Bolívar Lamounier, Portal Exame
Dilma Rousseff desembarcará em Cuba daqui a dois dias. Dois ou três dias, não estou certo, nem vem ao caso. O que me importa saber é se ela vai como pessoa física ou como pessoa jurídica.
Pessoa física ou jurídica? Como assim? Já me explico.
Diferentemente de nós, mortais comuns, Dilma Rousseff tem uma dupla natureza. Não chega a ser uma trindade, mas é uma dualidade. Nela há duas pessoas; duas em uma. Por um lado, ela é uma cidadã, e nisto não se distingue de nós. Mas por outro ela é também a presidente da República, o Chefe do Estado brasileiro, e nisto ela se diferencia totalmente.
O atributo, cargo, função (como queiram) de presidente nenhum cidadão compartilha com ela. Outros cidadãos (os deputados e senadores) dividem com ela a função de nos representar, ou seja, de representar a nação. Mas o que vai acontecer em Cuba é um encontro entre chefes de Estado, portanto é com ela que a bola vai estar.
Desculpem, eu me apressei e acabei pulando a questão prévia. Ela viaja a Cuba como pessoa física (uma simples cidadã) ou como pessoa jurídica (a chefe do Estado e representante da nação brasileira)?
Se me disserem que ela vai como pessoa física, eu lhe desejo boa viagem e paro por aqui mesmo. Que descanse e aproveite os dias que vai passar lá. Mas o que consta, obviamente, é que se trata de uma viagem oficial. Quando ela começar a descer a escada do Aerolula, é a presidente do Brasil que o comandante Raúl Castro estará vendo.
Nesse caso, a primeira observação a fazer é a de que Dilma Rousseff já não se pertence. Quaisquer que sejam suas memórias e imagens de Cuba, seu grau de simpatia ou antipatia pelos irmãos Castro, sua avaliação pessoal sobre o último meio século da ilha etc etc etc, ao estender a mão ao comandante ela estará representando o Brasil. Ou seja, NOS representando. Representando não só os que pensam como ela, não só o PT, não só o pessoal do Itamaraty, que sem dúvida a “briefou” até a exaustão…, mas ao país inteiro. A todos nós.
A premissa que acabo de expor tem algumas implicações relevantes, a primeira delas já no terreno das atitudes. Dilma não vai a Cuba para encontrar velhos amigos, ou tios que não vê há muito tempo. Vai como autoridade máxima de um país soberano para encontrar as autoridades máximas de um país também soberano. Previna-se, portanto, para não repetir o triste espetáculo que Lula e sua trupe encenaram dois anos atrás: um espetáculo com revestimento externo de camaradagem e um miolo de indisfarçável subserviência.
Segundo, a presidente brasileira viaja como líder de uma nação democrática. De um país que procura respeitar os direitos humanos e se empenha por vê-los respeitados em todo o mundo.
Sim, já sei; já quase ouço aqueles sussurros de sempre: “o Brasil tem investimentos em Cuba”, “há interesses econômicos em jogo”, “dos direitos humanos nós estamos tratando em foros multilaterais”, “não convém…”, “não é bom…”.
Ora, pois. Em primeiro lugar, os valores a que acima me referi não são matéria para interpretação. Estão na Constituição brasileira. São mandamentos. Em segundo, investimentos vultosos em Cuba são mais uma razão para a presidente expressar os valores brasileiros, não para omiti-los. Para os enunciar – observando as formalidades e os melhores modêlos diplomáticos, isto é óbvio -, não para emudecer e enfiar o rabo entre as pernas.
Por último, a viagem em questão não diz respeito apenas a Cuba; aliás, toda visita oficial a outro país tem projeções noutros países.
Que país a presidente Dilma quer projetar? Um país que tenta esconder sua fraqueza econômica e política atrás de uma cortina de bom-mocismo, ou a potência emergente que seu governo não se cansa de cantar em prosa e verso? Um grande exagero, como sabemos, mas antes este que o exagero anterior, de sentido oposto: o exagero da fraqueza.
Eu suponho – e como poderia supor outra coisa? – que a presidente quer encarnar o país em que acredita, em que tem fé, em que confia. O país que espera ver bem mais adiantado dentro de poucos anos.
Ora, se assim é, senhora presidente, assuma com a indispensável formalidade, mas também com altivez, a causa da democracia e dos direitos humanos. Diga que deseja se avistar com representantes da oposição. Peça esclarecimentos sobre essas mortes de dissidentes que vem se sucedendo nas prisões cubanas. Pergunte por que uma revolução socialista consolidada há várias décadas antepõe tantas dificuldades a viagens de cidadãos seus ao exterior.
Senhora presidente: isso aí lhe parece mesmo tão difícil?