Editorial
O Globo
Manifestantes temem que Yanukovich ceda à pressão do Kremlin e se junte à união aduaneira com a Rússia, o que bloquearia um acordo com a UE
O presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich, joga sua carreira política numa reunião hoje, em Moscou, com Vladimir Putin. Este recorreu à truculência ao velho estilo soviético para impedir que o vizinho assinasse um acordo comercial e político com a União Europeia, que deslocaria a Ucrânia da órbita russa para a europeia e poderia abrir novas perspectivas de desenvolvimento para o país. Moscou vem aplicando restrições a produtos ucranianos para demover Kiev da aproximação com a UE, o que já custou ao país US$ 2 bilhões desde julho.
A Ucrânia, parte importante do antigo império soviético, precisa de ajuda externa para fechar as contas. Grande parte da população deseja fazer parte da Europa que, apesar de não viver um bom momento econômico, ainda atrai com a força de suas democracias e elevado padrão de vida. A aproximação poderia facilitar as negociações com o FMI para um empréstimo de US$ 15 bilhões de que o país, em recessão, precisa para março.
Mas a Ucrânia está mais próxima da brutal realpolitik do Kremlin do que do sonho europeu. Ao senti-lo, a população da capital tem feito manifestações de centenas de milhares de pessoas, abaixo de zero, para protestar contra a decisão de Kiev de suspender as negociações com a UE, e demonstrar sua frustração com a permanência na esfera de influência de Moscou, onde imperam a arrogância e a corrupção.
Yanukovich joga com os dois lados. Para pressioná-lo, Putin tem cartas na manga. O líder russo mencionou a dívida do vizinho com Moscou e seus bancos: US$ 30 bilhões. A Ucrânia paga um preço elevado pelo gás que vem da Rússia — e o Kremlin acenou com um desconto de US$ 9 bilhões na conta, se Kiev arquivar os planos europeus. Ontem, uma alta autoridade russa aventou a possibilidade de novos empréstimos ao vizinho. Na Praça Independência de Kiev, centro dos protestos contra Yanukovich, os manifestantes temem que ele ceda à pressão do Kremlin para aderir à união aduaneira com Rússia, Bielo-Rússia e Cazaquistão, o que significaria bloquear a possibilidade de um acordo com a UE. As autoridades ucranianas garantem que a matéria não está em pauta.
São relações delicadas. Putin pode punir a Ucrânia, como já demonstrou, mas não vai querer esticar demais a corda com a Europa Ocidental, grande compradora de seu gás. A UE tem várias iscas a jogar para a Ucrânia, mas não pode comprometer outros interesses nas relações com a Rússia. O próprio Yanukovich, imprensado entre os dois gigantes, deu um jeito de viajar a Pequim para ver o que a China tem a oferecer.
Ele, sim, está na corda bamba. Para amansar Moscou, pode acabar em rota de choque frontal com os manifestantes de Kiev. Então, terá de optar entre reprimir, agindo com violência, correr ou recuar e abrir caminho ao desconhecido.
