terça-feira, dezembro 03, 2013

Investigação da ONU vincula Assad a crimes de guerra na Síria

BBC Brasil

Para Pillay, escalada de crueldade envolve altos escalões do governo, incluindo Assad


A chefe do escritório de direitos humanos da ONU, Navi Pillay, afirmou que uma investigação reuniu evidências de que crimes de guerra foram autorizados por membros de alto escalão do governo sírio – incluindo o presidente Bashar al-Assad.

Essa é a primeira vez que o órgão de direitos humanos da ONU implica Assad de forma tão direta.

A alta comissária Pillay afirmou que seu escritório preparou uma lista de pessoas consideradas suspeitas no inquérito.

A ONU estima que mais de 100 mil pessoas morreram no conflito.

De acordo com Pillay, a comissão de investigação produziu "evidências massivas... de diversos crimes sérios, crimes de guerra, crimes contra a humanidade".

"A escala da crueldade dos abusos perpetrados por elementos dos dois lados é quase inacreditável", ela disse.

As evidências apontam para responsabilidade sobre os crimes "no mais alto nível do governo, incluindo o chefe de Estado".

Rebeldes
A mesma comissão de investigação já havia afirmado ter evidências de que forças rebeldes da Síria também seriam culpadas de abusos de direitos humanos.

Entretanto, os investigadores sempre disseram que o governo sírio parecia ser responsável por grande parte dos abusos. Isso porque, em sua opinião, a natureza sistemática dos crimes apontavam para uma política governamental.

O vice-chanceler sírio, Faisal Mekdad, desconsiderou as afirmações de Pillay.

"Ela tem falado coisas sem sentido por muito tempo e não a escutamos", disse ele à agência Associated Press.

Segundo a correspondente da BBC em Genebra, Imogen Foulkes, figuras de alto escalão do governo e das forças armadas estão na lista de suspeitos feita pela ONU.

Civis compõem mais de um terço das vítimas da guerra síria

Mas por enquanto as evidências específicas contra cada suspeito estão sendo mantidas em sigilo, até que autoridades do TPI (Tribunal Penal Internacional) decidam se elas serão processadas por crimes de guerra e contra a humanidade.

Anteriormente, Pillay já havia pedido ao Conselho de Segurança para levar o caso ao TPI. Isso porque a Síria não faz parte da corte internacional e por causa disso qualquer investigação estrangeira sobre o país depende de mandato do Conselho de Segurança.

Entretanto, Rússia e China têm direito a veto – o que torna muito complicada a aprovação desse tipo de pedido.

'Mortos passam de 125 mil'
As declarações de Pillay são uma lembrança da gravidade da situação na Síria, enquanto são feitas as preparações para uma conferência de paz em Genebra, marcada para o próximo mês.

Tanto o governo quanto a oposião "Coalisão Nacional" afirmaram que participarão do encontro. Porém, o chefe do grupo rebelde Exército Livre da Síria, financiado pelo Ocidente, disse que seus combatentes continuarão lutando durante as negociações.

A Coalisão Nacional disse rejeitar categoricamente qualquer papel para o presidente Assad em um governo provisório. O regime, por sua vez, afirma que não negociará uma "transferência de poder".

Também na segunda-feira, o Observatório Sírio de Direitos Humanos, um grupo contrário ao regime baseado na Grã-Bretanha, disse estimar que o número de mortos atingiu a cifra de 125.835 – sendo mais de um terço das vítimas civis.

Cerca de 28 mil rebeldes teriam sido mortos. Do lado do governo, as baixas teriam sido mas de 50 mil, incluindo forças regulares e milícias favoráveis ao regime. Os últimos números da organização ainda incluem quase 500 mortos nas fileiras do Hezbollah libanês e de outras milícias xiitas.

O grupo afirmou, porém, que essas estatísticas são inferiores ao número real de baixas, uma vez que os dois lados não costumam relatar todas as perdas que sofreram.

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Guerra civil cria geração perdida na Síria, diz relatório da ONU

A guerra na Síria está criando uma geração de crianças traumatizadas e perdidas, afirmou um relatório da ONU.


De acordo com o documento da agência de refugiados da ONU (UNHCR) os refugiados em idade escolar que foram para os países vizinhos estão cada vez mais afastados das escolas e obrigados a trabalhar para sobreviver.

Até 300 mil destes refugiados no Líbano e Jordânia podem estar foram da escola até o final de 2013.
Crianças de até sete anos de idade podem estar trabalhando em turnos longos e por salários baixos, segundo o relatório.

Mais da metade dos 2,2 milhões de refugiados sírios são crianças e elas podem estar enfrentando riscos, como ameaças ao bem-estar físico e psicológico, até fora da zona de guerra.

"Se não agirmos rapidamente, uma geração de inocentes vai se transformar nas baixas permanentes de uma guerra terrível", disse o Alto Comissário da ONU para Refugiados, António Guterres.

O estudo da ONU é a última tentativa de ilustrar os grandes danos à infância causados pelos três anos de guerra civil na Síria, dentro e fora das fronteiras do país.

A divulgação do documento foi feita pouco depois de uma consultoria em Londres ter estimado que o número de crianças mortas durante esta guerra ultrapassa os 11 mil.

Trabalho infantil
A agência de refugiados da ONU realizou uma série de entrevistas com crianças e famílias sírias que vivem na Jordânia e Líbano entre os meses de julho e outubro.

Crianças traumatizadas frequentam escolas na Turquia (BBC)

Os pesquisadores entrevistaram 81 crianças refugiadas e realizaram grupos de discussões com outras 121 nos dois países, além de consultar funcionários da ONU e de ONGs que trabalham nestas comunidades.

Eles descobriram altos níveis de solidão e de trabalho infantil entre estas crianças.

Mais de 70 mil famílias refugiadas sírias agoram vivem sem o pai, segundo estimativa da UNHCR. E cerca de 3,7 mil crianças refugiadas vivem sem um responsável ou sem os dois pais.

Dos 1,1 milhão de crianças sírias refugiadas, 385.007 vivem no Líbano, 294.304 na Turquia e 291.238 na Jordânia. Números altos destas crianças também estão no Iraque e no Egito.

Segundo o relatório, estes números podem sobrecarregar os governos dos países que recebem os refugiados.

O documento também afirma que, no Líbano, cerca de 80% das crianças sírias não estão na escola e também há provas de crianças quem nascem "sem país", pois a maioria dos bebês nascidos em campos de refugiados não são registrados.

Cerca de 77% dos 781 bebês refugiados e amostrados no Líbano não tinham uma certidão de nascimento oficial, segundo o relátorio. Apenas 68 certidões de nascimento foram fornecidas para bebês no campo de refugiados de Zaatari, na Jordânia, entre janeiro e o meio de outubro de 2013.