhoso dos homenageados diante da dor de tantas famílias conspurcou o valor do prêmio e de quem o concede, já que a honraria é pregada no peito de brasileiros que prestam serviços relevantes à aviação. Nesse caso, deve ter sido outorgada pela tenacidade da Anac em bloquear as mudanças em Congonhas que poderiam ter evitado o horror.