Comentado a Notícia
O relato que segue, é da jornalista Ruth de Aquino, publicado em sua coluna na Revista Época, desta semana, sob o título acima.
Para mim não se trata, infelizmente, de nenhuma novidade. Faz anos que estamos denunciando casos como estes. Faz cerca de seis anos que reproduzimos aqui um artigo de um médico que denunciava o descaso que o então governo do senhor Lula tratava a saúde pública do país. De lá para cá, é doloroso constatar que a situação degradou ainda mais.
Semana passada, Agência Nacional de Saúde, relacionou uma série de exames genéticos que ficarão sob responsabilidade dos planos de saúde. Entra semana sai semana, e a ANS vai empurrando, com uma frequência assustadora, mais e mais tratamentos e coberturas para os planos de saúde privado. Parecem ignorar que, quanto mais encargos, maior serão as mensalidades a serem pagas pelos beneficiários dos planos privados. Incrível é que a ANS não imponha as mesmas obrigações aos SUS...Os planos são obrigados a cobrir cada vez uma número maior de atendimentos, e num prazo determinado pela mesma ANS sob pena e risco de multa e suspensão da venda de novos planos. Que ela cuide dos planos privados com rigor é um dever que lhe compete e que justifica sua razão de ser. Porém, se pergunta quem imporá as mesmas obrigações, de atendimento e rapidez, aos usuários do SUS.
Também na semana passada, o tal programa federal Mais Médicos, lançado como panaceia para a cura dos males da incompetência do governo em relação à saúde pública, teve um caso insólito. A senhora Rousseff vetou artigo que criava a carreira federal para os médicos brasileiros, numa prova inconteste de que ao governo da Senhora Rousseff não há interesse em resolver o problema da falta de profissionais de saúde na rede pública.
Porém, o senhor Alexandre Padilha, apelidado de Ministro da Saúde não descuida um segundo sequer de sua descarada campanha eleitoral com vistas ao governo do estado de são Paulo. E o país prefere enviar o dinheiro do contribuinte brasileiro para financiar a ditadura cubana do que em prover a rede pública de condições mínimas de atendimento à população.
Já afirmei aqui: o fato de Dilma até poder ser reeleita em 2014 não significa que seu governo, e no particular da saúde nem de seu antecessor, sejam competentes com a saúde pública. Falta-lhes tudo, vergonha, competência, interesse, prioridade, respeito para quem é obrigado a bancar esta elite estatal vagabunda e ociosa.
Vamos ver até que ponto o povo brasileiro aguentará esta degradação dos serviços pelos quais ele paga, religiosamente, uma carga tributária que mais parece, dado o nenhum retorno, uma extorsão e um assalto sem limites. Um dia estes abusos chegarão ao fim. Já é insuportável a publicidade de bilhões de reais que mente descaradamente sobre um governo medíocre. Quanto mais ainda conviver com um estado degradante e degradado. O que torna a situação ainda mais caótica é que o ministro responsável pela área dá maior preocupação à eleição em São Paulo, do que tratar com esmero a área sobre a qual é responsável e de cuja eficiência dependem milhões de brasileiros.
Em tempo: a presidente afirmou, com todas as letras, que não foi eleita para construir “muquifos”. Mas também o voto que recebeu não lhe dá o direito de ser hipócrita. Inaugurar um hospital Em São Bernardo do Campo, que só poderá operar com 30% d e sua capacidade, convenhamos, vai muito além do muquifo. Já se trata de canalhice. E da pior espécie, pois bancada com dinheiro público.
A seguir, o artigo da Ruth de Aquino.
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Faltam roupas, remédios, leitos, faltam médicos, anestesistas, enfermeiros. FALTA VERGONHA
“Aqui, olha, deixam a gente na musiquinha”, disse a recepcionista do Hospital Barra d’Or, no Rio de Janeiro, apontando o telefone em viva voz. Ela tentava, sem sucesso, autorização do Bradesco Saúde para Hélio Araújo ser atendido na emergência. Hélio tem 91 anos e é meu pai. Sofreu uma queda em casa, e um armário caiu por cima dele. Esperava na cadeira de rodas, a mão enfaixada, pingando sangue no lobby do hospital. Não sabíamos se havia fratura da mão um dano no crânio. Meus pais pagam R$ 2.440,00 por mês ao plano de saúde. A mesma seguradora desde 1978.
“Não autorizaram emergência, só internação.Também não autorizaram tomografia cerebral. Estou tentando o raio-X”, disse a recepcionista. “Então pago tudo particular, depois abro um processo”, disse eu. Só assim ele foi atendido, “no particular”, após horas de incerteza. Ficamos no hospital das 20 horas às 4 horas da manhã. Na saída, surpresa: não foi preciso pagar nada. Mas a recepcionista teve de insistir horas, houve discussão e estresse. É o caso de um paciente de elite, que enfrenta os maus-tratos comuns dos planos.
O buraco é bem mais embaixo na saúde pública do Brasil. Sinto náuseas ao ver multidões de pacientes, de crianças a idosos, dormindo em filas diante dos hospitais, com senhas só para “agendar a consulta”, e não para atendimento. As senhas acabam. As pessoas choram. Estão vulneráveis, doentes, frágeis, sentem-se humilhadas, escorraçadas. Gosto de chorros, mas acho que a sociedade tem se escandalizado mais com o tratamento dispensado a cães do que a seres humanos.
O estado deprimente e indigno da nossa Saúde é o maior atestado de que a ideologia política de um governo não garante o respeito aos direitos básicos escritos na Constituição brasileira. Temos uma década de governo “de esquerda” – já que o PT se considera um partido do povo. O que diante dos hospitais é a fila da vergonha. Nossas emergências e nossos postos de saúde estão em colapso.
No Rio, há 12.500 pacientes à espera de cirurgia em hospitais federais. Alguns esperam há sete anos. Os dados são da semana passada, levantados pela Defensoria Pública da União. Os defensores decidiram processar o Ministério da Saúde. Querem um cronograma oficial de cirurgias no prazo máximo de dois meses. Exigem que o ministério pague uma indenização coletiva aos pacientes, de R$ 1,2 bilhão.
Os pacientes morrem na fila da cirurgia. Cirurgias vasculares, cardíacas, neurológicas, ortopédicas, urológicas, oftalmológicas e torácicas. Os médicos se descabelam por falta de tudo. Sem parafusos e placas, idosos não podem ser operados num dos maiores hospitais do Rio. Uns pedem material emprestado aos outros. De nada adianta. A precariedade é o artigo mais em alta nos hospitais federais, estaduais e municipais. O jogo de empurra entre as esferas do governo é conhecido. União, estados e municípios se mostram incompetentes e venais na oferta de serviço de Saúde. Levam pacientes a histeria, pelo sentimento continuado de impotência.
O programa Globo Repórter da última sexta-feira 13, chamado “Emergência médica”, equivale a um filme de terror. Só que tudo é verdade. Durante 40 dias, primeiro com câmeras escondidas, depois oficialmente, uma equipe de repórteres e cinegrafistas voltou aos mesmos hospitais e postos de saúde da família denunciados há quase três anos pela TV Globo, para ver o que mudara. Nada. Em Belém ou no entorno de Brasília, não importa, a calamidade na Saúde rima com crueldade.
Pacientes dividem a mesma maca, quando não estão no chão. Um médico de macacão atende pacientes coletivamente, como se estivéssemos EME guerra. Em março de 2011, em Belém, uma menina, Ruth, morreu na frente da câmera dos jornalistas. Tinha vindo de uma ilha, com uma leishmaniose que virou pneumonia. Não resistiu à falta de estrutura dos hospitais. Médicos diziam que nada poderiam fazer, não havia material nem esperança. Os jornalistas voltaram agora à casa da família de Ruth. Os parentes nunca receberam indenização. Ninguém é culpado jamais.
Faltam roupas para operar no centro cirúrgico. Faltam leitos. Faltam médicos , anestesistas, enfermeiros. Falta salário. Faltam remédios. FALTA VERGONHA.
Minha empregada, Lindinalva Souza, estimulada pelas campanhas do governo de prevenção de câncer nos seios, foi à Clínica da Família em Campo Grande, Zona Oeste do Rio, pedir uma mamografia. Faz quatro meses. “Quando tiver uma vaga, a gente te chama”, disse a agente da saúde. “Por enquanto, só estamos atendendo diabéticos, hipertensos e grávidas”. Que resposta é essa?
E, assim, brasileiros e brasileiras anônimos somem para sempre no corredor da morte, ignorados pelos governos, que gastam nossos impostos com sei lá o quê.
