quarta-feira, setembro 22, 2010

Como explicar o desespero de Lula e do PT?

Adelson Elias Vasconcellos

Apesar das últimas pesquisas não darem indicação mais aparente de mudança sobre a preferência do eleitorado em relação aos candidatos que concorrem à sucessão de Lula, também, aparentemente, não se vislumbra no horizonte imediato, nenhuma mudança do cenário capazes de justificar o desespero com que Lula e alguns petistas mais graúdos tem revelado nos últimos dias. Ora, se apenas 16% do eleitorado tomou conhecimento das violações de sigilo, mais ou menos este deve este o índice dos que tomaram conhecimento dos escândalos da Casa Civil. Isto teria força para alterar os rumos de uma eleição que se diz já estar decidida no primeiro, muito embora nenhum voto ainda tenha sido dado a ninguém? É claro que, até porque boa parte dos tomaram conhecimento dos dois episódios, já votaria em Serra, independente deles existirem ou não.

Então como se explica que Lula, de repente, tenha mudado o tom, e tenha passado a agir a agir feito cão raivoso em cima dos palanques, atacando de forma imprudente até a Imprensa que apenas cumpre seu papel de informar?

A agressividade, tosca e grosseira, sob todos os sentidos, não seria minimamente nem que a candidata governista estivesse em situação oposta a que se encontra. É inadmissível que um presidente eleito para governar o país durante quatro anos, abandone completamente seu principal encargo, para embrenhar-se pelos palanques Brasil afora, transformado em um cabo eleitoral transtornado, debochando acintosamente do regime de leis vigentes no país, agredindo gratuitamente partidos de oposição, permitindo um vale-tudo ordinário, insultando jornalistas e órgãos de comunicação de forma gratuita e desmedida, apenas por estarem cumprindo plenamente seu deve de informar. A notícia não ser divulgada para agradar a grupos. Ela é componente indispensável para um país tornar-se livre. Cabe à Imprensa, também, porque composta de cidadãos legítimos, fiscalizar as ações de governo, pertença ele a esta ou aquele agremiação política. Não pode se tornar subalterna ao governo de plantão, porque estaria renunciando à sua principal missão.

Este mesmo governo que ora se arvora como detentor exclusivo da opinião pública, quando na oposição, se utilizava dos mesmos jornalistas e órgãos que ataca, para servirem de veículos para suas denúncias, protestos e queixas, plantar notícias muitas vezes sem fundamento, para semear discórdias políticas, para até distribuir dossiês obtidos sempre de forma ilegal, na tentativa espúria de causar instabilidade institucional e insuflar a opinião pública contra os governantes no poder.

As atitudes de agora, revelam muito mais do agressões gratuitas. São demonstrações inequívocas de que o próprio partido além do presidente, começam a perceber pequenas mutações no seio da sociedade, que contrariam seus interesses políticos. Não há uma única razão honesta e democrática que justifique esta pressa toda para liquidar as eleições antes mesmo que elas aconteçam. Não um só motivo para dar-se por encerrado um pleito que sequer se encerrou. O favoritismo nas pesquisas representam o sentimento e a opinião de apenas uma parcela ínfima da população. Pesquisa não é urna, e a experiência histórica ensina que muitos resultados finais desmentiram de forma fragorosa, as pesquisas feitas até então. A pesquisa que conta, o resultado final que realmente tem relevância, é aquele obtido com a contagem e apuração final.

Só há uma hipótese razoável para Lula ter, praticamente, abandonado seu governo, para se tornar cabo eleitoral em tempo integral (o que , aliás, tem sido a tônica de sua atuação desde que assumiu) em favor de sua candidata: a de que, algumas pesquisas já estariam indicando uma possibilidade mínima de haver um segundo turno. Esta pequena possibilidade é que estaria incendiando os nervos dos petistas, porque, tal possibilidade, abre uma imensa avenida de possibilidades não previstas para a coligação governista. Primeiro, que as condições de exposição serão iguais. Segundo, que as denúncias de mal feitos tendem a se acentuar. Terceiro, que a opinião pública já não mais aceitará o retardamento sobre as investigações das denúncias já divulgadas. E quarto, a de que o candidato ou candidato que disputar com Dilma o segundo turno, terá oportunidade de rachar a coligação governista que só se mantém ativa e unida, pela possibilidade de vitória fácil.

Tal hipótese, perfeitamente possível dado o quadro atual, é factível com o comportamento de Lula. E mais: diante da possibilidade de vir a prolongar uma disputa já tida como ganha, vai obrigar que Dilma se exponha mais por si mesma, sem os ajudantes de ordens que lhe acompanham e sem a presença onipotente de Lula nos palanques.

Em outro artigo analisando as razões para pressa em liquidar a eleição presidencial no primeiro turno, levantei outra questão e que ainda permanece ativa: a de que, para o PT e para Lula, uma derrota que, por enquanto, parece improvável, permitiria que, mesmo diante do aparelhamento imoral que se praticou no Estado brasileiro, seria possível provocar uma depuração da máquina mediante o despejo, de imediato, de cerca de 20 mil militantes petistas e sindicalistas. Com tal limpeza, ficam expostas as entranhas do real governo Lula, permitindo que se investigue com mais rigor os muitos crimes praticados e acobertados. O que seria danoso para a imagem que Lula sempre tentou vender ao país.

Resta saber se, diante da improvável derrota, mas factível de acontecer, como reagirão as forças reacionárias de que se vale o partido, para se manter no poder. É bom o país ficar de prontidão para tentativas de fraude não apenas nos resultados, mas também, de se manipular um golpe branco sobre as instituições, na tentativa de se impedir a posse de um governo de oposição, resultante da apuração final.

A ameaça, acreditem, é real. Eles não se conformarão com a derrota, apenas. Tentarão de alguma forma, se utilizando de qualquer artifício que julguem válido, mesmo que ilegal, para impedir sua saída do poder.

Particularmente, Lula cultiva um pavor enorme em caso de ver sua candidata derrotada: a de que, finalmente, o Brasil venha a saber quem é o verdadeiro Lula, vendo ruir o castelo de areia que ele construiu com mentiras desde 2003. Diante de um fato tão inusitado quanto este, até que seria divertido apreciar o brasileiro descobrir que havia um Brasil antes da era-Lula, e que sem ele, o Brasil até poderia estar melhor hoje do que realmente é.