quarta-feira, setembro 22, 2010

A compra e venda de eleitores

Adelson Elias Vasconcellos

Quem assistiu ao Jornal Nacional de hoje, deve ter se surpreendido com uma reportagem em que se noticiava a divulgação de uma pesquisa conduzida pela IBOPE, a pedido da Associação dos Magistrados do Brasil, sobre o comportamento dos eleitores brasileiros.

Em princípio, o comportamento, em geral dos eleitores que a pesquisa revela, não me surpreende. Vamos a três dos aspectos principais.

A primeira, o que não é novidade para ninguém, é haver mais de 70,0% dos eleitores acreditam que os políticos brasileiros atuam em causa própria, isto é, são os únicos que se beneficiam da atividade política brasileira. Em consequência o que se vê é um quadro aterrador, a demonstrar a descrença geral de que os chamados “representantes” do povo, estão longe, muito longe de se justificarem. Os culpados são eles próprios, claro. Mas o eleitor tem lá sua parcela de culpa, conforme a pesquisa acaba dando provas disso.

Outro dado revelador é de que, 9 entre 10 eleitores, acreditam nos propósitos da chamada Lei Ficha Limpa. Antes que a ideia se convertesse em projeto, e este fosse aprovado pelo Congresso Nacional, eu já a defendia em 2006. Se, para cargo de menor importância no serviço público, se exige atestado de bons antecedentes, por muito mais forte razão esta exigência deveria estar presente como exigência básica a qualquer cidadão candidato a cargos eletivos.

O interessante é aquele que faltou para se chegar a unanimidade. O cabra ou é político ou se beneficia de políticos ficha suja. Só pode!

E aí chegamos ao terceiro e mais importante aspecto demonstrado pela pesquisa. Quando questionada sobre compra/venda de voto, a maioria da população se indigna, diz conhecer quem já comprou e quem já vendeu voto, 43% e 41%, respectivamente, recrimina a atitude, etc. Mas, pouco mais de 40% afirmaram que denunciaram algum caso se conhecessem. Porém, reparem neste ponto: 13% informaram que votariam em alguém, mesmo que este “alguém” comprasse votos. E mais: uma grande parcela da população informou que trocaria seu voto por algum tipo de benefício que algum candidato lhe oferecesse, ou seja, “venderia” seu voto.

Quando este dado é classificado por regiões, a gente alcança algumas respostas para algumas questões intrigantes que as pesquisas deixam solta no ar. Antes disso, veja-se o mapa do Brasil, dividido em regiões, sobre a venda de voto por parte dos eleitores:

• Sul – 8%
• Sudeste – 10%
• Norte e Centro Oeste – 13%
• Nordeste – 21%

A exceção do Nordeste, nas demais regiões o resultado da pesquisa acredito não ser tão significativa, afinal, num total de mais de 130,0 milhões de eleitores, com diferentes formações, cultura, escolaridade, condição sócio-econômica, sempre encontraremos neste universo, faixas de pessoas com pensamentos sobre comportamento político também variado.

O assustador é que, no Nordeste, a margem de eleitores que se aceitariam vender seu voto é bastante elevada. Um em cada 5 eleitores não se constrangeria em cometer um crime, porque tanto a compra quanto a venda de voto são considerados crimes eleitorais.

Ora, e fiquemos no Nordeste, se tamanha parcela da população admite que venderia seu voto, e o venderia para quem também não deixa de ser um criminoso, como pode esta mesma pessoa depois exigir que os políticos sejam honestos, se ela própria já condiciona seu ato de cidadania com a ação inescrupulosa de compra e venda de votos? É evidente que o candidato que oferece benefício em troca de voto, não merece nenhuma consideração. Deveria ser descartado de imediato pelos eleitores e até denunciado. Contudo, pouco mais de 40% admitiram que, se tomassem conhecimento de algum caso, denunciariam a prática criminosa.

Se menos da metade denunciam, e considerando o Nordeste, lá, um em cada cinco admitem aceitar benefícios em troca de votos, o candidato resultante deste comportamento, que ainda como candidato se comporta de forma desonesta, não pode resultar, depois de eleito, em um político honesto. Este é aquele político que sempre tem um preço estipulado para votar projetos, independente se é do interesse para o país ou não.

Portanto, quando se olha o quadro degradante da política nacional, que parte dos maus costumes é alimentado pelas escolhas de parte do eleitorado. Claro, todos são fruto de nossas escolhas, e se escolhemos, e o fazemos a partir do mercado de votos, a coisa tende a ficar pior. Não é a toa que se estranhe a pouca indignação do povo brasileiro diante dos escândalos produzidos por atacado, seja no Congresso, seja no Executivo Federal.

Não é apenas a falta de acesso à informação que nos torna totalmente refratários à ideia de cobrar direitos, de se indignar diante da corrupção, de nos mantermos passivos diante até da ação irresponsável do Poder Público no cumprimento de suas funções básicas. E isto está também, em sintonia com a baixa escolaridade de grande da população brasileira, ou pela má qualidade de ensino da parcela mais escolarizada.

Se a gente for fazendo os descontos vamos chegar a um resultado assustador: a de que uma parcela mínima da população, de fato, não se vende, tem escolaridade minimamente razoável, e tem acesso a informação de qualidade. E isto, podem fazer as contas, não atinge sequer 15 de toda a polução do país. E se projetarmos tais cálculos sobre a população que vota, este índice tende a ser inferior a 10%, muito pouco para que o quadro político se altere substancialmente, pelo menos no curto prazo.

Diante disso, é inevitável que as pesquisas que apuram a aprovação do governo, acabem sendo influenciadas pelo comportamento geral que se nota entre os eleitores. Claro, alguns alegarão que a aprovação também atinge camadas mais escolarizadas e mais bem informadas da população. Mas, neste caso, outros fatores acabam influenciando a aprovação ou não, fatores estes que não estão presentes na opinião da maioria.

Se para alguns ou para muitos, o resultado desta pesquisa do IBOPE sobre o pensamento e comportamento dos eleitores brasileiros é surpreendente, para mim que viajo e falo com pessoas de níveis, tais resultados os vejo como perfeitamente naturais e, sim, eles representam muito das causas para que o cenário político além de péssimo seja de absoluto descrédito, além de fornecer parâmetros bem consistentes para entender do porque que uma candidata, de quem pouco ou nada de seu passado é conhecido pela maioria, pode ser eleita em primeiro turno, com votação expressiva, conseguindo uma vitória que nem Lula, com toda a sua “magia” pessoal e sua aprovação recorde conseguiu obter em 2006.

Não se trata apenas de se simplificar ao “é a economia, estúpido”, como muitos analistas tentam nos fazer crer. As razões são bem mais profundas, bem mais culturais do que se possa imaginar.

Claro que se deve considerar a atual situação econômica do Brasil, como mola propulsora de qualquer candidatura governista, até um poste seria um candidato difícil de ser vencido. Contudo, não se admitiria que este poste liquidasse a fatura com tamanha facilidade quanto o cenário atual está a apontar. Também se releva a péssima estratégia de campanha que Serra conduz.

Mas isto tudo não seria suficiente para explicar os resultados que as pesquisas eleitorais estão apontando, por mais que se admita haver alguma forma de manipulação numa ou noutra. A leitura do comportamento dos eleitores vem como que dar o elo final para fechar a corrente. Além disso, é a partir desta leitura que as atuais oposições devem tirar ensinamentos para rever não apenas estratégias futuras, mas também perceber que há espaço para ser conquistado e que há um grupo imenso de eleitores a espera de alguém que lhes oferece algo diferente e que nesta campanha não pode perceber em nenhum dos candidatos. Querem ver? Quantas vezes se falou de ética no poder público? Quantas propostas contemplam melhorias nos serviços públicos básicos? E aqui “propostas” não é apenas “carta de boa intenção”: é proposta no sentido de se apresentar os problemas, as soluções e como tais soluções serão dinamizadas diante dos recursos existentes. E tudo isto dito de forma clara, sem frescuras, em linguagem direta para que o eleitor pudesse entender.

Não é com promessas de elevação do salário mínimo acima do que já consta no Orçamento para 2011, não é prometendo 13º salário para o Bolsa Família que você consegue atingir o sentimento do eleitor. Sabem por quê? Porque isto, Bolsa Família e aumento do salário mínimo, ele já tem. O que ele não tem é qualidade de ensino – qualidade aqui entendido como o conjunto de fatores afetos à educação – através de propostas sérias, saneamento, saúde de qualidade, segurança pública com ações concretas de proteção ao cidadão, um projeto corajoso mas viável de melhoria da infraestrutura, projeto claro de reforma tributária com redução da carga e demonstração de como esta redução beneficia a todos, recomposição das perdas nas aposentadorias dos trabalhadores da iniciativa privada, e assim por diante. Não é gastar tempo a toa em cima apenas de denuncismo. Claro que denunciar atos de corrupção havidos e não punidos pelo atual governo são importantes. Isto é fazer oposição. Mas entender o que angustia o eleitor no seu dia a dia, e atacar estes pontos, é ainda mais indispensável. Sabem por quê? Justamente pelo alto grau de descrença que o eleitorado tem em relação aos políticos. Pelo elevado índice de pessoas que acreditam que os políticos se beneficiam apenas a si próprios.

Assim, creio que a pesquisa IBOPE sobre o comportamento dos eleitores é uma peça sobre a qual tanto a oposição quanto até mesmo os políticos da coligação governista deveriam tirar lições bem proveitosas se, de um lado, é melhorar sua receptividade junto ao eleitorado, e de outro, se há um desejo firme de melhorar o conceito que os políticos em geral tem junto ao eleitorado.

Porque, se ninguém se preocupar com o recado que está sendo dado pelos eleitores, podemos ser atropelados por oportunistas de plantão, prontos para golpearem as instituições. E, se nada mudar na atitude da classe política, acreditem, tal oportunista corre o risco de ter amplo apoio popular.