Rodrigo Constantino, Opinião Livre
O ex-ministro José Dirceu voltou à cena, fazendo um discurso no mínimo constrangedor para a campanha de Dilma, que tenta se manter estrategicamente afastada dele.
Dirceu quis deixar claro que a vitória de Dilma nas eleições representaria a escolha popular do projeto do PT para o país. Segundo ele, a vitória de Dilma será ainda mais importante para o partido do que a de Lula, uma vez que o presidente seria "duas vezes maior" que o PT.
Representantes do PMDB chegaram a se manifestar, lembrando que Dilma representa uma coligação, e não apenas o PT. Mas para o poderoso Dirceu, os eleitores estarão votando no projeto petista de governo. Resta perguntar: que projeto é esse?
Afinal, o projeto enviado para o TSE pelo PT, contando com a rubrica de Dilma, era uma compilação dos sonhos autoritários dos petistas, na linha da "revolução bolivariana" feita por Chávez na Venezuela.
O controle da imprensa, para dar um exemplo de fundamental importância, estaria na ordem do dia segundo este projeto. Como a própria Dilma não desmentiu nem rebateu as afirmações de Dirceu, e como este ainda parece apitar bastante dentro do partido, não temos porque duvidar de suas palavras. O recado está dado, e de forma um tanto clara. Os eleitores, pela ótica dos próprios petistas do alto escalão, estariam dando seu aval ao projeto autoritário de poder no dia 3 de outubro.
Será que o povo está ciente disso? Não falo dos mais ignorantes que trocam seu voto por migalhas e promessas vazias, mas dos eleitores de maior escolaridade e renda que votam em Dilma. Eles não são poucos!
Caso o PT seja bem-sucedido em seu projeto de poder, será difícil alegar surpresa. Quem tem acesso aos jornais, quem viu a fala de Dirceu, quem tem um mínimo de capacidade de compreensão dos fatos não poderá fingir que não sabia de nada depois, se caminharmos mais alguns longos passos em direção ao modelo venezuelano. Dirceu avisou. E Dirceu ainda é PT.
Não custa lembrar, já que a memória do brasileiro costuma ser fraca, o que Dirceu disse no auge do escândalo do "mensalão", sobre sua relação com o presidente Lula: "Não faço nada que não seja de comum acordo e determinado por ele".
E se o recado não estivesse cristalino ainda, Dirceu fez questão de dissipar quaisquer dúvidas: "Sou um soldado do partido e do governo".
O simples fato de José Dirceu ainda ter a relevância que tem dentro do PT, e de fazer as articulações políticas para a campanha de Dilma, demonstra que ele falava a verdade na época.
Não aparecer em público na campanha é apenas uma estratégia de marketing, uma vez que sua imagem ainda está arranhada perante o grande público – tanto que a oposição tem batido nesta tecla, lembrando que o eleitor vota em Dilma e leva Dirceu.
Mas não existe confissão maior de culpa do PT como um todo no escândalo do "mensalão" do que a permanência de Dirceu na cúpula de poder do partido.
O presidente Lula chegou a dizer que tinha sido traído na época; mas sabemos que não foi por Dirceu. Afinal, quem é traído e mantém o traidor por perto, repleto de poder? Somente aquele que não foi traído de verdade, mas sim cúmplice. Dirceu sabe demais. Ele é um "soldado" do partido, e fez tudo de "comum acordo" com o presidente Lula.
O projeto petista é, portanto, aquele defendido por estas mesmas pessoas poderosas dentro do PT. O projeto é o mesmo que contou com o "mensalão" para comprar deputados e concentrar o poder político. O projeto é o mesmo que colocou Erenice Guerra, braço-direito de Dilma, no cargo poderoso que já foi de Dirceu.
A explosão de novos escândalos que culminou na saída de Erenice do ministério, mas não do círculo de confiança de Dilma e Lula, representa apenas mais um capítulo desta novela proibida para menores de idade. O projeto petista, enfim, é um só e o mesmo de sempre: tomar o poder total de uma vez, calar a imprensa independente que ainda incomoda muito, e partir para a "revolução bolivariana" brasileira.
Hugo Chávez sabe disso e aplaude abertamente o projeto, declarando seu regozijo com a quase certa vitória de Dilma. Seus eleitores não poderão alegar desconhecimento dos fatos no futuro.
É muito triste vivenciar uma época em que as futuras vítimas escolhem de bom grado o caminho da servidão. Resta apenas o consolo do filósofo Schopenhauer, cuja morte faz 150 anos dia 21 de setembro:
“É preciso ser paciente, pois um homem de intelecção justa entre pessoas enganadas assemelha-se àquele cujo relógio funciona com precisão numa cidade na qual todos os relógios de torre fornecem a hora errada”.