terça-feira, janeiro 31, 2012

Sem-terra: luta no campo sofre ‘descenso’

Tatiana Farah, O Globo

Líder do MST admite que programas sociais e empregos estão enfraquecendo mobilização de militantes do movimento

PORTO ALEGRE- Mais emprego e programas sociais e menos reforma agrária. Sob esse cenário, a luta no campo tem sofrido um “descenso”, avalia um dos dirigentes nacionais do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Joaquim Pinheiro. Para ele, a oportunidade de emprego nas cidades e os programas sociais, como o Bolsa Família, têm apontado outro caminho para uma parcela dos sem-terra, principalmente aqueles acampados por anos à espera de uma solução do governo por um pedaço de terra no campo.

— Grande parte dessa base social, que antes era o público de reforma agrária, agora tem outras possibilidades. Inclusive uns recebem Bolsa Família, uns já estão com possibilidade de emprego na cidade.

Segundo Pinheiro, a desmobilização não atinge apenas o MST, mas os outros movimentos sociais brasileiros. Ele negou que seja um processo de cooptação do governo.

— Estamos vivendo uma espécie de descenso desse processo de mobilização e procuramos entender o que está ocorrendo. Isso é fruto de alguns projetos sociais que o governo tem feito. Não é cooptação dessa base social. Apoiamos esses projetos, porque o governo tem a obrigação de atender essas famílias. Mas queremos um programa de desenvolvimento para que as famílias não fiquem reféns desses projetos sociais.

“Se o MST não fizer ocupações, deixa de existir”
Segundo Pinheiro, apesar de ter “bons interlocutores” no Planalto, o MST não deu uma trégua à presidente Dilma. Ele afirmou que as ocupações continuam e que os sem-terra planejam o chamado “abril vermelho”, mês de ocupações em massa pelo país.

— Temos feito várias mobilizações para sensibilizar o governo. Fizemos uma marcha, no ano passado, e ocupações de terra em todo o país. O sangue do movimento é exatamente isso, as ocupações. Se o MST não fizer ocupações, ele deixa de existir.

O “inimigo” para o MST, no entanto, é outro.

— Nosso principal inimigo, vamos tratar assim, são as grande corporações transnacionais. São elas que mandam e desmandam nos países e não só no Brasil. No dia 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, vamos iniciar uma mobilização internacional para falar da crise do sistema capitalista — disse o líder sem-terra.

Durante o Fórum Social Temático, em Porto Alegre, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, ícone da esquerda, fez um apelo público para que Dilma atendesse mais os movimentos sociais e fizesse a reforma agrária. Pinheiro concordou:

— Nunca foi feita a reforma agrária neste país. O que ocorre são assentamentos pontuais de famílias, é bom que se diga, sob forte pressão e mobilização popular.

Pinheiro afirmou ao GLOBO que o MST tem dado apoio aos sem-terra paraguaios e defendeu o assentamento de brasiguaios (brasileiros e filhos de brasileiros que vivem no Paraguai) no Brasil. Ele disse que, por meio da Via Campesina, o MST ajudou na organização desse movimento:

— São latifundiários brasileiros que são donos dessas terras no Paraguai. Somos solidários à luta dos sem-terra paraguaios contra os fazendeiros brasileiros. Mas a grande maioria dos brasiguaios é de trabalhadores rurais que foram para o Paraguai em busca de terra e não conseguiram, acabaram trabalhando nas grandes fazendas de brasileiros. São sem terra. Existe muita terra no Brasil e queremos que eles sejam assentados aqui.

Segundo ele, há uma tentativa de criar um conflito os brasiguaios sem-terra e os paraguaios:

— Querem colocar pobre para brigar contra pobre. Para nós, é uma saída completamente equivocada.

******  COMENTANDO A NOTICIA:
As razões apontadas no texto estão corretas enquanto a análise for superficial. Mas é preciso ir mais a fundo desta questão.

Ocorre que, enquanto o número de desempregados urbanos era enorme, entre 8 a 10% da força de trabalho, havia um contingente enorme de insatisfeitos que se deixavam levar pelo discurso e o paraíso que os movimentos de sem terra arrotavam país a fora. Porém, na medida em que esta mão de obra foi sendo absorvida pelas empresas, verificou-se que, no fundo, grande parte do contingente era constituído não por sem terras, mas sim por "sem emprego". 

E aí há ainda outro pedaço da história: na verdade, “sem terra” no país hoje são muito poucos, dado que o número de assentamentos realizados no Brasil, intensificados a partir do governo FHC e que Lula deu continuidade, acabou, de fato, esvaziando o movimento. No fundo, o que restou são baderneiros que ainda se valem de alguns gatos pingados usados como massa de manobra ou bucha de canhão. O discurso frenético de ontem se esvaziou por completo no presente.

Claro que nos acampamentos ainda existem agricultores em busca de um pedaço de chão para chamarem de seu. Mas são minoria. E existem também muitos que, apesar de já terem sido assentados, acabam engrossando as fileiras apenas para praticarem vandalismo.

Podem ter certeza que quando não colar o discurso dos "oprimidos" sem terra, eles buscarão outra desculpa esfarrapada para permanecerem naquilo em que se especializaram: terrorismo. É só o que eles sabem fazer. Mesmo que todos recebessem um pedaço de terra para plantar, não demoraria muito para o movimento encontrar outras motivações para a baderna.